domingo, 6 de dezembro de 2015

Fire (14)

 Assim que voltaram do acampamento, puseram-se a estudar com mais frequência, a semana finais de provas se aproximava, era um momento de tensão para Lile e Robert, que dependiam de boas notas para continuar estudando ali. Louis os ajudava no que podia, Marie, que também era inteligente, colaborava, não dava pra dizer que ela se integrou ao grupo, mas tê-la por perto não era mais um sacrifício.

 Em meio a aula de geografia, ouve-se batidas na porta da sala de aula, um senhor calvo, um tanto acima do peso e sorridente adentrou a sala.
 - Perdão pela intromissão, gostaria de me apresentar. Meu nome é Malcon, serei o novo diretor de vocês. Quero que contem comigo para tudo, estarei sempre disponível na minha sala.
 Essa informação chocou Lile e Louis, os dois se entreolharam e pareciam não entender o que estava acontecendo, Lile perguntou:
 - O que houve com o senhor Alfred?
 - Bom, é um caso complicado, não vou falar disso agora, vão acabar sabendo em breve. Bom, podem retornar aos estudos. - Malcon saiu da sala, Lile e Louis se puseram a conversar enquanto todos da sala especulavam.
 - O que isso significa? - Perguntou Louis.
 - Não sei, mas devo confessar que me sinto melhor sabendo que aquele verme não é mais nosso diretor, resta saber se o filho dele continua aqui.
 Quando se reuniram no intervalo, Robert apareceu animado.
 - Vocês não vão acreditar.
 - Alfred não é mais nosso diretor. - Respondeu Lile.
 - Não só isso, aquele imbecil do filho dele também não é mais aluno dessa escola.
 Lile sorriu de orelha a orelha. - O que será que aconteceu?
 Robert puxou seu celular do bolso, depois de algumas pesquisas por jornais locais, descobriu algo intrigante.
 - Parece que mais casos de agressão envolvendo seu filho vieram a tona, e parece que em todos os casos o pai acobertava as ações do filho. De acordo com essa fonte a ultima agressão ocorreu com o aluno do primeiro ano... da nossa escola. - Lile arregalou os olhos.
 - Aquele menino que veio com o braço enfaixado... que canalha, o menino deve ter metade do tamanho dele.
 - Pois é, pelo que parece não foi só esse caso, outros alunos o denunciaram também, acharam melhor suspender o senhor Alfred da diretoria.
 Lile gargalhou de satisfação. - Finalmente aquela corja teve o que mereceu.
 - Nem acredito... nos livramos deles. - Robert suspirou.
 - Hey, vejam. - Louis apontou para o portão, era Tyler, acompanhado de um homem bem vestido. Lile se apressou em segui-los, Robert e Louis a seguiam de perto. Antes que entrassem no carro, Lile teve o prazer de falar:
 - Não acredito que deixaram esse tipo de gente entrar nessa escola. - Disse sorrindo. A cara de satisfação nela era algo quase poético, se sentia completa, foi fuzilada por um olhar de ódio vindo de Tyler. Lhe disse na hora mais oportuna possível o que o próprio Tyler havia lhes dito um tempo atrás.

