domingo, 6 de dezembro de 2015

Fire (14)

 Assim que voltaram do acampamento, puseram-se a estudar com mais frequência, a semana finais de provas se aproximava, era um momento de tensão para Lile e Robert, que dependiam de boas notas para continuar estudando ali. Louis os ajudava no que podia, Marie, que também era inteligente, colaborava, não dava pra dizer que ela se integrou ao grupo, mas tê-la por perto não era mais um sacrifício.

 Em meio a aula de geografia, ouve-se batidas na porta da sala de aula, um senhor calvo, um tanto acima do peso e sorridente adentrou a sala.
 - Perdão pela intromissão, gostaria de me apresentar. Meu nome é Malcon, serei o novo diretor de vocês. Quero que contem comigo para tudo, estarei sempre disponível na minha sala.
 Essa informação chocou Lile e Louis, os dois se entreolharam e pareciam não entender o que estava acontecendo, Lile perguntou:
 - O que houve com o senhor Alfred?
 - Bom, é um caso complicado, não vou falar disso agora, vão acabar sabendo em breve. Bom, podem retornar aos estudos. - Malcon saiu da sala, Lile e Louis se puseram a conversar enquanto todos da sala especulavam.
 - O que isso significa? - Perguntou Louis.
 - Não sei, mas devo confessar que me sinto melhor sabendo que aquele verme não é mais nosso diretor, resta saber se o filho dele continua aqui.
 Quando se reuniram no intervalo, Robert apareceu animado.
 - Vocês não vão acreditar.
 - Alfred não é mais nosso diretor. - Respondeu Lile.
 - Não só isso, aquele imbecil do filho dele também não é mais aluno dessa escola.
 Lile sorriu de orelha a orelha. - O que será que aconteceu?
 Robert puxou seu celular do bolso, depois de algumas pesquisas por jornais locais, descobriu algo intrigante.
 - Parece que mais casos de agressão envolvendo seu filho vieram a tona, e parece que em todos os casos o pai acobertava as ações do filho. De acordo com essa fonte a ultima agressão ocorreu com o aluno do primeiro ano... da nossa escola. - Lile arregalou os olhos.
 - Aquele menino que veio com o braço enfaixado... que canalha, o menino deve ter metade do tamanho dele.
 - Pois é, pelo que parece não foi só esse caso, outros alunos o denunciaram também, acharam melhor suspender o senhor Alfred da diretoria.
 Lile gargalhou de satisfação. - Finalmente aquela corja teve o que mereceu.
 - Nem acredito... nos livramos deles. - Robert suspirou.
 - Hey, vejam. - Louis apontou para o portão, era Tyler, acompanhado de um homem bem vestido. Lile se apressou em segui-los, Robert e Louis a seguiam de perto. Antes que entrassem no carro, Lile teve o prazer de falar:
 - Não acredito que deixaram esse tipo de gente entrar nessa escola. - Disse sorrindo. A cara de satisfação nela era algo quase poético, se sentia completa, foi fuzilada por um olhar de ódio vindo de Tyler. Lhe disse na hora mais oportuna possível o que o próprio Tyler havia lhes dito um tempo atrás.

 Voltando para casa, Lile comemorava.
 - Essa cena deveria ter sido pintada e exposta num museu.
 - Não podemos baixar guarda, tenho a leve impressão que ele vai querer nos incomodar ainda. - Disse Louis.
 - Pro bem dele, espero que não. - Robert respondeu.
 - Queridos, preciso passar na farmácia comprar coisas de garota, por que não me esperam no parque? - Disse Lile.
 - Claro. - Responderam os dois.
 Sentaram-se em baixo de uma árvore, Robert estendeu um pano e deitou a cabeça nas pernas de Louis, acendeu um cigarro. Louis mexia no cabelo de Robert enquanto o gigante divagava em pensamentos.
 - O que está pensando agora? - Perguntou Louis.
 Robert demorou a responder. - Sinto falta de casa, da mamãe... me pergunto se ela está bem.
 - Seu pai cuida bem dela?
 - Cuida, mas ele é muito duro, as vezes é rude e grosso, nossa mãe é muito frágil, me preocupo por ela.
 - Você sempre se preocupa por todo mundo... queria ter tido um irmão que nem você. - Disse Louis, Robert sorriu.
 - Agora você tem... desde pequeno meus pais me faziam cuidar de Lile, se ela voltasse com algum arranhão, mesmo que não tenha sido por minha culpa, eu ficava de castigo, as vezes apanhava.
 - Isso não é legal.
 - Não parece ser, mas isso fez com que meu laço de proteção com Lile aumentasse bastante... sabe Louis, você disse que tem medo de se tornar dependente de algum sentimento, dependente de nós, eu sou dependente de vocês, não sei o que faria sem você ou a Lile. - Louis sorriu e o abraçou.
 - Não precisa imaginar o que faria sem nós, isso não vai acontecer.
 Ficaram um tempo em silêncio, Robert terminava o cigarro, parecia que o cigarro trazia nostalgia e não câncer.
 - Um dia vou te levar pra Romênia, vou te mostrar meus lugares favoritos... tem um parque aonde eu ia pra fugir de tudo, levava meu mp3 e me escondia no meio do mato, era um parque em sua maior parte aberto, com lindos lagos e com pouco concreto em volta. Eu gostava de ficar na parte fechada, onde ninguém pudesse me ver, assim eu chorava, destruía coisas, cantava, tudo o que eu precisava fazer pra me aliviar, fazia lá.
 - Vou adorar conhecer sua cidade.
 Lile os interrompeu.
 - O que estão tramando sem mim?
 - Apenas lembrando de como Bucharest faz falta. - Lile esboçou um sorriso triste.
 - Faz mesmo... mas agora estamos felizes, mais felizes do que lá, não é mesmo?
 - Claro! - Robert levantou, abraçou Lile e Louis. - O lugar é o de menos quando as pessoas que você ama estão ao seu lado.

 No dia seguinte, Lile voltava da aula, Louis havia ido para casa e Robert para a livraria, tomava seu caminho habitual, tinha por vezes, a sensação que alguém a seguia, olhava para trás mas nada via. Quando virava a esquina da rua de sua casa, trombou com Tyler, que a esperava ali. Subitamente, Tyler a imobilizou, tampou sua boca e puxou seu cabelo, a levou até um carro onde outro rapaz o esperava, Lile nada pode fazer, Tyler a colocou dentro do porta-malas, o carro era barulhento e ninguém ouvia sua voz abafada pelo pano que cobria sua boca. O carro seguiu por horas até um lugar ermo,  Tyler roubou seu celular, então Lile estava incomunicável. Lile estava apavorada, sabia que alguma coisa iria acontecer, que provavelmente poderia até morrer, pensou em Louis, pensou em Robert, começou a chorar, mas seu instinto de marrenta falava mais alto, chutava a lataria do carro como podia, na esperança de que o porta-malas abrisse.

 Robert voltou para casa e encontrou a porta ainda fechada, tinha a cópia da chave. Entrou e procurou por Lile, não a encontrou, imaginou que estaria com Louis, pouco tempo depois, Louis apareceu.
 - Oi, Rob. Tá tudo bem por aí?
 - Sim, a Lile está com você?
 - Não, na verdade tentei falar com ela mas ela não me responde, iria chamar vocês pra jantar lá em casa.
 Robert pôs-se a pensar, não gostava muito da situação.
 - Estranho, ela nunca sai sem deixar recado, e quando não está em casa está com você. Devo me preocupar?
 - Tentou ligar pra ela?
 - Sim, dá caixa postal direto.
 Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, a aflição estava estampada ali em suas caras.
 - Vamos dar uma volta pelo bairro, talvez ela tenho ido ao mercado ou coisa parecida. - Disse Louis.
 - Pode ser, vamos nos separar, quem a encontrar liga pro outro.
 E foram.

 O carro parou, o coração de Lile também, estava pronta pra fazer o que fosse preciso quando abrissem o porta-malas. Sentiu o clic e fechou os olhos. Antes que pudesse fazer alguma coisa, Tyler a puxou pelos cabelos e a jogou no chão, Lile se debatia como podia, Tyler apoiou seus joelhos nas costas de Lile, ela sentia mais raiva que dor. Olhou em volta, não sabia onde estava, pelo tempo que ficou no carro imaginava que estava bem longe de casa, parecia um terreno baldio de difícil acesso.
 - Está com medo? - Perguntou Tyler. - Eu e você temos algumas coisas pendentes pra acertar... - Ele tirou um canivete do bolso, Lile suava frio, começou a chorar.
 - Oh... agora você não é tão valentona não é? - Dizia isso enquanto passava a ponta do canivete pelo pescoço de Lile. - Já estou cansado dessa sua arrogância, quem você pensa que é? Você e seu irmão, juntos com aquele pivete... são uma aberração.
 Lile sentiu que Tyler estava cortando seus cabelos, começou a gritar como pode. Via suas longas madeixas ao seu lado, no chão.
 - Grite, vai ser em vão. Vou te tratar como toda vagabunda que nem você merece ser tratada.

 Robert e Louis foram para uma delegacia, relataram que Lile havia desaparecido e não havia sequer pistas de onde poderia estar. Os dois estavam preocupadíssimos, tinham um péssimo pressentimento quanto a isso. Robert tentava se acalmar, Louis via que Robert se esforçava para não surtar e fez o mesmo, precisava manter as ideias no lugar numa situação dessas.
 - O que?! Como assim 24 horas? Ela pode estar correndo perigo AGORA! Não vou ficar aqui esperar dar 24 horas pra vocês começarem a fazer algo. - Robert havia perdido o ultimo pingo de sanidade.
 - Meu jovem, pelo que você me falou, a sua irmã está sumida a poucas horas, nada me garante que ela esteja em perigo. Para declarar uma pessoa desaparecida, são necessárias essas 24 horas. - Disse o delegado.
 Robert puxou a gravata do delegado com força e falou quase encostando seu nariz no dele. - Tem um cara que costuma nos perseguir, eu tenho quase certeza que foi ele, o senhor precisa nos ajudar! - Louis tentou acalmar Robert.
 - Solta ele, Robert, delegado, desculpe, estamos muito aflitos, não sabemos o que fazer.
 - Antes de tudo, você vai soltar minha gravata e eu não vou te prender por desacato. - Robert respirou fundo e se afastou. - ... Por favor. - Robert continha a umidade nos olhos com bravura. Louis o confortava.
 - Vou ver o que posso fazer, ok? Me passem os dados da menina.

Tyler tirou o pano que cobria a boca de Lile.
 - EU VOU MATAR VOCÊ, SEU VERME! - Lile se debatia, gritava.
 - Quem vai matar você sou eu, piranha.
 O coração de Lile gelou.
 - Só assim pra você ter uma menina ao seu lado, na força... quem é que vai querer ficar com você? Um sujeito tão burro, ignorante e covarde. - Lile cuspiu no rosto de Tyler, ele por sua vez suspirou fundo e limpou o rosto. Lile estava amarrada nos pulsos, que pendiam em suas costas, e nos tornozelos. Tyler acertou um chute no estômago de Lile, um espasmo abafado de dor vibrou em seu corpo.
 - Calada... foi uma péssima ideia você ter vindo para cá, deveria ter ficado no seu país, roçando uma horta, sua caipira, aqui não tem espaço pra pessoas como você.
 - Quem você pensa que é pra dizer onde eu devo ou não ir? Onde eu devo ou não ficar? NINGUÉM.
O mundo é meu, eu posso ir pra onde eu bem quiser, e não vai ser um zero à esquerda como você que vai me dizer o contrário. Estou farta desse tipo de gente que desmerece uma mulher ou uma pessoa que vem de fora... você não tem nada no cérebro e isso me dá pena.
 Tyler bufou, se aproximou violentamente de Lile, pressionou seu rosto contra o chão de terra batida. Falava bem perto de seu ouvido. - Agora já chega, minha paciência esgotou.

