A rotina voltava, Louis desejava que o acampamento tivesse durado pelo menos uma semana, começava a perceber que não se importava com ninguém mais na escola além dos irmãos. Passou momentos ótimos com eles, até mesmo o episódio da banheira foi válido, se sentia vivo, e isso o deixava apavorado.
No intervalo tudo ocorria normal, os três se viram, conversavam, Lile tagarelava, Louis só ouvia e Robert trocava olhares ameaçadores com o grupo que os atacou da última vez, pelo visto nada foi feito com eles, nenhuma atitude foi tomada, e isso o frustrava muito. Robert não tolerava injustiça.
Quando o sino tocou liberando a multidão, Lile e Louis esperavam por Robert na saída, em vão. Olharam para trás e o viram já do lado de fora, conversando com Marie, Lile fechou a cara e bufou, Louis suspirou e desejou que isso não fosse o começo de uma relação nada saudável para Robert, que parecia submisso á tudo isso. Os dois se entreolharam quando viram Robert e Marie se beijando. Os dois se aproximaram de Lile e Louis.
- Olá - Disse Marie.
Ninguém respondeu. Louis se sentiu na obrigação de quebrar o silêncio.
- Oi.
- Estamos indo tomar um café, querem ir conosco? - Robert convidou.
- Não com ela - Disse Lile, que mordia o lábio inferior e olhava o chão. Louis sentia uma leve vontade de rir da resposta.
- Não seja rude. - Robert sabia que esse momento iria chegar uma hora ou outra.
- Sejamos francos... não gosto dela. - Lile agora olhava para o casal.
- Não entendo por que você não gosta de mim. - Marie finalmente abriu a boca.
O silêncio reinou, alguns segundos de constrangimento que pareceram horas.
- Vamos Louis? - Robert convidou. Lile arregalou os olhos e fitou Louis. Ele se sentia num muro de fuzilamento.
- Nós vamos. - Resposta final. Louis decretou a guerra no café bar.
Pediram café, exceto por Marie, que pediu suco. Louis e Lile sentaram fora como de costume, para fumar seus cigarros. Marie reclamou.
- Você sabe que eu não gosto de cigarro, o cheiro é nojento. Vamos sentar aqui dentro.
- Faça um esforço, quer deixá-los lá fora?
- Eles podem fazer um esforço, que tal?
Lile conseguia ouvir os dois, se enfurecia mais a cada minuto. Louis começou achar que deu uma péssima resposta. No fim, Marie aceitou tomar seu suco no lado de fora.
Depois de mais alguns segundos de silêncio, Marie tentou quebrar o gelo.
- Seu nome é Louis, não é?
- É sim.
- Robert me disse muito sobre você.
- Coisas boas, espero. - Marie sorriu.
- Me conte... o que pretende fazer quando terminar o colégio?
Louis suspirou, era o tipo de pergunta que sua tia faria.
- Não sei ainda.
- Na sua idade eu também não imaginava o que queria fazer.
- Nossa, você é só um ano mais velha que ele. - Lile respondeu com cara de poucos amigos. Marie suspirou, deixou passar.
- No que você vai se dedicar? - Perguntou Louis.
- Arquitetura, é a profissão do meu pai, acho que levo jeito pra coisa. - Marie olhou para Robert de relance, continuou:
- Já comentei com Robert que se ele quiser seguir esse caminho, meu pai pode ajudá-lo, acho que ele se encaixaria muito bem.
- Ele está muito bem seguindo suas próprias vontades. - Lile respondeu, um tanto enfurecida.
Marie mais uma vez deixou passar, suspirou.
- No que você mais se identifica Louis?
- Talvez arte... talvez eu seria um bom escritor, ou um bom artista plástico, só preciso treinar mais.
- Ah claro... artistas. - Marie deu um sorriso mal dado e tomou seu suco. Louis se sentiu deslocado.
- Marie... - Robert pensou em repreende-la, mas suspirou.
- O que?
- Pra mim já chega. - Lile se levantou e saiu fumando seu cigarro, Louis olhou para Robert e a seguiu. Enquanto se afastavam, era possível ouvir Robert e Marie discutindo.
Quando a noite se aproximava e Louis fitava a parede de seu quarto procurando algo para ocupar sua mente, recebeu uma mensagem de texto de Robert. Planejava um jantar na casa dos irmãos. Louis teve uma ideia, já era hora de seus amigos conhecerem seu pai. Os convidou para jantar em sua casa. Robert aceitou, o chamou para esperá-lo na frente da livraria, assim iriam ao supermercado juntos, Lile estava ocupada em casa arrastando móveis e mudando a decoração, fazia isso quando se irritava muito, os encontrariam na casa de Louis mais tarde.
Compraram o necessário, Louis já havia pedido para seu pai arrumar a mesa. No caminho de casa, conversavam um pouco.
- Desculpe pela Marie, ela as vezes diz muita besteira.
- Não se desculpe.
Ficaram em silêncio por alguns minutos.
- Você realmente gosta dela? - Louis perguntou. - Não estou te julgando.
Robert sorriu.
- Gosto, ela parece difícil de conviver mas estou trabalhando nisso, quando estamos sós ela me trata muito bem, só tem dificuldade de não impor sua opinião nos outros.
- Não acho que ela seja a garota certa pra você.
- Eu a amo.
