terça-feira, 29 de setembro de 2015

Fire (12)

Um ano atrás...

 Louis estava em seu quarto, deitado no chão de barriga pra baixo em vários papéis em branco, parecia buscar inspiração, ainda não tinha sua vontade de viver inibida pelo mundo externo, na verdade tinha, mas não era um sentimento tão forte, tentava se acostumar.
 - Louis? Visita! - Gritou seu pai.
 Louis não respondeu, ouvia passos delicados se aproximarem de seu quarto, já sabia quem era.
 Parada na porta, estava uma menina bem pálida, de cabelo curto e bem escuro, era um tanto encorpada, quase sempre estava de branco, trazia com ela uma escultura feita por ela mesma, algumas folhas em branco e um estojo decorado... Era Elisabeth.
 - Você demorou. - Reclamou Louis
 - Foi mal, estava dando uns retoques finais. Olhe, gostou?
 Louis analisou a escultura, era um rosto deformado feito de esparadrapos, pintado com diversas cores de tinta. - Nada mal. Fez sozinha?
 - Sim... o que está fazendo?
 - Tentando escrever, mas minha mente anda oca.
 - Você é bom Louis, se não fosse não teria te escolhido, não desista, ainda vamos dominar o mundo com arte. - Louis sorriu.
 - Sim, arte para o povo.

 Louis e Elisabeth eram inseparáveis, se completavam, mantinham um no outro a vontade de tentar fazer algo diferente, articulavam projetos, planos, desenhavam, escreviam, moldavam juntos, se ajudavam como podiam. Ambos de caráter reservado, sabiam que o tinham pelo outro era forte, mas não demonstravam tanto.
 Foram se arrastando pelo ano letivo juntos, eram uma dupla excluída como muitas por aí, até que em algum determinado momento, Elisabeth tentou algo novo, se permitiu amar, um amor sem barreiras e sem limites, foi um girassol em busca de brilho, mal sabia ela que seu amor era a lua.
 Louis não se opôs, não se sentiu no direito de opinar, até se sentiu feliz por ela. Craig, namorado de Elisabeth, era 7 anos mais velho que ela, não terminou o colégio, trabalhava como garçom e dirigia o carro velho do pai por aí. No começo, como todo paixão fresca, foi tudo muito bonito, Louis e Elisabeth ainda se viam, mas ela criava pouco, contava para Louis suas novas experiências, quando convidada para elaborar algum projeto, dizia não estar inspirada, o que soava engraçado para Louis.
 O tempo foi passando e Elisabeth se distanciando, Louis só a via com Craig, ele parecia um pouco rude, mas se ele lhe fazia feliz, Louis aceitava. Mas quando a viu debilitada, magra, com marcas de abuso e quando um boato chegou em seus ouvidos de que Elisabeth estaria gravida e abortou, Louis se viu na obrigação de tentar fazer o papel de amigo, de lhe avisar que isso não era saudável, de que sentia falta dos tempos onde só compor era suficiente. Foi falar com ela... foi a ultima vez. Brigaram, Elisabeth o julgou estar contra ela. Desde então, Elisabeth só andava com Craig e mal olhava mais para Louis, ele por sua vez não insistiu em uma reaproximação.

 Passado algumas semanas da briga, houve uma festa no colégio, organizado pelo grupo esportivo, basicamente, iriam todas as pessoas que Louis não se identifica, mas quando se está completamente só e ainda não é capaz de associar tudo, há tentativas de se socializar. Louis ficou só na festa, ficou triste e angustiado, viu Elisabeth, percebeu que ela se tornou uma pessoa da qual ele não consiga se comunicar mais. Foi a primeira ponta da solidão total que abraçou Louis.
 Apelou pra bebida, Louis nunca foi de beber, mas se sentiu no direito de afogar as mágoas, bebeu até rir e chorar sozinho, bebeu até perder o juízo e cair no chão, no meio do barro e virar piada. Sua cabeça rodava e tudo se misturava com o barulho ensurdecedor da vergonha e dos risos que vinham como flechas, procurou por Elisabeth, a viu, os olhos de Louis clamavam por ajuda, notou que Elisabeth até queria se desprender de tudo e ir até lá, tira-lo dali, mas ela estava com Craig, que estava rindo também, então ela se pôs a rir.
 - Perdedores merecem isso. - Foi isso que ouviu dela.