 Louis e Robert estavam sentados à espera de algum movimento policial.
 - Louis.
 - O que?
 - Se acontecer alguma coisa com a Lile...
 - Não vai acontecer nada.
 - ... Se acontecer alguma coisa com ela... eu vou matar aquele sujeito, com as minhas próprias mãos.
 - Isso não vai ser preciso. - Louis apoiou sua mão na de Robert.
 - Se algo acontecer com ela eu nunca vou me perdoar, Louis.
 - Mas não é culpa sua...
 - É meu dever protegê-la... ela é tudo pra mim. - Robert já não continha mais as lágrimas, Louis estava desesperado, o abraçou, tentava pensar em alguma coisa mas se sentia um completo inútil e também se culpava.
 Viaturas policias começaram a vasculhar a área em busca de pistas, Louis e Robert os acompanhavam, pelas arredondezas nada encontraram. Deram informações também sobre Tyler, o possível agressor. Louis imaginava que Tyler não estaria no próprio carro, mas sim no de um comparsa, era sempre o mesmo, deu os detalhes de como o garoto era e onde morava. Foram até a casa dele, conseguiram com os pais informações sobre o carro, pela placa, o rastrearam. O possível suspeito foi fotografado a última vez por radares em uma área um tanto afastada dali, no mínimo bem estranha. Seguiram até lá.

 Por mais força que fizesse, Lile não conseguia sair dali, sentia nojo, pensava em Robert e Louis, chorava e não tinha mais voz para gritar. Tyler esfregava seu corpo pesado sobre Lile, lambia sua orelha, seu pescoço, a despia pouco a pouco, Lile tentou mordê-lo na esperança de arrancar algum pedaço, em vão. Ele cortou as roupas íntimas de Lile com o canivete, tinha um sorriso nojento na cara, quase babava. Lile se sentia suja, queria vomitar.

 Lile sentiu um espasmo de dor, nunca imaginou que isso fosse acontecer com ela, estava ali, sendo usada, com os cabelos cortados, nua, humilhada, simplesmente pelo fato de não ser dali, ou de ser mulher. A cada fisgada seu ódio crescia, podia ver o sorriso pervertido de Tyler sobre ela. Tyler foi interrompido pelo comparsa.
 - Tyler! Ouvi sirenes, acho que estão atrás de nós.
 - Meu irmão vai matar você. - Disse Lile, bem baixo, com todas as forças que lhe restavam. Tyler entrou em pânico.
 - Preciso me livrar dessa garota.
 - Mata ela! - Disse o comparsa.
 As sirenes se aproximavam cada vez mais, Tyler não sabia o que fazer.
 - Não dá tempo, NÃO DÁ TEMPO... não vai dar pra eliminar todas as pistas... maldição!
 - Bota ela no porta-malas de novo.
 - Vai ser pior... - Tyler apoiou os joelhos sobre as costas de Lile novamente. - Se você contar que fui eu, vou caçar você até a morte.... estamos claros?
 Tyler e o comparsa entraram no carro e partiram. Lile ficou ali, deitada, nua, sangrando, cortaram seus cabelos, mas não levaram seu orgulho.
 Poucos minutos depois, duas viaturas apareceram no lugar, Robert, mal esperou o carro estacionar e pulou, foi correndo em direção a Lile, que parecia estar desmaiada.
 - LILE! Minha irmã... - Ele chorava, estava tremendo, Louis olhava de longe, não tinha coragem de ver. - Quem fez isso com você? Foi aquele verme não foi? Fala comigo meu amor... me desculpe, eu sou um péssimo irmão, eu deveria estar te protegendo.
 Lile, abriu os olhos e pareceu ver uma miragem, sua visão embaçada via Robert, ela suspirou aliviada e sorriu como pode. - Não seja bobo... você sempre aparece pra me salvar... - Lile disse. Robert chorou muito, Louis apareceu para confortá-los. Louis nunca em sua vida havia ficado tão triste, uma faca foi enfiada em seu peito quando viu a menina que mais amava naquele estado... Parecia um pesadelo.

domingo, 1 de novembro de 2015

Hey Giant.

Hey dear giant, is so much going on right?
So many sirens and flashing lights
So many people falling on the ground
Some of them screaming
Some of them making no sound

You're in the middle of the chaos
Running armed to the teeth
You saw their faces
You bleed.

The fire took away your army
You feel empty, hopeless
But there's a fire in your chest
And I hope you keep feeding it
Cause you did your best.

Close your eyes when you remember
Oh journey, you've been cruel this time
What about the next day?
What about the last good bye?

Keep in mind, good things are coming
They'll come back as soon as possible
Stronger than ever, is not that far
And you will win the match and the war.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Fire (13)

 Após uma semana da morte de Elisabeth, Louis já não se sentia triste por ela, tentava associar seu nome com lembranças bonitas, assim poupava-se também. A companhia de Lile e Robert confortava qualquer possível surto de tristeza que viesse a acontecer.

 Decidiram que era hora de outro acampamento, precisavam recarregar as energias, a semana de provas finais se aproximava como um tiro a queima roupa, um acampamento, risadas e boas histórias fariam os três ficarem bem, ou melhor, os quatro.
 - O que?! Marie vai junto? Você tá ficando maluco? - Lile esbravejava.
 - Acho que é um bom momento pra ela se enturmar, ela é uma boa garota, só precisa conhecer outro mundo.
 - Robert! Eu sou uma boa garota, que vai se tornar má se ela for.
 - Não sei se é uma boa ideia, Rob. - Louis disse baixinho.
 - Gostaria de poder contar com o apoio de vocês, a gente terminou há dois dias.
 Lile e Louis ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Lile, como de costume, explode primeiro.
 - Desde quando você começa a esconder coisas de mim?!
 - Por que não nos contou? Como se sente? - Louis perguntou.
 - Gente, tá tudo bem, só não queria estragar o clima, Louis estava triste, estávamos fazendo o possível para ajudá-lo, e apesar de eu gostar muito dela, é tudo muito fútil.
 - Não é fútil, porra! Quem terminou com quem? - Lile estava nervosa, quase querendo encontrar Marie no acampamento agora.
 - Entramos em comum acordo...
 - Robert?! - Lile sabia que algo não estava completamente esclarecido.
 - Tudo bem... foi ela, mas o pai dela a obrigou.
 Silêncio de novo.
 - Agora somos amigos, ela está bem triste com tudo isso, eu também, por isso quero levá-la, quem sabe assim ela tenha um início de clareamento mental, sei lá.
 - E qual o propósito? Voltar pra ela? - Lile perguntou.
 - Salvá-la.

 No dia seguinte, arrumavam as coisas para partir logo pela manhã, o tal lugar não era o mesmo do ultimo acampamento, era numa cidade próxima, precisariam pegar um ônibus. No ponto de ônibus, avistaram Marie se aproximando, Lile respirou fundo, Louis a cumprimentou de longe, sorrindo, Robert deu um beijo em seu rosto.
 Não trocavam muitas palavras durante o caminho, Louis ainda tentava não deixar a situação ainda mais estranha e conversava com Marie. Robert olhava para Lile como uma cara clamante de cooperação.
 Chegando no acampamento, Lile foi direto ao lago, tirou suas roupas e foi nadar, Louis ficou ajudando Robert a armar a barraca, Marie se sentou ao lado deles.
 - Sua irmã nunca vai gostar de mim não é mesmo?
 - Dê um tempo a ela.
 - Sinto muito pelo que aconteceu com a gente Robert...
 - Tudo bem, estamos aqui para nos divertirmos. O lago parece bem convidativo.
 E era, o lugar era uma mata fechada, a natureza era bem nítida, cores fortes, o lago deveria ter quase 500 metros de comprimento, do outro lado a floresta de pinheiros era densa, o sol aquecia as águas do lago. Louis observava Lile nadando, parecia Ariel com seus cabelos vermelhos. Robert finalizava a barraca enquanto conversava com Marie, ela parecia mais a vontade.
 Lile saiu do lago, se enrolou numa toalha e beijou Louis, que estava sentado na beira do lago, depois sentou-se do lado de Marie e começou a comer um sanduíche. Se entreolharam mas nada disseram.
 Robert se aproximou de Louis, que continuava sentado, apreciando a paisagem, tirou a blusa e pegou na mão de Louis.
 - Vamos nadar? - Louis puxou a mão novamente.
 - Melhor não.
 - Por que não? Veio até aqui pra ficar sentado?
 Louis ficou em silêncio.
 - Louis? O que foi?
 - Eu não sei nadar, não gosto de lugares onde eu não possa pisar, e esse lago parece bem fundo.
 - Vem comigo, não vou deixar você se afogar.
 - Não Robert.
 Robert pegou sua camiseta do chão e vendou Louis.
 - O que está fazendo?
 - Levante Louis, vamos andando devagar até lá. Estou com você.
 Louis sentiu a água um tanto gelada no pé e hesitou, abraçou Robert.
 - Não é uma boa ideia.
 Robert continuou caminhando com Louis, não soltou sua mão, o pânico de Louis aumentava a medida que sentia a água chegar na cintura, até o peito, quando queria voltar, Robert se impulsionou para o meio do lago levando Louis consigo, Louis se agarrou em Robert e manteve seu queixo apoiado nos ombros dele.
 - Robert! Vamos voltar...
 - Não precisa ter medo, balance as pernas, os braços, não vou deixar nada acontecer com você.
 Robert retirou as vendas de Louis, ele se viu exatamente no meio do lago, uma sensação de barreira quebrada envolveu Louis, ainda tinha medo, mas Robert estava ali e sentia seguro. Robert mergulhou, ainda segurando Louis, o abraçou por baixo d'água, Louis ria, Robert voltou a superfície, tirou o cabelo da cara de Louis e sorriu.
 - Não foi tão mal, não é? - Perguntou Robert.
 - Não... obrigado.
 Robert aproximou seu rosto no de Louis e o beijou, Louis apoiava os braços nos ombros de Robert enquanto tentava não escorregar.
 - Vocês nunca vão me deixar, não é? - Louis interrompeu o beijo e o abraçou.
 - Não, nunca. Não vou deixar nada acontecer com você e com Lile.

 Do outro lado do lago, Marie e Lile estavam sentadas, observando os dois.
 - Eles se beijaram! - Protestou Marie.
 - Sim, fazem as coisas divertidas sem mim.
 - O que? Enquanto ele ficava comigo ele beijava esse menino por aí?
 - "Esse menino" é a melhor pessoa do mundo, quem está beijando ele é a outra melhor pessoa do mundo, na qual você dispensou, então não chora.
 - Você não entende...
 - E nem quero, se você não é capaz de se impor por algo que você ama, é porque não é bom o suficiente pra você.
 - O que vocês são afinal? Um trio amoroso? Você e seu irmão...
 - Calaboca Marie, não to com paciência pra esse seu espanto, não haja como se fosse a pior coisa do mundo, e não, eu e Robert nunca tivemos nada, somos apenas bem próximos.
 - Então é disso que ele gosta...
 Lile olhou para Marie, ela olhava sem parar para os dois. - Não seja ridícula. - Lile se levantou e entrou na barraca.