 Voltando para casa, Lile comemorava.
 - Essa cena deveria ter sido pintada e exposta num museu.
 - Não podemos baixar guarda, tenho a leve impressão que ele vai querer nos incomodar ainda. - Disse Louis.
 - Pro bem dele, espero que não. - Robert respondeu.
 - Queridos, preciso passar na farmácia comprar coisas de garota, por que não me esperam no parque? - Disse Lile.
 - Claro. - Responderam os dois.
 Sentaram-se em baixo de uma árvore, Robert estendeu um pano e deitou a cabeça nas pernas de Louis, acendeu um cigarro. Louis mexia no cabelo de Robert enquanto o gigante divagava em pensamentos.
 - O que está pensando agora? - Perguntou Louis.
 Robert demorou a responder. - Sinto falta de casa, da mamãe... me pergunto se ela está bem.
 - Seu pai cuida bem dela?
 - Cuida, mas ele é muito duro, as vezes é rude e grosso, nossa mãe é muito frágil, me preocupo por ela.
 - Você sempre se preocupa por todo mundo... queria ter tido um irmão que nem você. - Disse Louis, Robert sorriu.
 - Agora você tem... desde pequeno meus pais me faziam cuidar de Lile, se ela voltasse com algum arranhão, mesmo que não tenha sido por minha culpa, eu ficava de castigo, as vezes apanhava.
 - Isso não é legal.
 - Não parece ser, mas isso fez com que meu laço de proteção com Lile aumentasse bastante... sabe Louis, você disse que tem medo de se tornar dependente de algum sentimento, dependente de nós, eu sou dependente de vocês, não sei o que faria sem você ou a Lile. - Louis sorriu e o abraçou.
 - Não precisa imaginar o que faria sem nós, isso não vai acontecer.
 Ficaram um tempo em silêncio, Robert terminava o cigarro, parecia que o cigarro trazia nostalgia e não câncer.
 - Um dia vou te levar pra Romênia, vou te mostrar meus lugares favoritos... tem um parque aonde eu ia pra fugir de tudo, levava meu mp3 e me escondia no meio do mato, era um parque em sua maior parte aberto, com lindos lagos e com pouco concreto em volta. Eu gostava de ficar na parte fechada, onde ninguém pudesse me ver, assim eu chorava, destruía coisas, cantava, tudo o que eu precisava fazer pra me aliviar, fazia lá.
 - Vou adorar conhecer sua cidade.
 Lile os interrompeu.
 - O que estão tramando sem mim?
 - Apenas lembrando de como Bucharest faz falta. - Lile esboçou um sorriso triste.
 - Faz mesmo... mas agora estamos felizes, mais felizes do que lá, não é mesmo?
 - Claro! - Robert levantou, abraçou Lile e Louis. - O lugar é o de menos quando as pessoas que você ama estão ao seu lado.

 No dia seguinte, Lile voltava da aula, Louis havia ido para casa e Robert para a livraria, tomava seu caminho habitual, tinha por vezes, a sensação que alguém a seguia, olhava para trás mas nada via. Quando virava a esquina da rua de sua casa, trombou com Tyler, que a esperava ali. Subitamente, Tyler a imobilizou, tampou sua boca e puxou seu cabelo, a levou até um carro onde outro rapaz o esperava, Lile nada pode fazer, Tyler a colocou dentro do porta-malas, o carro era barulhento e ninguém ouvia sua voz abafada pelo pano que cobria sua boca. O carro seguiu por horas até um lugar ermo,  Tyler roubou seu celular, então Lile estava incomunicável. Lile estava apavorada, sabia que alguma coisa iria acontecer, que provavelmente poderia até morrer, pensou em Louis, pensou em Robert, começou a chorar, mas seu instinto de marrenta falava mais alto, chutava a lataria do carro como podia, na esperança de que o porta-malas abrisse.

 Robert voltou para casa e encontrou a porta ainda fechada, tinha a cópia da chave. Entrou e procurou por Lile, não a encontrou, imaginou que estaria com Louis, pouco tempo depois, Louis apareceu.
 - Oi, Rob. Tá tudo bem por aí?
 - Sim, a Lile está com você?
 - Não, na verdade tentei falar com ela mas ela não me responde, iria chamar vocês pra jantar lá em casa.
 Robert pôs-se a pensar, não gostava muito da situação.
 - Estranho, ela nunca sai sem deixar recado, e quando não está em casa está com você. Devo me preocupar?
 - Tentou ligar pra ela?
 - Sim, dá caixa postal direto.
 Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, a aflição estava estampada ali em suas caras.
 - Vamos dar uma volta pelo bairro, talvez ela tenho ido ao mercado ou coisa parecida. - Disse Louis.
 - Pode ser, vamos nos separar, quem a encontrar liga pro outro.
 E foram.