Antes que Louis pudesse responder, subitamente foi empurrado por um homem vestido todo de preto, usava um moletom com touca, o empurrão foi tão forte que ele foi tropeçando para o fundo de um beco até perder o equilíbrio e cair, Robert não teve tempo de segurá-lo, seguiu em sua direção mas olhando sempre para frente e nunca perdendo o contato com o agressor.
- Quem você pensa que é? - Robert gritou.
- Você está bem? - Robert se abaixou, segurava os ombros de Louis. Ele parecia assustado.
Outros dois chegaram e tamparam a saída do beco.
- Essa cidade não tem lugar pra vocês! - Um deles disse. Robert já entendia.
- São vocês de novo, não são? Por que não mostram a cara? São covardes a esse ponto? Não se aproximem!
- O que você vai fazer? Somos três, vocês são um e meio. - Os três riram. Louis se levantou.
- Não tenho medo de vocês! - Louis encontrou do fundo do baú uma coragem jamais vivenciada.
- Você vai apanhar tanto... até sua cara ficar da mesma cor do cabelo do seu amiguinho viado. Isso é pra você aprender a não ficar se metendo com esse tipo de gente!
Aquilo tudo parecia irreal, Louis tinha muita raiva interna, mas já mais presenciara esse tipo de raiva em outra pessoa, a ponto de querer machucá-la sem motivo nenhum.
- Eu tenho pena de vocês. - Louis parecia anestesiado com tudo isso, os três se aproximavam mais de Robert e Louis, Robert olhou em volta, chutou uma caixa e de madeira com força, que se desmontou, se armou de um pedaço de pau.
- Não se aproximem! Vocês não me pegaram num bom dia. - Robert mantinha Louis atrás dele.
- Vai defender seu namoradinho? Não vai conseguir, bixa.
Quando estavam prestes a atacar, ouviram um barulho de carro se aproximando e entrando no beco, arrastando caixas e sacolas de lixo pelo caminho, os três sujeitos que tampavam o beco se escoraram nas extremidades da parede para não serem atropelados. Era o pai de Louis. Os três saíram do beco, não sem antes danificar a traseira do carro.
Robert largou o pedaço de pau e foi em direção de Louis.
- Você está bem? Se machucou?
- Não...
- Louis! - Era seu pai.
- Bem na hora, pai.
- Entre no carro, e você... *apontando para Robert* afaste-se do meu filho.
Robert parecia um pouco confuso, mas não respondeu e nem questionou nada.
- O que?! - Louis era puxado pelo seu pai.
- Entre no carro.
- Me solta! Ele me defendeu! Por que você não corre atrás de quem realmente está errado?
- Não quero você mais metido com essa gente. Só trazem problemas.
Louis conseguia ver a expressão de Robert, era uma mistura de vergonha e tristeza.
- Retire o que disse! Pai!
Entraram no carro, deram a ré, Robert ficou sozinho no beco, iluminado apenas pelo farol do carro que se afastava.
- Que merda você tá fazendo pai?!
- É isso que ele está te ensinando então?
- Você está enlouquecendo! Volte lá e vamos buscar ele!
- Vamos para casa.
- Sim, com ele!
- JÁ CHEGA! Não quero mais você metido com eles, olha no que ele te meteu, numa briga de rua! Não foi a educação que eu te dei!
Louis parecia não acreditar no que estava acontecendo, um mar de intolerância o afogava, começou a chorar.
- Você não entende nada! Ele é meu amigo, meu melhor amigo! A Lile também, eles são as pessoas que me mostraram pelo menos um pingo de consideração e de que vale a pena viver por algo! Coisa que você não fez! Eles estão sendo atacados por aí só por serem de fora, ele me defendeu! Você deveria recebê-lo de braços abertos... Esse é seu problema, você é medroso demais! Mas eu não quero ser mais assim, eu quero viver...
Seu pai acabava de ouvir nessa conversa mais do que já tinha ouvido de Louis a semana inteira. Não tinha resposta, Louis se encolhia no banco da frente. Um buraco tinha sido aberto em seu peito, cada soluço que Louis dava era um tiro no ouvido. Sem pensar muito, mudou a rota e fez o retorno, Louis percebeu e o olhou desarmado.
- Obrigado...
Silêncio.
Passaram pelo beco, mas Robert não estava mais lá, seguiram em direção á casa dele, chovia um pouco. O encontraram num ponto de ônibus, fitando o vazio, provavelmente usava a desculpa para si próprio que esperava a chuva passar. O carro encostou ao lado do ponto de ônibus. Louis desceu do carro e foi abraçá-lo.
- Estava chorando? - Robert perguntou.
- Não... desculpe. Meu pai não quis ofendê-lo.
- Tudo bem, não é a primeira vez.
- Vamos pra casa, temos um jantar.
- Não estou no clima, Louis.
- Por favor...
Robert suspirou, disse num tom baixo o suficiente para que seu pai não escutasse.
- Talvez ele tenha razão. Eles poderiam ter te machucado, eu não iria me perdoar. Talvez eu não seja uma boa companhia pra você.
- Não! Por favor, esqueça isso... você e Lile são as melhores companhias que já tive. Eu amo vocês, não quero me afastar. Vocês não podem se afastar. - Louis falava enquanto segurava os ombros de Robert, nem percebeu que estava na chuva, seu cabelo já pingava.
- Entre no carro garoto. - O pai de Louis disse em tom alto. - Não posso deixar o carro estacionado aqui.
- Por favor. - Louis insistia.
- Eu sei que não começamos bem... podemos tentar de novo... entre no carro. - Louis sorriu com a resposta de seu pai. Robert enfim cedeu.
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