 A noite se aproximou, o quarteto pretendia passar a noite ali, Robert preparava algo para todos comerem, havia levado um pequeno grill bem prático. Robert via de longe Marie e Lile conversando, a conversa na maioria das vezes parecia séria e uma delas sempre parecia discordar, mas pelo menos estavam conversando, Louis estava escrevendo algo, viu as duas conversando na frente da barraca e foi ao encontro delas. Lile sorriu ao vê-lo, Louis a abraçou por trás, os dois se beijaram e ela recostou a cabeça nas pernas de Louis.
 - Do que falavam? - Perguntou ele.
 - De como essa menina é idiota. - Lile disse sorrindo.
 - Não fale assim Lile, não ligue, Marie. - Lile deu um tapa em Louis.
 - Além de só ficar com o Rob de lá pra cá está defendendo ela agora? - Louis riu.
 - Não fique com ciumes, amo vocês dois igualmente. - Louis se abaixou e a beijou novamente, dessa vez um beijo mais demorado, Marie parecia desconfortável.
 - Ok, todo mundo beija todo mundo aqui.
 - Quer participar? - Disse Lile rindo.
 - Não, obrigada.
 Robert bateu uma colher na panela e chamou todo mundo.
 - Repas prêt!
 Enquanto comiam, Robert olhava para Marie, ela olhava de volta por alguns segundos e baixava o olhar. Ele foi sentar-se perto dela.
 - Como se sente? - Disse ele.
 - Triste.
 - Não gosto de te ver assim, estou tentando te integrar ao grupo mas você não me dá uma chance.
 - Me integrar ao grupo significa me obrigar a ver você beijando... um garoto?
 - Não é grande coisa, Marie, não é o fim do mundo, ele não é só um garoto pra mim, ele é nosso melhor amigo, quando eu te beijo é diferente do beijo de Louis.
 - Não me venha com essa, talvez eu não seja tão moderna pra aceitar esse tipo de coisa.
 - Está com ciumes?
 - É claro Robert, não é porque terminamos a uns dias atrás que vou ficar bem em te ver beijando outra pessoa.
 Silêncio.
 - Eu amo você Marie, fiz o possível pra ficar com você. - Ela secou um olho que teimava em ficar úmido.
 - Me desculpe. Todas as coisas que eu te disse foram em voz do meu pai, você não é inútil, você não é um talento desperdiçado, você não é um...
 - Perdedor. - Completou Robert.
 Ela suspirou fundo, o abraçou. - Não, você não é. Mas entenda que não posso discordar do meu pai assim, ele paga tudo pra mim, as vezes eu queria muito ter a vida de vocês, são tão independentes, cuidam de si próprios... e eu fico na barra da calça do meu pai.
 - Não quero te deixar desconfortável, Marie, tudo bem sermos só amigos, amigos ás escondidas ainda, mas não quero que se entregue.
Se preparavam pra dormir, Lile já tinha feito o roteiro de posições.
 - Marie, da esquerda pra direita, você dorme primeiro, pode abraçar o Robert, que dorme do seu lado, Louis fica no meio de nós dois, e eu na extremidade direita, podendo usufruir do Louis... estamos de acordo? - Sim - Todos (menos Marie) responderam.
 Como de costume, os três se abraçaram, Marie deitou de barriga pra cima e olhava o teto da barraca, Robert olhou para o lado de Marie, pegou seu braço e puxou para sua cintura. - Não faça cerimônias, vai esfriar. - Robert disse, Marie sorriu e beijou seu rosto.

 De manhã cedo arrumavam as coisas pra sair da mata, Robert mexia em sua mochila, de repente abriu um sorriso de orelha á orelha.
 - Pessoal, encontrei um beck.
 Louis parou o que estava fazendo e foi correndo em direção ao Robert, Lile fez o mesmo.
 - Era o que faltava! - Lile riu.
 Acenderam o beck sentaram perto do lago, Louis e Robert atiravam pedras pra ver qual quicava mais. Lile passou o beck para Marie. - Vai querer? - Ela relutou um pouco. - Acho que sim, o que vai acontecer comigo?
 - O idiota do Robert nunca te levou pra fumar um? - Lile ria.
 - Ele já me chamou mas eu nunca quis.
 - Então fume, você não vai ver duendes nem nada, só vai ficar relaxada, com vontade de rir.
 Ela fumou, minutos depois, ela e Lile já compartilhavam opiniões de quais garotas eram as mais falsas e metidas, Robert as olhou e riu. Minutos depois, os quatro subiam pela mata até a estrada, pegariam um ônibus para a cidade novamente. Quando passaram por um posto de gasolina, um grupo de velhos começou a caçoar deles.
 - A noite no meio do mato foi boa? - Diziam rindo.
 Lile olhou pra trás, pegou na bunda da Marie e apertou. - Foi ótima.
 Marie deu um tapa na mão de Lile, todos riam, até os velhos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Esse texto não precisa de título.

Às duas da manhã fui bolar um e ver as estrelas. Tinha algo naquelas cores, naquele brilho, tudo estava bem nítido... Talvez seja tudo refletido pelo o que eu estava sentindo naquele momento. Eu estava feliz, em paz. É raro, frestas e faixas de luzes aleatórias. Um júbilo em acreditar que valia a pena escrever, que tudo tinha um propósito, que a poesia era válida e me completava. Viajei em piscadas cintilantes, pensando em todos as futuras jornadas com meus amigos, de todos os lugares que ainda iria desvendar sozinho. Um cigarro todo foi consumido em meus dedos em meio dos meus devaneios. Pairava, entre as constelações e o escuro da noite, e de repente caí, de cara no chão. Limpei o rosto e voltei pro meu apartamento apertado.
Há um caminho que eu sigo
Quando a amargura me faz de refém
Quando me sinto bem por estar vivo
Quando me sinto vivo por estar bem.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Fire (12)

Um ano atrás...

 Louis estava em seu quarto, deitado no chão de barriga pra baixo em vários papéis em branco, parecia buscar inspiração, ainda não tinha sua vontade de viver inibida pelo mundo externo, na verdade tinha, mas não era um sentimento tão forte, tentava se acostumar.
 - Louis? Visita! - Gritou seu pai.
 Louis não respondeu, ouvia passos delicados se aproximarem de seu quarto, já sabia quem era.
 Parada na porta, estava uma menina bem pálida, de cabelo curto e bem escuro, era um tanto encorpada, quase sempre estava de branco, trazia com ela uma escultura feita por ela mesma, algumas folhas em branco e um estojo decorado... Era Elisabeth.
 - Você demorou. - Reclamou Louis
 - Foi mal, estava dando uns retoques finais. Olhe, gostou?
 Louis analisou a escultura, era um rosto deformado feito de esparadrapos, pintado com diversas cores de tinta. - Nada mal. Fez sozinha?
 - Sim... o que está fazendo?
 - Tentando escrever, mas minha mente anda oca.
 - Você é bom Louis, se não fosse não teria te escolhido, não desista, ainda vamos dominar o mundo com arte. - Louis sorriu.
 - Sim, arte para o povo.

 Louis e Elisabeth eram inseparáveis, se completavam, mantinham um no outro a vontade de tentar fazer algo diferente, articulavam projetos, planos, desenhavam, escreviam, moldavam juntos, se ajudavam como podiam. Ambos de caráter reservado, sabiam que o tinham pelo outro era forte, mas não demonstravam tanto.
 Foram se arrastando pelo ano letivo juntos, eram uma dupla excluída como muitas por aí, até que em algum determinado momento, Elisabeth tentou algo novo, se permitiu amar, um amor sem barreiras e sem limites, foi um girassol em busca de brilho, mal sabia ela que seu amor era a lua.
 Louis não se opôs, não se sentiu no direito de opinar, até se sentiu feliz por ela. Craig, namorado de Elisabeth, era 7 anos mais velho que ela, não terminou o colégio, trabalhava como garçom e dirigia o carro velho do pai por aí. No começo, como todo paixão fresca, foi tudo muito bonito, Louis e Elisabeth ainda se viam, mas ela criava pouco, contava para Louis suas novas experiências, quando convidada para elaborar algum projeto, dizia não estar inspirada, o que soava engraçado para Louis.
 O tempo foi passando e Elisabeth se distanciando, Louis só a via com Craig, ele parecia um pouco rude, mas se ele lhe fazia feliz, Louis aceitava. Mas quando a viu debilitada, magra, com marcas de abuso e quando um boato chegou em seus ouvidos de que Elisabeth estaria gravida e abortou, Louis se viu na obrigação de tentar fazer o papel de amigo, de lhe avisar que isso não era saudável, de que sentia falta dos tempos onde só compor era suficiente. Foi falar com ela... foi a ultima vez. Brigaram, Elisabeth o julgou estar contra ela. Desde então, Elisabeth só andava com Craig e mal olhava mais para Louis, ele por sua vez não insistiu em uma reaproximação.

 Passado algumas semanas da briga, houve uma festa no colégio, organizado pelo grupo esportivo, basicamente, iriam todas as pessoas que Louis não se identifica, mas quando se está completamente só e ainda não é capaz de associar tudo, há tentativas de se socializar. Louis ficou só na festa, ficou triste e angustiado, viu Elisabeth, percebeu que ela se tornou uma pessoa da qual ele não consiga se comunicar mais. Foi a primeira ponta da solidão total que abraçou Louis.
 Apelou pra bebida, Louis nunca foi de beber, mas se sentiu no direito de afogar as mágoas, bebeu até rir e chorar sozinho, bebeu até perder o juízo e cair no chão, no meio do barro e virar piada. Sua cabeça rodava e tudo se misturava com o barulho ensurdecedor da vergonha e dos risos que vinham como flechas, procurou por Elisabeth, a viu, os olhos de Louis clamavam por ajuda, notou que Elisabeth até queria se desprender de tudo e ir até lá, tira-lo dali, mas ela estava com Craig, que estava rindo também, então ela se pôs a rir.
 - Perdedores merecem isso. - Foi isso que ouviu dela.

 Esse episódio mudou Louis, ele se tornou uma pessoa mais seca, mais amarga, descrente de bons afetos. Louis não teve mais apoio e cedeu, foi salvo pelos irmãos. Uma semana depois da festa, Elisabeth deixou o colégio, foi morar com Craig, nunca mais ouviu falar dela, até que um ano depois...
 Lá estava ela, do outro lado da sala, os olhos de Louis lutavam para não envolvê-la em análises, ela estava péssima, muito magra, com manchas pelo corpo, com um olhar opaco, era o mesmo olhar que Louis tinha.
 Lile notava todo esse clima pesado.
 - O que está havendo? - Perguntou ela.
 - É ela. - Disse Louis em baixo tom. - Elisabeth.
 - A piranha que te humilhou? - Lile quase levantou da cadeira e seu tom de voz não foi tão baixo assim. Elisabeth a olhou de volta, trocaram farpas.
 No intervalo, Louis tentava se assegurar que Lile não fosse conversar com Elisabeth, não gostava nem um pouco da ideia, Robert estava em um canto com Marie, provavelmente discutindo como sempre, vagando entre carícias e reclamações. Em um momento de descuido, viu Lile na cafeteria do colégio, parada atrás de Elisabeth, que comia alguma coisa, Louis se apressou.
 - Não se aproxime dele. - Chegou tarde, Lile já havia abordado Elisabeth. Ela se virou devagar e permaneceu com o olhar focado em Lile.
 - Do que está falando? Você é a aluna intercambista não é? Não me amole com suas paranoias, não sei por que permitem gente como você aqui no colégio.
 - Mal voltou e já está bem informada, futilidade corre rápido.
 - Lile! - Louis segurou o pulso de Lile. - Vamos. - Elisabeth olhava Louis e não sabia como reagir, não estava perto dele fazia um ano.
 - Por sua maldita causa, Louis tentou se matar, sabia? - Lile se soltou de Louis, Louis bufou de raiva e saiu, não queria ouvir mais nada. - Se não fosse por nós, Louis não estaria mais aqui, você o abandonou, o humilhou. - Elisabeth permaneceu imóvel, tentou não demonstrar espanto, mas falhou, seus olhos corriam e seguiam Louis pelo corredor.
 - Isso não é da sua conta garota, você não me conhece. - Elisabeth se levantou com uma expressão triste e foi em direção da saída.
 - Não se abandona alguém frágil desse jeito. Ele está com a gente agora, não queremos você por perto. - Elisabeth não respondeu.
  No dia seguinte, ela não foi ao colégio, Louis, movido por uma vontade estranha de tentar resolver algo já perdido, tentou se informar aonde ela morava, aonde trabalhava, se estava com Craig ou não, com a ajuda de Robert (já que Lile provavelmente recusaria ajudar) descobriram que ela está morando com uma tia, que está desempregada e que Craig havia morrido de overdose. Louis sentiu medo de que acontecesse a mesma coisa com ela, Elisabeth parecia péssima, já entregava as pontas.