 O carro parou, o coração de Lile também, estava pronta pra fazer o que fosse preciso quando abrissem o porta-malas. Sentiu o clic e fechou os olhos. Antes que pudesse fazer alguma coisa, Tyler a puxou pelos cabelos e a jogou no chão, Lile se debatia como podia, Tyler apoiou seus joelhos nas costas de Lile, ela sentia mais raiva que dor. Olhou em volta, não sabia onde estava, pelo tempo que ficou no carro imaginava que estava bem longe de casa, parecia um terreno baldio de difícil acesso.
 - Está com medo? - Perguntou Tyler. - Eu e você temos algumas coisas pendentes pra acertar... - Ele tirou um canivete do bolso, Lile suava frio, começou a chorar.
 - Oh... agora você não é tão valentona não é? - Dizia isso enquanto passava a ponta do canivete pelo pescoço de Lile. - Já estou cansado dessa sua arrogância, quem você pensa que é? Você e seu irmão, juntos com aquele pivete... são uma aberração.
 Lile sentiu que Tyler estava cortando seus cabelos, começou a gritar como pode. Via suas longas madeixas ao seu lado, no chão.
 - Grite, vai ser em vão. Vou te tratar como toda vagabunda que nem você merece ser tratada.

 Robert e Louis foram para uma delegacia, relataram que Lile havia desaparecido e não havia sequer pistas de onde poderia estar. Os dois estavam preocupadíssimos, tinham um péssimo pressentimento quanto a isso. Robert tentava se acalmar, Louis via que Robert se esforçava para não surtar e fez o mesmo, precisava manter as ideias no lugar numa situação dessas.
 - O que?! Como assim 24 horas? Ela pode estar correndo perigo AGORA! Não vou ficar aqui esperar dar 24 horas pra vocês começarem a fazer algo. - Robert havia perdido o ultimo pingo de sanidade.
 - Meu jovem, pelo que você me falou, a sua irmã está sumida a poucas horas, nada me garante que ela esteja em perigo. Para declarar uma pessoa desaparecida, são necessárias essas 24 horas. - Disse o delegado.
 Robert puxou a gravata do delegado com força e falou quase encostando seu nariz no dele. - Tem um cara que costuma nos perseguir, eu tenho quase certeza que foi ele, o senhor precisa nos ajudar! - Louis tentou acalmar Robert.
 - Solta ele, Robert, delegado, desculpe, estamos muito aflitos, não sabemos o que fazer.
 - Antes de tudo, você vai soltar minha gravata e eu não vou te prender por desacato. - Robert respirou fundo e se afastou. - ... Por favor. - Robert continha a umidade nos olhos com bravura. Louis o confortava.
 - Vou ver o que posso fazer, ok? Me passem os dados da menina.

Tyler tirou o pano que cobria a boca de Lile.
 - EU VOU MATAR VOCÊ, SEU VERME! - Lile se debatia, gritava.
 - Quem vai matar você sou eu, piranha.
 O coração de Lile gelou.
 - Só assim pra você ter uma menina ao seu lado, na força... quem é que vai querer ficar com você? Um sujeito tão burro, ignorante e covarde. - Lile cuspiu no rosto de Tyler, ele por sua vez suspirou fundo e limpou o rosto. Lile estava amarrada nos pulsos, que pendiam em suas costas, e nos tornozelos. Tyler acertou um chute no estômago de Lile, um espasmo abafado de dor vibrou em seu corpo.
 - Calada... foi uma péssima ideia você ter vindo para cá, deveria ter ficado no seu país, roçando uma horta, sua caipira, aqui não tem espaço pra pessoas como você.
 - Quem você pensa que é pra dizer onde eu devo ou não ir? Onde eu devo ou não ficar? NINGUÉM.
O mundo é meu, eu posso ir pra onde eu bem quiser, e não vai ser um zero à esquerda como você que vai me dizer o contrário. Estou farta desse tipo de gente que desmerece uma mulher ou uma pessoa que vem de fora... você não tem nada no cérebro e isso me dá pena.
 Tyler bufou, se aproximou violentamente de Lile, pressionou seu rosto contra o chão de terra batida. Falava bem perto de seu ouvido. - Agora já chega, minha paciência esgotou.