 Foi com Robert até a casa aonde supostamente morava, chamaram várias vezes seu nome, ninguém respondia.
 - Acha que erramos o endereço? - Perguntou Robert.
 - Acho que ela não quer falar comigo.
 Quando iam embora, ouviram o barulho de uma janela se abrindo, era Elisabeth.
 - O que quer? Acertar as contas? - Ela parecia lutar contra si mesmo.
 - Não, quero que acerte contas consigo mesmo... você está sumindo Elisabeth.
 Ela parecia segurar o que lá fosse que tinha dentro dos olhos vazios.
 - Isso não é da sua conta.
 - É só isso que você sabe dizer? Elisabeth, eu morri e voltei, você pode fazer o mesmo, não quero que sejamos amigos novamente, não quero forçar nada, mas quando eu te conheci você era alguém relevante, agora se tornou pó.
 - O único pó que existe é o que vou cheirar pra ter que aturar vocês, sumam da minha casa.

 Elisabeth não foi no dia seguinte, nem no seguinte, nem no seguinte, Louis saía com os irmãos, mas parte de sua mente estava em Elisabeth, ainda tem um dia seguinte de não comparecimento, mas dessa vez algo substituía a presença dela, um bilhete.

 "Prezados alunos, sinto informar-lhes do falecimento de nossa aluna do segundo ano, Elisabeth, nossos pêsames aos amigos, familiares e colegas de sala, foi uma menina criativa e brilhante. - A Direção."

 Os alunos passavam por ali, liam, absorviam a mensagem, mas ninguém parecia se importar, Louis leu, fingiu não se importar, mas foi pro banheiro chorar. Elisabeth cedeu, e não tinha ninguém pra trazê-la de volta.

"Mas se você estiver por aí, andando pelo mundo sem parar, ouça essa canção e saiba que o meu coração ainda é o seu lugar."

Um corpo nadando.


Pessoas cinzas, paredes cinzas, tempo cinza
Estou cansado disso
Procuro uma nova perspectiva
Mais que uma parede de ilusões pra ver
Mais do que poeira pra ser.
Eu acredito, sim eu acredito, meu orgulho se foi
Mas ainda acredito
Morte, feridas, não consigo lidar, luto em vão
Meu peito está cheio e meu coração batendo no chão.
Eu sei, ainda sei, não há vida com uma alma morta
Meu cérebro está pegando fogo mesmo com meu coração quase parando
Desenho pessoas morrendo em rios
Escrevo cartas de despedida, jogo-as pro vento
Mas não quero isso novamente
A súplica de um corpo nadando em sofrimento.
Não é tão fácil andar por aí prestes a explodir
Quando caio bêbado no chão, preciso de uma mão
Não você me dizendo: "Eu te avisei então"
Tento ver uma nova perspectiva
Ontem tentei ir a outro planeta
Agora penso que posso viajar aqui
Posso trazer meu universo em paralelas e retas
Então afaste-se, não me coloque pra baixo
Já estou lá, não vês? Mas olhando para o céu
Não quero dizer adeus.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Fire (11)

 Como quem acorda de um sonho muito bom, Louis se virou bem devagar, tateando o outro lado da cama, encostou em cabelos, eram cabelos vermelhos, sorriu. Se levantou e foi preparar um café fresco, se vestiu, imaginando que Robert chegaria em breve.
 Lile acordou, sorriu para Louis e foi ao seu encontro, trocaram alguns beijos e Lile foi tomar uma ducha. Louis foi até o banheiro e a via relaxar na banheira, pensou um pouco e falou:
 - Acho que vou indo pra casa.
 - Por que? Não quer esperar o Robert?
 - Não é isso, é que fiquei de ajudar meu pai com algumas coisas.
 Lile riu.
 - Tá bom, te vejo amanhã então.
 Louis se aproximou da banheira e lhe deu um beijo de despedida.
 Foi para casa, pensava no que tinha acontecido, estava até um pouco feliz, tinha apenas receio de que isso se tornasse algo sério demais, ou que Robert não gostasse daquilo, afinal era irmã dele.

 Enquanto tentava desenhar algo novo em vão, ouviu a porta bater, seu pai, já em casa, gritou da porta.
 - Louis! Robert está aqui.
 - Peça pra ele subir, pai!
 Robert veio, abraçou Louis, deixou sua mochila na cama e puseram-se a conversar.
 - De onde está vindo? - Perguntou Louis.
 - Da biblioteca, na verdade, acabei de ver a Marie.
 - Está tudo bem entre vocês?
 - Acho que sim.
 - Acha?
 Robert sorriu encabulado.
 - As vezes eu tenho vontade de mata-la... As vezes eu acho que nunca vai dar certo, mas o que eu sinto por ela é bem forte.
 - Deve ser bem confusa essa dualidade.
 - É bastante.
 Louis levantou-se da cama, colocou um cd do Yeah Yeah Yeahs pra tocar e ficou olhando Robert encostado na parede.
 - Não gosto quando ela te diminui, ou quando ela tira sua esperança,
 Robert olhou para Louis com uma expressão um pouco vazia, de aceitação.
 - É o jeito dela, eu já disse que não vou mudar, não gosto de ficar tentando fazê-la mudar, estaria sendo hipócrita.
 - Mas você aceita ela, e ela não faz isso.
 Robert começou a bater o pé, acompanhando a música, fechou os olhos e deixou a musica guiar seu corpo, tocava bateria nas coxas, levantou-se, puxou Louis pra dançar, riam.
 - Esse som é muito bom - Disse Robert.
 - É sim. Me ajuda a animar.
 Robert subitamente se lembrou que tinha algo para entregar a Louis.
 - Eu trouxe sua blusa.
 - Que blusa?
 - Aquela que você me emprestou no café bar, da primeira vez que nos vimos.
 - Nossa, não lembrava dela.
 - Desculpe, acabei jogando no meu armário e lá ficou todo esse tempo.
 - Agora lembrei o quão engraçado você fica vestindo ela. Ela já é meio pequena pra mim, imagina pra você.
 Robert foi até sua mochila, pegou a blusa e tentou coloca-la.
 - Eu lavei ela e ela encolheu um pouco mais, desculpe. - Robert tentava enfiar a cabeça no espaço diminuto da blusa enquanto dançava, Louis pôs-se a rir, foi ajudá-lo a colocar a blusa. Tentava empurrar a blusa pra baixo, sem se importar de amassar a cara de Robert. Não paravam de rir, Robert tropeçou e caiu sentado na cama, Louis ficou em sua frente, desistiu de puxar a blusa, mas não tirou as mãos do rosto de Robert por fora da blusa, guiado por uma vontade que não soube explicar, tateava o rosto de Robert, ele ria.
 - O que está fazendo? Medindo o tamanho do meu nariz?
 - Sim, - Disse Louis rindo.
 Louis pôde sentir os lábios de Robert por fora da blusa, se atreveu a toca-los, sem pensar muito, se atreveu a beija-los por cima da blusa. Robert a princípio não teve reação, depois de alguns segundos, apenas se afastou, tirou a blusa da cara e olhou para Louis sorrindo,
 - Me... me desculpe... eu... droga, foi mal. - Louis começou a se arrepender.
 Robert continuou a acompanhar o ritmo da música que tocava, jogou a blusa no chão e fitou Louis.
 - Não estou mais com a blusa na cara.
 Louis estava mais vermelho que o cabelo do próprio Robert. Deu um passo para trás involuntariamente, pensou, deu dois passos para frente e o beijou. Robert correspondeu. Robert ficou sentado na cama enquanto Louis se mantinha em pé na sua frente, como a diferença de altura era um pouco notável, foi uma posição confortável, o beijo se intensificava a cada suspiro, Robert se levantou enquanto envolvia a cintura de Louis, ele por sua vez, deixava ser guiado, até o momento em que abriu os olhos o interrompeu o beijo. Robert o olhou confuso.
 - Não gostou?
 - Sim mas... e a Marie?
 - Não acho que esteja fazendo algo de errado, beijar um amigo. - Louis ainda estava um pouco ofegante.
 - Eu transei com a Lile hoje.
 Robert arregalou os olhos e mostrou surpresa.
 - Sério? Lile é uma menina muito meiga, sabia que vocês iam se dar bem.
 - Espera... não está bravo? - Perguntou confuso.
 - Não, até prefiro que seja alguém que eu confio. - Robert sorriu e beijou Louis mais uma vez. Louis correspondeu, se sentiu confuso mais uma vez e parou.
 - Espera.
 - O que foi?
 - Tá tudo muito confuso.
 - Você quer a Lile?
 - Sim.
 - Você se arrependeu de me beijar?
 - Não,
 - Então me beija. - Robert sentou na cama novamente e manteve o olhar fixo em Louis. Louis dessa vez o abraçou, abraçou forte.
 - Vocês me deixam maluco, sinceramente. - Robert riu, puxou Louis e os dois se deitaram na cama, Louis repousou o rosto no peito de Robert.
 - Gostamos de você, Louis.
 - Eu amo vocês. - Louis se levantou e deu um selinho em Robert.
 - Vamos comer algo? - Robert aceitou, foram até a cozinha, prepararam uma janta, até o pai de Louis comeu, depois disso, Robert se despediu com um abraço longo em Louis, seu pai espiava pela janela.

 No dia seguinte, no colégio, Louis estava um pouco receoso se Robert havia contado alguma coisa para Lile, Lile o olhou normalmente quando entrou na sala, foi sentar-se ao lado de sua cadeira. Ela passou a mão no rosto de Louis, passavam-se mil coisas em sua cabeça agora.
 - Tá tudo bem? - Perguntou Louis.
 - Sim, claro, por que não estaria?
 - Não sei...
 - Quer me contar alguma coisa?
 Louis ficou pensativo, suspirou.
 - Eu... eu... beijei... beijei o Robert. Fui eu, não foi ele. Ele só correspondeu, me desculpe.
 Lile ficou sem expressão por alguns segundos, segundos que mataram Louis pouco a pouco, depois. pôs-se a rir.
 - Do que está rindo Lile?
 - Te acho uma graça quando fica com vergonha.
 - Não está brava?
 - Não.
 - Nem com ciúmes?
 - Talvez.
 Louis ia dizer mais alguma coisa, mas foi interrompido pela professora de biologia.
 - Alunos, gostaria de apresentar pra vocês, uma nova aluna, quer dizer, nem tão nova. - Todos prestaram atenção, alguns como abutres mirando uma nova presa, outros como atiradores, mirando uma nova vítima.
 Elisabeth entrou.
 Louis arregalou os olhos, seu coração foi até a garganta, Lile percebeu imediatamente.
 - Seja bem-vinda novamente, Elisabeth - Disse a professora.
 Elisabeth encontrou Louis na sala, engoliu seco e foi sentar-se do outro lado. Louis voltou ao tempo, não gostou nem um pouco desse retorno. Uma mistura de nostalgia triste abraçou Louis, não sabia o que sentir ao vê-la, pessoas que significam o mundo pra você, se tornam meras vielas sujas do nada, aquela calçada esburacada que você evita. O que deveria fazer? Dar-lhe um buquê de flores pela volta? Ou devolver-lhe as flechas que tirou das costas?
 Lile a olhava com cara de poucos amigos. Louis fechou os olhos evitou contato visual, Elisabeth parecia vazia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Fire (10)

 Sobre aqueles momentos de júbilo e glória onde você se perde em felicidade, tudo é bonito, tudo vale a pena. As flores tem mais cheiro. mais aroma, o mundo é mais saturado, os dias cinzas são até mais bonitos, a chuva parece aspirina e o cheiro de mata úmida reascende momentos nostálgicos.
 O que de errado pode haver nisso? Para uma mente frágil e apegada á melancolia, como a de Louis, tudo. Nada muito bonito é confiável, nada muito afetuoso pode se transformar em algo bom. Louis olhava para Lile e se apaixonava, olhava para Robert e o admirava, vice-versa. Se via perdido sem os dois, e isso começou a incomoda-lo. Não queria se tornar tão dependente, não imaginava sua vida sem eles agora, apesar de saber que eles são o motivo pela qual manteve a vontade de continuar tentando, isso o assustava. Pensava que estava vivo apenas por eles, e não por si próprio, começou a sentir raiva de si mesmo, deles, de todos. O mar calmo se tornou revolto. 
 Havia marcado um café da manhã com os irmãos. Pediu para seu pai que dissesse que estava gripado e dormindo, assim ficaria no quarto, deu a desculpa que queria ficar sozinho.
 - Isso inclui você também, pai, desculpe. - E fechou a porta. 
 Ouviu lá de cima os dois falando com seu pai. Espiou pela janela, escondido entre a cortina, os dois saindo de sua casa com caras preocupadas. Lile tinha uma cesta de piquenique, sentiu uma ponta de arrependimento, mas ainda estava confuso. 
 Não foi para o colégio, disse que se sentia cansado e que pegaria a matéria depois. Quando desceu pro almoço, viu um bilhete de seu pai.
 "Louis, limpe a casa, fiz compras, tem várias coisas gostosas para cozinhar. Lile te deixou laranjas, disse que você precisa de vitamina C."
 Se sentiu mais triste, não queria se sentir triste por ninguém.

 No dia seguinte, Louis fingiu que ia para a aula, mas se escondeu na parte de trás da casa até seu pai sair, assim que saiu, voltou para seu quarto, não queria lidar com tudo. Várias mensagens de Lile e Robert estavam sem ser lidas no celular. Louis estava perdido, não sabia confrontar tanta beleza, tanta alegria, tanto amor. 
 Quando a noite chegou, ouviu do seu quarto Robert, que falava com seu pai. Louis atreveu-se a sair do quarto para ouvir melhor a conversa.
 - Não, ele não foi hoje, estamos preocupados, posso falar com ele?
 - Me desculpe, acho que ele está dormindo, disse que queria ficar sozinho.
 Espiava escondido atrás da parede, viu Robert esboçar um sorriso de aceitação, quase foi ao seu encontro, mas suas pernas não se mexiam. 
 - Ele foi ao médico? Se as laranjas e os remédios não fizerem efeito, podemos ir com ele se o senhor não puder. Eu posso subir no quarto dele só pra fazer companhia se o senhor não se importar.
 Louis não sabia o que fazer, imaginava que seu pai não tinha muitos argumentos restantes, correu para seu quarto e trancou a porta. Fez o mínimo de barulho possível, ouvia os passos se aproximando. A maçaneta se mexeu, Louis não respirava, via apenas a sombra dos pés de Robert.
 - Louis? - Robert falou baixo, com medo de acorda-lo e torcendo para que ele já estivesse desperto. 
 Houve um momento de silêncio, Robert tentou de novo.
 - Louis? Sou eu, Robert... você não tem ido a aula nem respondido nossas mensagens, estamos preocupados. 
 A vontade de Louis era abrir a porta e convida-lo a entrar, conversar sobre tudo e abraça-lo, mas tinha medo, um medo que nunca sentira, medo de se decepcionar mais uma vez. Elisabeth já o fizera muito bem.
 - Louis, eu te vi espiando... o que está acontecendo? Você sabe que pode contar tudo pra mim.
 Louis ficou paralisado, quase não conseguiu respirar. Robert não tentou mais, desceu as escadas e partiu. Pela janela, viu Robert deixando a casa, fumando um cigarro.
 Louis já não sabia o que faria, estava com medo, com raiva, triste, inseguro, queria gritar, chorar, se odiava naquele momento. A tristeza nunca deixa você aceitar a felicidade se você não souber lidar com ela.

 No dia seguinte, seu pai o obrigou a ir para aula, o levou de carro para ter certeza que não se esconderia novamente. Louis não abriu a boca o caminho todo. Quando entrou na sala, viu Lile no mesmo lugar de sempre. Sua cadeira á frente de Lile estava lá, como se Lile a tivesse guardado, ela abriu um sorriso de orelha a orelha quando o viu. Louis engoliu a vontade de correr até ela. Pensou em sentar em outro lugar mas isso seria maldade. Sabia que não tinha motivos concretos para não sentar-se ao seu lado, além de sua mente conturbada. 
 - Louis! Que saudade... você melhorou? Por que não respondeu minhas mensagens? Ontem Robert foi te ver e disse que você ainda estava doente. 
 Louis suspirou, se aproveitou do pedido de atenção da professora.
 - Lile, você tem hora pra conversar sobre assuntos banais, é o intervalo.
 Lile sorriu para Louis e fez uma careta quando ela virou de costas. 
 - No intervalo conversamos. - Lile disse sussurrando. 
 Quando o sinal tocou, Lile praticamente puxou Louis até o saguão, onde sempre ficam, Robert já estava lá, olhou com surpresa a presença de Louis. 
 - O que você tinha? Você parece um pouco abatido. - Lile passava a mão no rosto de Louis.
 Robert parecia um pouco mais intrigado, o olhava com desconfiança. - Melhorou, Louis? 
 Louis suspirou novamente, olhou o chão e fez que sim com a cabeça.
 - Estou bem, só um pouco...
 - Confuso. - Robert completou.
 Lile o olhou intrigada. 
 - O que está havendo?
 - Eu não estava doente, desculpem.
 - O que foi então? - Lile ainda parecia preocupada.
 - Eu não sei explicar. 
 Robert ficou de pé, olhava diretamente para Louis.
 - Está com medo?
 Louis fez que sim.
 - Está com raiva?
 De novo.
 - Por isso nos ignorou?
 Dessa vez não se moveu.
 - Quer que nos afastemos? 
 Louis queria chorar, estava se contendo para não sair correndo dali. Sabia que não queria deixa-los, seu peito pedia por eles, sua mente os rejeitava. Ouviu seu peito.
 - Não. - Disse cabisbaixo. 
 Robert o confortou, o puxou para perto dele o abraçou, puxou Lile também, que apesar de ser a mais esperta dali, foi pega de surpresa, quase chorava. 
 - Não tenha medo Louis. Eu entendo o que está acontecendo com você, eu sei o que você já tentou fazer e o que você tentou largar, e sendo muito sincero, eu fico feliz de você não ter conseguido, e se nós somos um motivo para que você não tente de novo, mantenha isso em mente, me sinto privilegiado. Eu sei como é se sentir desconectado do mundo, eu me sinto desconectado de Marie, mas eu sinto que se eu tentar, tudo vai valer a pena no final. Nunca vamos te maltratar, talvez te decepcionaremos porque não somos perfeitos, mas no final vamos estar juntos, não? Você é muito importante pra mim e pra Lile. Só preciso que você deixe a gente gostar de você e que você pare de fugir, me deixa triste. - Robert disse tudo isso sorrindo e riu no final. Louis dava pequenos soluços, não queria se debulhar em lagrimas na frente de todos. Lile se aproximou e o abraçou, disse baixinho em seu ouvido:
 - Não deixe ninguém fazer você pensar que está sozinho, nem você mesmo, sua vida está apenas começando, você vai encontrar mais pessoas que vão fazer você perceber que valeu a pena... Nós amamos você, idiota.
 Ao final da aula, combinaram de ir ao café bar, fazia um tempo que não iam só os três. Lile e Louis esperavam por Robert na saída, o viram conversar com Marie, que mais uma vez parecia brava, provavelmente Robert estava desmarcando algo ou negando uma saída com ela para sair com sua irmã e Louis. 
 - Está tudo bem? - Perguntou Louis.
 Robert suspirou. - Vai ficar. 

 No café bar, pediram seus cappuccinos, fumaram seus cigarros, deram risada, ficaram em silêncio, apenas se contemplando em olhares perdidos, quando um assunto surgia, o devoravam e iam longe. Louis se sentia completo novamente, ainda sentia medo, ainda estava inseguro, mas lutava contra si mesmo naquela hora, acreditava que poderia valer a pena continuar tentando.
 Após essa reunião, Robert foi trabalhar, Lile convidou Louis para almoçar em sua casa, ele aceitou. Entre conversas e risadas, Lile teve a ideia de se aproveitar da presença de Louis para arrumar a casa, era mais um período de arrumação, da troca de posições de móveis e decoração. Vasculhando algumas fotos, Louis achou várias dos irmãos ainda crianças e pré-adolescentes, viu algumas mais recentes também, ainda na Romênia, Robert tinha cabelo preto, sua cor natural, parecia bem diferente, Lile pintava de laranja naquela época.
 - Você sente saudades? - Louis perguntou.
 - Desse cabelo não. - Riu - Mas do resto sim, da mamãe, até do papai, da nossa casa, de tudo. Um dia vamos levar você pra lá.
 - Vou adorar.
 Ficaram em silêncio por algum momento, Lile, com toda sua delicadeza e aleatoriedade, perguntou:
 - Você é virgem né? 
 - Você deve imaginar que sim.
 - Imagino.
 - Você é? - Louis perguntou com um pouco de vergonha.
 - Não. Isso me torna uma pessoa menos confiável pra você?
 - Não. 
 - Ótimo.
 Silêncio. 
 - Louis?
 - Oi.
 - Me beija?
 Dessa vez não era um sonho.
 Louis dessa vez não disse seu famoso "oi?" ou "que?", respondeu beijando-a. Até se sentiu atrveido. Uma onda de calor irradiava dos dois, talvez por ser a primeira vez de Louis, ou porque Louis e Lile faziam uma combinação maravilhosa. Lile o conduzia na dança até Louis se encontrar, sua mão seguia a dela, e quando se sentia confiante, ia até onde queria ir, Lile lhe dava consentimento. Estavam no quarto dos irmãos, Louis contemplava cada centímetro de pele pálida de Lile, fazendo jus a primeira vez de um garoto, contemplando a obra prima que é o corpo feminino, recém aflorado. Estavam literalmente se amando, não foi nada constrangedor, nem vergonhoso, Lile foi uma boa guia, Louis já estava confortável, já dominava a si mesmo e as vezes, dominava-a. Gostaram, repetiram, tomaram banho juntos, comeram juntos, ele de cueca e ela só de calcinha, estavam livres. Ele estava livre.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Imensidão.

Parece que eu já te vi por aí, em algum lugar, em algum corredor
Parece que eu já senti, você se aproximar de mim, muito antes disso ser amor
Você é isso pra mim, imensidão sem fim, sem metas ou contradições
Um desejo a se tornar verdade.

Um tanto descomprometido, seus atos me agradam, me aproximam
Vejo meu mundo ao teu, meu futuro no seu, meus sonhos desfilam
Eu quero ter, lembranças pra viver, momentos pra contar ao vento
Mas só se você estiver comigo nesse meio tempo.

Brasa que acendeu, fogueira que cresceu e nos queimou
Nascente que acreditou, virou rio e nos afogou
Um sonho vivo.
Você é isso pra mim, imensidão sem fim, sem metas ou contradições
Um desejo a se tornar verdade.

Você quer ser meu bem querer?
Responda-me pedindo as estrelas, ou meu coração
Faço seu desejo valer, se seus olhos brilham ao entardecer
Sem tardar te dou uma constelação.

Mas se você quiser sair, juro acreditar em ti
Se não valer a pena, se não for eficiente
Mas tenho a sensação em mim, vai ser eterno sim
Vai ser eterno até o fim...
O fim não é suficiente.

Maybe.