 Louis e Robert estavam sentados à espera de algum movimento policial.
 - Louis.
 - O que?
 - Se acontecer alguma coisa com a Lile...
 - Não vai acontecer nada.
 - ... Se acontecer alguma coisa com ela... eu vou matar aquele sujeito, com as minhas próprias mãos.
 - Isso não vai ser preciso. - Louis apoiou sua mão na de Robert.
 - Se algo acontecer com ela eu nunca vou me perdoar, Louis.
 - Mas não é culpa sua...
 - É meu dever protegê-la... ela é tudo pra mim. - Robert já não continha mais as lágrimas, Louis estava desesperado, o abraçou, tentava pensar em alguma coisa mas se sentia um completo inútil e também se culpava.
 Viaturas policias começaram a vasculhar a área em busca de pistas, Louis e Robert os acompanhavam, pelas arredondezas nada encontraram. Deram informações também sobre Tyler, o possível agressor. Louis imaginava que Tyler não estaria no próprio carro, mas sim no de um comparsa, era sempre o mesmo, deu os detalhes de como o garoto era e onde morava. Foram até a casa dele, conseguiram com os pais informações sobre o carro, pela placa, o rastrearam. O possível suspeito foi fotografado a última vez por radares em uma área um tanto afastada dali, no mínimo bem estranha. Seguiram até lá.

 Por mais força que fizesse, Lile não conseguia sair dali, sentia nojo, pensava em Robert e Louis, chorava e não tinha mais voz para gritar. Tyler esfregava seu corpo pesado sobre Lile, lambia sua orelha, seu pescoço, a despia pouco a pouco, Lile tentou mordê-lo na esperança de arrancar algum pedaço, em vão. Ele cortou as roupas íntimas de Lile com o canivete, tinha um sorriso nojento na cara, quase babava. Lile se sentia suja, queria vomitar.

 Lile sentiu um espasmo de dor, nunca imaginou que isso fosse acontecer com ela, estava ali, sendo usada, com os cabelos cortados, nua, humilhada, simplesmente pelo fato de não ser dali, ou de ser mulher. A cada fisgada seu ódio crescia, podia ver o sorriso pervertido de Tyler sobre ela. Tyler foi interrompido pelo comparsa.
 - Tyler! Ouvi sirenes, acho que estão atrás de nós.
 - Meu irmão vai matar você. - Disse Lile, bem baixo, com todas as forças que lhe restavam. Tyler entrou em pânico.
 - Preciso me livrar dessa garota.
 - Mata ela! - Disse o comparsa.
 As sirenes se aproximavam cada vez mais, Tyler não sabia o que fazer.
 - Não dá tempo, NÃO DÁ TEMPO... não vai dar pra eliminar todas as pistas... maldição!
 - Bota ela no porta-malas de novo.
 - Vai ser pior... - Tyler apoiou os joelhos sobre as costas de Lile novamente. - Se você contar que fui eu, vou caçar você até a morte.... estamos claros?
 Tyler e o comparsa entraram no carro e partiram. Lile ficou ali, deitada, nua, sangrando, cortaram seus cabelos, mas não levaram seu orgulho.
 Poucos minutos depois, duas viaturas apareceram no lugar, Robert, mal esperou o carro estacionar e pulou, foi correndo em direção a Lile, que parecia estar desmaiada.
 - LILE! Minha irmã... - Ele chorava, estava tremendo, Louis olhava de longe, não tinha coragem de ver. - Quem fez isso com você? Foi aquele verme não foi? Fala comigo meu amor... me desculpe, eu sou um péssimo irmão, eu deveria estar te protegendo.
 Lile, abriu os olhos e pareceu ver uma miragem, sua visão embaçada via Robert, ela suspirou aliviada e sorriu como pode. - Não seja bobo... você sempre aparece pra me salvar... - Lile disse. Robert chorou muito, Louis apareceu para confortá-los. Louis nunca em sua vida havia ficado tão triste, uma faca foi enfiada em seu peito quando viu a menina que mais amava naquele estado... Parecia um pesadelo.