You’ll find me in places that you’re not used to go
In the middle of a storm, lost in the woods
Not in the market, I like to dirty my boots
If you knock my door, maybe you can’t find me
Maybe I’m away, thinking about you
Wondering why you don’t love me like the way I do
If you try talk to me in a gray day
I may not listen to you
I'm listening to that song
You don't like this song
You don't like the blues
If you try to call me in a sunday
I won't pick up the phone
I turned off the TV too
Wondering why you don't love me like the way I do
If you find me looking to the wall
Don't wake me up
I'm happy, because you love me like the way I do.

sábado, 12 de setembro de 2015

Fire (9)

 Estavam á caminho da casa de Louis, o pai, Louis, e a metade da metade da laranja. O silêncio reinava, Robert se sentia desconfortável apesar de ter aceitado participar do jantar, Louis se sentia envergonhado de tudo, seu pai sentia o dobro de vergonha e isso lhe comia as palavras.
 - Obrigado por ter ajudado meu filho.
 Foi tudo o que conseguiu dizer.
 Adentrando a cozinha, Lile pilotava o fogão, não se importava com todo esse papo de "mulher tem que pilotar o fogão", ela pilotava, manobrava, fazia você comer poeira, e gostava, o cheiro da comida abriu um sorriso na cara pálida de Robert, que a abraçou. Seu radar de irmã logo notou que algo estava fora dos eixos, Louis fitava o chão e Robert sorria, mas quando se tem uma conexão muito forte com a pessoa, você enxerga além do sorriso na casca.
 - Tudo parece muito apetitoso, menina. Sua mãe lhe ensinou a cozinhar desse jeito? - Perguntou o pai.
 - Sim. - Disse com orgulho - Depois eu pratiquei bastante.
 - Eu era a cobaia. - Robert disse rindo.
 O pai riu também, trocaram olhares pela primeira vez, talvez ali tivesse ocorrido o pedido formal de desculpas.
 Lile preparou um prato típico romeno, Carnatzlach, acompanhado de uma macarronada, caso o prato não agradasse todo mundo. Sentaram-se, sem cerimônias comeram, repetiram.
 Louis e Robert lavaram a louça enquanto o pai secava. Lile foi posta em um altar depois da janta. O pai agradeceu a presença de todos na casa e foi dormir, não puxou muito assunto com os irmãos, mas já era um grande começo. Quando ficaram só eles na sala principal, contaram o que aconteceu horas atrás. Lile se enfureceu, disse que ia ter uma conversa séria com o diretor, se nada fosse feito haveriam denúncias, isso preocupava Louis. Robert ainda se sentia no direito de resolver tudo no punho.
 Louis quis mostrar seu quarto para a metade da laranja. Estava um tanto desarrumado, nada fora do comum, alguns retratos na parede de sua mãe, outros de Lile e Robert no ultimo acampamento, muitos papéis na cama, rabiscos que poderiam virar algo concreto mais além. Deitaram os três na cama, ficaram conversando, trancaram as janelas, puseram uma toalha debaixo da porta e acenderam um baseado. Chapados, esperançosos de um futuro melhor e entretidos com eles mesmos, Louis tinha medo que isso acabasse, tinha medo de se tornar muito dependente de toda essa relação, mas fechou os olhos, se deixava entregar.
 - Queridos, preciso ir dormir, vamos pra casa Lile? - Robert realmente parecia cansado.
 - Por que não dormem aqui? Tenho um colchão debaixo da cama, posso dormir nele, e vocês dividem minha cama.
 Os irmãos se entreolharam.
 - É uma boa oferta, Rob. Está tarde para voltarmos, assim podemos fumar mais e conversar até mais tarde. De manhã cedo vamos pra casa antes de ir pro colégio.
 Concordou. Lile sorriu de orelha á orelha. se enfiaram em uma coberta, fumaram mais até pegar no sono, enxeram o quarto de perfume masculino e foram se deitar. Louis puxou o colchão e se deitou, Lile e Robert se deitaram na cama de Louis.

 Num desses sonhos mirabolantes, onde você tem asas e atinge os lugares mais inexplorados, onde você cai no infinito, onde nada faz algum sentido, onde é muito melhor não acordar, onde diversas mãos te proporcionam prazeres, onde várias bocas te beijam e depois cospem na sua cara. Louis estava longe, bem longe, foi trazido pra perto por uma mão que buscava prazer, a de Lile. Com muito cuidado ela saiu da companhia de Robert e se deitou no colchão com Louis, ainda sonolento, ele demorou pra entender o que estava prestes a acontecer. Quando notou, estavam se beijando, se acariciando, se provando como nunca. Louis teve súbito de juízo.
 - Robert está aqui, vamos acordá-lo.
 - Ele dorme como uma pedra. - Lile sussurrava em seu ouvido. Louis sentia todos os tipos de arrepios, sua cueca estava apertada. Lile podia sentir a respiração ofegante de Louis, seu corpo quente e um tanto trêmulo.
 - Tá tudo bem?
 - Sim.
 - Louis, você é virgem?
 - Que?
 - Louis, você é virgem?
 Silêncio.
 Ela não insistiu, obteve sua resposta. O beijou apaixonadamente, ele retribuiu, Lile se entregou apaixonadamente, Louis aceitou. Transavam ali, no seu quarto, debaixo das fuças do irmão, que provavelmente não estava dormindo.
 Entre gemidos e sussurros, a noite foi passando, a vergonha também, entre salivas e chupões, a noite foi uma criança crescida, entre penetrações e ejaculações, Louis se sentia novo.

 No dia seguinte, Louis tentava não olhar para Robert, Lile agia naturalmente, tomaram café da manhã mais cedo, conversaram normalmente e se despediram. Robert não parecia zangado. Quando chegaram á escola, Louis avistou o mesmo sujeito que os atacou no beco, agora não tinha dúvidas, o que mais lhe intrigava era que estava conversando com o diretor. Será que ele foi descoberto? Os três se entreolharam mas não comentaram nada.
 No intervalo, Lile interrompeu o passo do diretor.
 - Gostaria de conversar com o senhor, diretor.
 - Olá Lile, bom dia! Infelizmente não posso, tenho alguns compromissos. Me procure na minha sala amanhã, que tal?
 - Me sinto ameaçada por um aluno.
 Isso foi o suficiente para ele prestar atenção nela. Ele a abordou falando manso.
 - Como?
 - Me sinto ameaçada por um aluno, meu irmão e meu amigo já foram atacados. Ele é do terceiro ano do ensino médio. Gostaria que providências fossem tomadas, inclusive, era o menino na qual o senhor conversava agora pouco.
 O diretor parecia um pouco nervoso, respirou fundo.
 - Vou averiguar isso, ok? É uma acusação muito séria, você sabe disso, não?
 - Exatamente por ser séria que estou falando com o senhor.
 Ele sorriu sem graça, prometeu investigar o caso. Lile não sentiu confiança. Foi ao encontro dos dois.
 - Ele agiu como se estivesse tentando não ajudar. Qualquer outra pessoa iria tirar isso a limpo na hora. - Lile dizia enquanto se punha a pensar, Robert fechou a cara.
 - Maldito! Se ele também fechar os olhos pra tudo isso eu vou me virar.
 - Não! Nada de brigas, chega. - Louis disse olhando para os dois - Vamos pensar,,, Eu vou procurar a ficha do sujeito na direção, posso ir escondido, ninguém me imagina fazendo alguma coisa dessas... Lile, qual o nome completo do diretor?
 - Alfred Thompson.
 - Obrigado. - E saiu.
 A metade da laranja ficou pensativa e intrigada.
 Louis voltou com cara de poucos amigos.
 - Tyler Thompson.
 Lile olhou um tanto surpresa para Robert. Ele por sua vez manteve a mesma feição.
  -Você quer dizer que...
 - Vocês nunca notaram a semelhança do nariz gordo?
 Permaneceram em silêncio por algum tempo. Parecia um pouco mais complicado do que era.
 Robert, de súbito, saiu em passos largos até o portão, tomou impulso e foi correndo até lá, Louis e Lile o seguiram preocupados.
 - Rob! O que vai fazer? - Gritava Lile.
 Antes que o diretor pudesse fechar a porta de seu carro para sair, Robert o impediu.
 - Tyler Thompson!
 O diretor o olhava um tanto incrédulo.
 - O que quer dizer garoto?
 - O nome do sujeito é Tyler Thompson, ele e seus amigos nos atacaram duas vezes, uma vez dentro da sua escola. O que vai fazer? - Robert não piscava. o diretor parecia engolir qualquer palavra, Louis e Lile estavam olhando de trás, apreensivos.
 - Vocês tem provas?
 - Temos testemunhas, diretor, eu acredito que ele não goste da gente por sermos de fora. Ele nunca anda sozinho e eu temo pela minha irmã, não estou com ela o tempo todo. O que vai fazer? - Aquela pergunta parecia irritar o diretor, ele suspirou, batia os dedos da mão de leve no volante.
 - Tenho um conselho, apenas não se meta no caminho deles. Facilita pra mim e pra você. - Tentou fechar a porta de novo mas Robert a segurou.
 - Você está protegendo ele por ele ser seu filho, não é mesmo?
 Lile saiu da retaguarda e foi junto ao seu irmão.
 - Isso mesmo! Sabemos que ele tem o mesmo sobrenome que o senhor. Vai fechar os olhos quanto a isso?
 - Queridos... - O diretor saiu do carro, olhou para os dois, passou a mão em seus cabelos vermelhos e continuou - Vocês são apenas intercambistas bolsistas, apenas não se metam no caminho dos nossos alunos, já foi um grande presente vocês serem aceitos aqui, não é? Agora tentem ficar no lugar de vocês, ok? Vai facilitar muito minha vida. Tentem não causar algum tipo de alvoroço, ninguém vai levar vocês a sério. - Aquilo deixou Lile pasma, os olhos de Robert quase refletiam a cor de seu cabelo, fechou os punhos, antes que pudesse fazer algo, Louis segurou seu punho e o manteve abaixado.
 - Robert, controle-se. - Louis olhava para o diretor com repulsa.
 - Não vamos desistir, diretor.
 O diretor sorriu de canto, tirou a mão de Robert de sua porta com força,a fechou e deu partida. Os três voltaram para o colégio com uma sensação azeda e amarga.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Impraticável.

Minha poesia é impraticável
Você é inatingível
Enfeito de laços todas as desventuras
Uma coroa de flores em meio às cicatrizes
Nada realmente faz sentido
De nada vale escrever mil cartas
Mesmo guardando-a debaixo do travesseiro
Ou queimando-a em meio à lembranças...
Minha poesia é impraticável
Ela não tem fundamento
Mas eu continuo escrevendo
Pra você, pra eles, pra mim, pra todos
Seria tudo muito seco
Essa realidade sem palavras bonitas
Sem amores impossíveis
Você é impraticável
Um pouco fútil
Eu não sou notável
Um pouco inútil
Mas crio belas inutilidades, fugindo da verdade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Fire (8)

 A rotina voltava, Louis desejava que o acampamento tivesse durado pelo menos uma semana, começava a perceber que não se importava com ninguém mais na escola além dos irmãos. Passou momentos ótimos com eles, até mesmo o episódio da banheira foi válido, se sentia vivo, e isso o deixava apavorado.
 No intervalo tudo ocorria normal, os três se viram, conversavam, Lile tagarelava, Louis só ouvia e Robert trocava olhares ameaçadores com o grupo que os atacou da última vez, pelo visto nada foi feito com eles, nenhuma atitude foi tomada, e isso o frustrava muito. Robert não tolerava injustiça.
 Quando o sino tocou liberando a multidão, Lile e Louis esperavam por Robert na saída, em vão. Olharam para trás e o viram já do lado de fora, conversando com Marie, Lile fechou a cara e bufou, Louis suspirou e desejou que isso não fosse o começo de uma relação nada saudável para Robert, que parecia submisso á tudo isso. Os dois se entreolharam quando viram Robert e Marie se beijando. Os dois se aproximaram de Lile e Louis.
 - Olá - Disse Marie.
 Ninguém respondeu. Louis se sentiu na obrigação de quebrar o silêncio.
 - Oi.
 - Estamos indo tomar um café, querem ir conosco? - Robert convidou.
 - Não com ela - Disse Lile, que mordia o lábio inferior e olhava o chão. Louis sentia uma leve vontade de rir da resposta.
 - Não seja rude. - Robert sabia que esse momento iria chegar uma hora ou outra.
 - Sejamos francos... não gosto dela. - Lile agora olhava para o casal.
 - Não entendo por que você não gosta de mim. - Marie finalmente abriu a boca.
 O silêncio reinou, alguns segundos de constrangimento que pareceram horas.
 - Vamos Louis? - Robert convidou. Lile arregalou os olhos e fitou Louis. Ele se sentia num muro de fuzilamento.
 - Nós vamos. - Resposta final. Louis decretou a guerra no café bar.
 Pediram café, exceto por Marie, que pediu suco. Louis e Lile sentaram fora como de costume, para fumar seus cigarros. Marie reclamou.
 - Você sabe que eu não gosto de cigarro, o cheiro é nojento. Vamos sentar aqui dentro.
 - Faça um esforço, quer deixá-los lá fora?
 - Eles podem fazer um esforço, que tal?
 Lile conseguia ouvir os dois, se enfurecia mais a cada minuto. Louis começou achar que deu uma péssima resposta. No fim, Marie aceitou tomar seu suco no lado de fora.
 Depois de mais alguns segundos de silêncio, Marie tentou quebrar o gelo.
 - Seu nome é Louis, não é?
 - É sim.
 - Robert me disse muito sobre você.
 - Coisas boas, espero. - Marie sorriu.
 - Me conte... o que pretende fazer quando terminar o colégio?
 Louis suspirou, era o tipo de pergunta que sua tia faria.
 - Não sei ainda.
 - Na sua idade eu também não imaginava o que queria fazer.
 - Nossa, você é só um ano mais velha que ele. - Lile respondeu com cara de poucos amigos. Marie suspirou, deixou passar.
 - No que você vai se dedicar? - Perguntou Louis.
 - Arquitetura, é a profissão do meu pai, acho que levo jeito pra coisa. - Marie olhou para Robert de relance, continuou:
 - Já comentei com Robert que se ele quiser seguir esse caminho, meu pai pode ajudá-lo, acho que ele se encaixaria muito bem.
 - Ele está muito bem seguindo suas próprias vontades. - Lile respondeu, um tanto enfurecida.
 Marie mais uma vez deixou passar, suspirou.
 - No que você mais se identifica Louis?
 - Talvez arte... talvez eu seria um bom escritor, ou um bom artista plástico, só preciso treinar mais.
 - Ah claro... artistas. - Marie deu um sorriso mal dado e tomou seu suco. Louis se sentiu deslocado.
 - Marie... - Robert pensou em repreende-la, mas suspirou.
 - O que?
 - Pra mim já chega. - Lile se levantou e saiu fumando seu cigarro, Louis olhou para Robert e a seguiu. Enquanto se afastavam, era possível ouvir Robert e Marie discutindo.

 Quando a noite se aproximava e Louis fitava a parede de seu quarto procurando algo para ocupar sua mente, recebeu uma mensagem de texto de Robert. Planejava um jantar na casa dos irmãos. Louis teve uma ideia, já era hora de seus amigos conhecerem seu pai. Os convidou para jantar em sua casa. Robert aceitou, o chamou para esperá-lo na frente da livraria, assim iriam ao supermercado juntos, Lile estava ocupada em casa arrastando móveis e mudando a decoração, fazia isso quando se irritava muito, os encontrariam na casa de Louis mais tarde.
 Compraram o necessário, Louis já havia pedido para seu pai arrumar a mesa. No caminho de casa, conversavam um pouco.
 - Desculpe pela Marie, ela as vezes diz muita besteira.
 - Não se desculpe.
 Ficaram em silêncio por alguns minutos.
 - Você realmente gosta dela? - Louis perguntou. - Não estou te julgando.
 Robert sorriu.
 - Gosto, ela parece difícil de conviver mas estou trabalhando nisso, quando estamos sós ela me trata muito bem, só tem dificuldade de não impor sua opinião nos outros.
 - Não acho que ela seja a garota certa pra você.
 - Eu a amo.
 Antes que Louis pudesse responder, subitamente foi empurrado por um homem vestido todo de preto, usava um moletom com touca, o empurrão foi tão forte que ele foi tropeçando para o fundo de um beco até perder o equilíbrio e cair, Robert não teve tempo de segurá-lo, seguiu em sua direção mas olhando sempre para frente e nunca perdendo o contato com o agressor.
 - Quem você pensa que é? - Robert gritou.
 - Você está bem? - Robert se abaixou, segurava os ombros de Louis. Ele parecia assustado.
 Outros dois chegaram e tamparam a saída do beco.
 - Essa cidade não tem lugar pra vocês! - Um deles disse. Robert já entendia.
 - São vocês de novo, não são? Por que não mostram a cara? São covardes a esse ponto? Não se aproximem!
 - O que você vai fazer? Somos três, vocês são um e meio. - Os três riram. Louis se levantou.
 - Não tenho medo de vocês! - Louis encontrou do fundo do baú uma coragem jamais vivenciada.
 - Você vai apanhar tanto... até sua cara ficar da mesma cor do cabelo do seu amiguinho viado. Isso é pra você aprender a não ficar se metendo com esse tipo de gente!
 Aquilo tudo parecia irreal, Louis tinha muita raiva interna, mas já mais presenciara esse tipo de raiva em outra pessoa, a ponto de querer machucá-la sem motivo nenhum.
 - Eu tenho pena de vocês. - Louis parecia anestesiado com tudo isso, os três se aproximavam mais de Robert e Louis, Robert olhou em volta, chutou uma caixa e de madeira com força, que se desmontou, se armou de um pedaço de pau.
 - Não se aproximem! Vocês não me pegaram num bom dia. - Robert mantinha Louis atrás dele.
 - Vai defender seu namoradinho? Não vai conseguir, bixa.
 Quando estavam prestes a atacar, ouviram um barulho de carro se aproximando e entrando no beco, arrastando caixas e sacolas de lixo pelo caminho, os três sujeitos que tampavam o beco se escoraram nas extremidades da parede para não serem atropelados. Era o pai de Louis. Os três saíram do beco, não sem antes danificar a traseira do carro.
 Robert largou o pedaço de pau e foi em direção de Louis.
 - Você está bem? Se machucou?
 - Não...
 - Louis! - Era seu pai.
 - Bem na hora, pai.
 - Entre no carro, e você... *apontando para Robert* afaste-se do meu filho.
 Robert parecia um pouco confuso, mas não respondeu e nem questionou nada.
 - O que?! - Louis era puxado pelo seu pai.
 - Entre no carro.
 - Me solta! Ele me defendeu! Por que você não corre atrás de quem realmente está errado?
 - Não quero você mais metido com essa gente. Só trazem problemas.
 Louis conseguia ver a expressão de Robert, era uma mistura de vergonha e tristeza.
 - Retire o que disse! Pai!
 Entraram no carro, deram a ré, Robert ficou sozinho no beco, iluminado apenas pelo farol do carro que se afastava.
 - Que merda você tá fazendo pai?!
 - É isso que ele está te ensinando então?
 - Você está enlouquecendo! Volte lá e vamos buscar ele!
 - Vamos para casa.
 - Sim, com ele!
 - JÁ CHEGA! Não quero mais você metido com eles, olha no que ele te meteu, numa briga de rua! Não foi a educação que eu te dei!
 Louis parecia não acreditar no que estava acontecendo, um mar de intolerância o afogava, começou a chorar.
 - Você não entende nada! Ele é meu amigo, meu melhor amigo! A Lile também, eles são as pessoas que me mostraram pelo menos um pingo de consideração e de que vale a pena viver por algo! Coisa que você não fez! Eles estão sendo atacados por aí só por serem de fora, ele me defendeu! Você deveria recebê-lo de braços abertos... Esse é seu problema, você é medroso demais! Mas eu não quero ser mais assim, eu quero viver...
 Seu pai acabava de ouvir nessa conversa mais do que já tinha ouvido de Louis a semana inteira. Não tinha resposta, Louis se encolhia no banco da frente. Um buraco tinha sido aberto em seu peito, cada soluço que Louis dava era um tiro no ouvido. Sem pensar muito, mudou a rota e fez o retorno, Louis percebeu e o olhou desarmado.
 - Obrigado...
 Silêncio.
 Passaram pelo beco, mas Robert não estava mais lá, seguiram em direção á casa dele, chovia um pouco. O encontraram num ponto de ônibus, fitando o vazio, provavelmente usava a desculpa para si próprio que esperava a chuva passar. O carro encostou ao lado do ponto de ônibus. Louis desceu do carro e foi abraçá-lo.
 - Estava chorando? - Robert perguntou.
 - Não... desculpe. Meu pai não quis ofendê-lo.
 - Tudo bem, não é a primeira vez.
 - Vamos pra casa, temos um jantar.
 - Não estou no clima, Louis.
 - Por favor...
 Robert suspirou, disse num tom baixo o suficiente para que seu pai não escutasse.
 - Talvez ele tenha razão. Eles poderiam ter te machucado, eu não iria me perdoar. Talvez eu não seja uma boa companhia pra você.
 - Não! Por favor, esqueça isso... você e Lile são as melhores companhias que já tive. Eu amo vocês, não quero me afastar. Vocês não podem se afastar. - Louis falava enquanto segurava os ombros de Robert, nem percebeu que estava na chuva, seu cabelo já pingava.
 - Entre no carro garoto. - O pai de Louis disse em tom alto. - Não posso deixar o carro estacionado aqui.
 - Por favor. - Louis insistia.
 - Eu sei que não começamos bem... podemos tentar de novo... entre no carro. - Louis sorriu com a resposta de seu pai. Robert enfim cedeu.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sonhar

Dei meia volta e fui colando os cacos, tropecei nos meus próprios ladrilhos, cobri os buracos, mas faltava muita coisa, comecei um quebra-cabeça com novas peças velhas, me perdi e desisti. Retornei ao zero, ao ponto de encontro, olhei para frente e estava tudo intacto, mas meus pés sangravam.

Imundo por dentro e por fora.

Não há culpados quando a sirene toca, não há refúgio em lares em baixo d'água. A onda vem e me arrasta, me guia sem direção e eu não consigo parar. Dou risada e me entrego a demência, posso rir até chorar. Essa onda ártica e cortante, que tira seu fôlego e não te deixa gritar... balbucio alguma coisa sem sentido... essa onda se chama sonhar.

Porque quando estás em alto mar, e seu barquinho já não consegue enxergar o que deixou, não vale em nada nadar dias e dias pra tentar dar adeus, colher o que foi esquecido, deixar claro que não foi sua intenção... vou morrer... então eu sonho... quando acordo estou em pé, olhando meu reflexo, "já tive dias piores", digo eu. Não quero mais voltar. Meus pés ainda sangram.

Não estou mais imundo.
Banho de mar.

domingo, 9 de agosto de 2015

Mar aberto.

Foi coberto em um véu até o abrigo mais distante... Fitou por horas e horas o horizonte. Fez da agonia uma nova amiga. Tratou das feridas com cachaça e ria... Ria muito. Lavou a sujeira da alma com água e sal, e não teve medo. Continuou até onde os navios mais distantes navegavam... E voltou pra casa.

sábado, 13 de junho de 2015

Natural.

Essa chuva que lava vielas
Esse vento que harmoniza
O pó que invade a cozinha
Tão natural quanto a luz do dia.

Tu vem e vai, fecha a porta
Tranca, abre, fecha, me deixa à sorte.
Tu vem e vai, não me visita
Tão natural quanto a luz do dia.

Tu fala de mim pro teus amigos
Como quem não quer nada
Troféuzinho de balcão
Medalha de latão.
Tão natural quanto a luz do dia
Tu vem e volta, ventos... Tô tão cansado... Tão natural quanto o fim dos tempos.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Fire (7)

A madrugada corria e o frio os abraçava, os três já se preparavam pra dormir, Robert ja dormia e ainda tiritava de frio, mesmo coberto e com Lile o abraçando.
- Não é melhor o levarmos a um hospital? Perguntou Louis.
- Ele vai ficar bem... Agora me conta.
- Contar o que?
- Não se faça de burro.
- Não sei do que...
- É aquela loira azeda não é?  Eu juro que vou estrangular ela, quem ela pensa que é pra se meter com meu irmão? Louis, eu juro pela minha mãe que se ela o fizer chorar vou arrancar aqueles peitos murchos dela na base da faca!
Louis a olhava estarrecido, podia jurar que seus olhos estavam refletindo a cor de seus cabelos.
- Calma Lile...
- Calma? Meu irmão é a melhor pessoa desse mundo, ela não tem direito de fazer isso com ele. Louis colocou as duas mãos no rosto de Lile, ela fechou os olhos e suspirou devagar. Louis a beijou.
- Ele precisa do seu apoio agora, acho que ele é adulto o suficiente pra resolver isso sozinho. Lile o olhou com cara feia, se soltou de Louis e deu as costas.
- Você não o conhece.
O silêncio ficou ali por alguns minutos, Lile, que já abraçava Robert, olhou para Louis.
- Vai ficar dormindo aí sentado?
- Não.
- Então deite conosco. Pode abraçar Robert e o deixar no meio, assim ele me abraça. Louis pensou um pouco.
- Isso parece estranho, não sei se ele gostaria.
- Somos amigos não somos?
- Somos.
- É estranho pra você abraçar um amigo?
- Não.
- Pode abraçar o Rob?
Louis fez que sim. Deitou do lado de Robert e o abraçou. Após algum tempo sentiu que Robert parou de tremer. Fechou os olhos.

Acordou com Lile e Robert arrumando a mochila. Tomou um gole de café que estava sendo esquentado na última fogueira e arrumou suas coisas.
- Como se sente Robert? Louis perguntou.
- Bem, só com dor de cabeça. Incomodei muito?
- Não, gostei muito de vir com vocês.
- Quer tomar banho lá em casa? É mais perto do que sua casa afinal, e você pode tirar um cochilo. Lile não aparentava estar brava. Louis aceitou.

No caminho de volta, apesar de dizer que não lembrava muita coisa, Robert parecia cabisbaixo, parecia estar em guerra consigo mesmo. Louis e Lile conversavam sobre astrologia. O sol já aquecia os cantos umedecidos das esquinas e o topo dos prédios, estavam de volta na selva de pedra. Chegaram em casa, jogaram as mochilas pesadas no chão e sentaram no sofá, exceto Robert, que foi direto ao banheiro.
- Preciso de um banho.
- Logo mais também vou. Disse Lile.
Louis esperou Robert entrar no banheiro e comentou:
- Vocês tomam banho juntos?
- Somos irmãos, não tenho vergonha. Se quiser tomar banho conosco...
Louis ficou em silêncio, não quis acreditar muito na oferta que acabara de ouvir.
- Você diz... Com vocês dois ao mesmo tempo?
- Sim.
- Desculpe, sou um pouco tímido.
Lile riu.
- Vou deixar a porta aberta. E foi. Podia ouvir o barulho dela entrando na água. Estava tentado, não podia negar, ficou ouvindo os dois conversarem perto da porta, até que entrou no banheiro. Os dois permaneceram olhando Louis, cada um em uma extremidade da banheira.
- A água está ótima. Robert convidou.
- Tudo bem, só me senti um pouco solitário na sala.
- Não está mais, aqui vai se sentir menos ainda, Louis. Lile tinha um olhar diferente, diferente do que já tinha percebido nela, Robert parecia o mesmo de sempre. Louis pensou com os próprios botões por algum tempo e decidiu entrar. Ficou de cueca, notou que ambos estavam nus, tentou não pensar no assunto. Ficou entre eles, pela lateral. Lile o puxou pra perto dela e o abraçou por trás, Louis sentia os seios de Lile em suas costas, continuou não pensando nisso.
- Não é tão ruim, é? Lile perguntou.
- Não... É... Interessante.
Silencio. Lile e Robert gargalharam.
- Interessante... Que tipo de resposta é essa? Lile continuava a rir.
- Deixe ele Lile. Robert acendeu um cigarro.
Lile começou a esfregar as costas de Louis, ele ainda tentava não pensar no assunto. Percebeu que Lile se apoiou de joelhos, começou a beijar seu pescoço enquanto lavava seus ombros. Louis já não conseguia mais não pensar no assunto.
- Lile...
- O que foi? Perguntou ela enquanto beijava seu pescoço.
- Eu me sinto... Eu estou...
-  Excitado? Perguntou Robert.
Louis parecia estarrecido, não respondeu.
- É completamente normal, não deveria se envergonhar. Robert continuou fumando seu cigarro.
Louis também sentiu que Lile começava a empurra-lo para o meio com as duas mãos em suas costas, bem devagar. Louis sentia uma mistura de medo e tesão. Quando seu joelho encostou na perna de Robert, percebeu que estava perto demais dele. Tentou se segurar com as mãos no fundo da banheira, mas escorregava, quando o contato visual com Robert já o dava arrepios e sua pele já encostava com a dele em varias ocasiões, Lile abraçou Louis.
- Amo vocês, sabiam?
- Também te amo, irmã. Robert estendeu a mão até Lile, deixando seu braço solto nos ombros de Louis. Louis estava sem fôlego. Levantou da banheira sem falar nada, se enrolou em uma toalha e saiu.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Fire (6)

A noite se aproximava, Louis havia voltado para casa e arrumava suas coisas, pensava no beijo que deu em Lile e de como deveria ser daqui pra frente, se ela era do tipo que se apegava ou não, não parecia. Se perguntava se Robert se importava mesmo ou não, e se iria sentir algo, já que não beijava alguém a um bom tempo. Seu pai o observava enquanto ele procurava algumas coisas.
- Me lembro de quando íamos acampar com sua mãe nas montanhas. Silêncio.
- Fico feliz em ter arrumado novos amigos, espero que esqueça Elisabeth.
Louis deixou cair a lanterna que tinha encontrado.
- Louis?
- Não falamos sobre a mamãe, não falamos de Elisabeth.
Seu pai suspirou, deu meia volta e fechou a porta.

Indo para a floresta, Robert, Lile e Louis já acendiam um beck, combinavam jogos e cantavam The Smiths, banda favorita de Lile.
Lile e Louis esperaram na esquina da entrada improvisada por Robert, enquanto ele dava a volta pelo quarteirão para verificar se policiais estavam rondando. Adentraram o local por uma trilha fechada, cortando alguns galhos que obstruiam a passagem. Chegaram em lugar marcado e aberto, como uma cúpula no meio da floresta. Haviam mesas e bancos improvisados de troncos, todos feitos por Robert, algumas escritas nas madeiras, provavelmente feitas por outros grupos que passaram por ali antes. Estenderam um pano no chão, deixaram comida, bebida e as drogas ali, Robert montava a barraca enquanto Lile fazia a fogueira, Louis se sentia um pouco inútil.

Assim que terminaram os afazeres, se puseram a beber e fumar, Louis contou algumas coisas que não havia contado e nem pensava contar para ninguém, coisas sobre sua mãe, Elisabeth, sobre si mesmo. Ouviu de Lile e Robert sobre seus passados, do que pretendem pro futuro.

Com o efeito do álcool e da chapação, o trio se sentia mais livre pra tudo, Lile teve a ideia de jogar uma espécie de quiz, onde quem errasse perderia uma peça de roupa, o tema era de livre escolha, com o frio que fazia, ninguém se arriscava a errar. Giravam a garrafa, a base pergunta pro bico. Lile > Robert.
- Qual a capital da Mongólia?
- Que?
- Ulan Bator, tira uma peça de roupa. Louis ria. Robert fez cara feia e tirou os sapatos.
Louis > Lile.
Louis pensou um pouco, olhou para Robert e sorriu.
- Quantas especies de borboletas podem ser encontradas na floresta amazônica?
- Isso é um complô? Perguntou Lile.
- Sabe?
Lile tentou recordar algo que Robert havia lhe explicado, mas se limitou a chutar um palpite.
- 300... Sei lá.
- 1.800.
Lile suspirou, tirou a blusa de cara. Louis olhou para outro lado, os cabelos vermelhos de Lile pendiam sobre seu pálido ombro.
Louis > Robert.
- Em que ano foi inaugurada a torre Eiffel? Robert sorriu.
- 1889. Você consegue elaborar perguntas melhores. Tira a blusa.
- Mas eu não errei nenhuma pergunta. Protestou Louis.
- Bebe um pouco, fuma mais e tira a blusa. Lile apoiava. Louis que já sentia um pouco de frio, tomou coragem e o fez.
Lile > Robert.
- Essa garrafa está comprada, não é possível. Lile ria.
- Quem era o arquiteto na construção da torre Eiffel?
Robert fitou o vazio, parecia buscar a resposta.
- Droga!... Não sei.
- Stephen...
- Sauvestre. Completou Robert.
- Tarde demais, irmão.
Robert suspirou, tirou a blusa e a regata. Louis não pode deixar de notar, as costas de Robert tinham varias pintas, algumas no peito, se sentia estranho por ficar olhando e disfarçou.
- Olhar não tira pedaço Louis. Brincou Lile.
- Eu não... Esquece.

Se cansaram do jogo, Louis permanecera com uma camiseta e se cobria com um cobertor, tinha acertado todas. Lile só errou aquela, estava de sutiã e também se cobrindo, já Robert errou todas, usava só uma cueca samba-canção e bebia para esquentar, não parecia se preocupar. Robert notou que a fogueira estava fraca e não havia muita lenha, se adentrou na floresta a procura de alimento pra fogueira. Lile e Louis ficaram conversando, se beijaram, riam, não notaram a demora de Robert. Até Lile se dar conta.
- Louis... Rob está demorando muito.
- Tem razão, vou buscá-lo. Fique aqui.
Louis tomou a mesma direção que Robert, após alguns minutos de caminhada, o viu escorado em uma árvore, estava de cabeça baixa, mais pálido que o normal. O amontoado de galhos que havia recolhido estava em seus pés. Louis foi ao seu encontro às pressas.
- Robert? (Colocou a mão em seu rosto) Você está parecendo um iceberg. O que foi?
- Eu sou mesmo um idiota, pequeno Louis. Ele tossia e limpava o rosto, parecia chorar mas não queria demonstrar.
- O que aconteceu Robert? Você está bêbado? Robert riu, passou a mão no rosto de Louis.
- Acho que sim.
- Vamos voltar pro acampamento, você precisa se esquentar.
- Não! Lile não pode me ver assim.
- Ela é sua irmã, vai entender.
- Você não entende... Louis... Eu amo ela, e ela não me ama.
- De quem você está falando?
- Como de quem? Da Marie. Ela me deu um fora, depois de tudo, disse que eu não tenho futuro, e que ela quer algo estável, mas eu tenho planos, não sou um desses sem futuro, Louis.
- Não, não, não... Você não é sem futuro, ela está errada. Aposto que ela vai perceber e vai correr atrás de você novamente.
- Eu gosto dela Louis, como nunca gostei de ninguém. Eu quero ser pra ela o que os outros não foram, eu sou essa pessoa, eu tenho que cuidar dela, de Lile...
Louis não sabia mais o que fazer, pegou a lenha do chão e com o outro braço serviu de apoio para Robert, tarefa árdua.
- Escuta, se você não quer que Lile te veja assim, enxuga as lágrimas. Você está bêbado, quando você ficar normal, eu vou te contar e você vai dar risada. Eu sei porque eu e Elisabeth fazíamos isso o tempo todo.
- Quem é Elisabeth? Robert perguntou enquanto tiritava. Louis fechou os olhos e abraçou Robert.
- Vai ficar tudo bem, Robert.
Quando voltaram, Lile veio ao encontro de Robert.
- Quer me matar do coração? Achei que tinham te raptado.
- Estou bem. Lile o fitou. Colocou a mão em seu rosto. Sua expressão mudou na hora.
- O que foi Rob?
- Ele está bêbado, acho que se perdeu. Não é nada demais. Lile os olhou desconfiada, não gostava de sentir que lhe escapava algo na história. Pegou uma coberta e cobriu Robert, sentaram em roda perto da nova fogueira, lhe ofereceu comida e café. Robert pôs seu rosto no ombro de Lile e ali ficou. Lile olhava para Louis, como se o interrogasse.