 Esse episódio mudou Louis, ele se tornou uma pessoa mais seca, mais amarga, descrente de bons afetos. Louis não teve mais apoio e cedeu, foi salvo pelos irmãos. Uma semana depois da festa, Elisabeth deixou o colégio, foi morar com Craig, nunca mais ouviu falar dela, até que um ano depois...
 Lá estava ela, do outro lado da sala, os olhos de Louis lutavam para não envolvê-la em análises, ela estava péssima, muito magra, com manchas pelo corpo, com um olhar opaco, era o mesmo olhar que Louis tinha.
 Lile notava todo esse clima pesado.
 - O que está havendo? - Perguntou ela.
 - É ela. - Disse Louis em baixo tom. - Elisabeth.
 - A piranha que te humilhou? - Lile quase levantou da cadeira e seu tom de voz não foi tão baixo assim. Elisabeth a olhou de volta, trocaram farpas.
 No intervalo, Louis tentava se assegurar que Lile não fosse conversar com Elisabeth, não gostava nem um pouco da ideia, Robert estava em um canto com Marie, provavelmente discutindo como sempre, vagando entre carícias e reclamações. Em um momento de descuido, viu Lile na cafeteria do colégio, parada atrás de Elisabeth, que comia alguma coisa, Louis se apressou.
 - Não se aproxime dele. - Chegou tarde, Lile já havia abordado Elisabeth. Ela se virou devagar e permaneceu com o olhar focado em Lile.
 - Do que está falando? Você é a aluna intercambista não é? Não me amole com suas paranoias, não sei por que permitem gente como você aqui no colégio.
 - Mal voltou e já está bem informada, futilidade corre rápido.
 - Lile! - Louis segurou o pulso de Lile. - Vamos. - Elisabeth olhava Louis e não sabia como reagir, não estava perto dele fazia um ano.
 - Por sua maldita causa, Louis tentou se matar, sabia? - Lile se soltou de Louis, Louis bufou de raiva e saiu, não queria ouvir mais nada. - Se não fosse por nós, Louis não estaria mais aqui, você o abandonou, o humilhou. - Elisabeth permaneceu imóvel, tentou não demonstrar espanto, mas falhou, seus olhos corriam e seguiam Louis pelo corredor.
 - Isso não é da sua conta garota, você não me conhece. - Elisabeth se levantou com uma expressão triste e foi em direção da saída.
 - Não se abandona alguém frágil desse jeito. Ele está com a gente agora, não queremos você por perto. - Elisabeth não respondeu.
  No dia seguinte, ela não foi ao colégio, Louis, movido por uma vontade estranha de tentar resolver algo já perdido, tentou se informar aonde ela morava, aonde trabalhava, se estava com Craig ou não, com a ajuda de Robert (já que Lile provavelmente recusaria ajudar) descobriram que ela está morando com uma tia, que está desempregada e que Craig havia morrido de overdose. Louis sentiu medo de que acontecesse a mesma coisa com ela, Elisabeth parecia péssima, já entregava as pontas.

 Foi com Robert até a casa aonde supostamente morava, chamaram várias vezes seu nome, ninguém respondia.
 - Acha que erramos o endereço? - Perguntou Robert.
 - Acho que ela não quer falar comigo.
 Quando iam embora, ouviram o barulho de uma janela se abrindo, era Elisabeth.
 - O que quer? Acertar as contas? - Ela parecia lutar contra si mesmo.
 - Não, quero que acerte contas consigo mesmo... você está sumindo Elisabeth.
 Ela parecia segurar o que lá fosse que tinha dentro dos olhos vazios.
 - Isso não é da sua conta.
 - É só isso que você sabe dizer? Elisabeth, eu morri e voltei, você pode fazer o mesmo, não quero que sejamos amigos novamente, não quero forçar nada, mas quando eu te conheci você era alguém relevante, agora se tornou pó.
 - O único pó que existe é o que vou cheirar pra ter que aturar vocês, sumam da minha casa.

 Elisabeth não foi no dia seguinte, nem no seguinte, nem no seguinte, Louis saía com os irmãos, mas parte de sua mente estava em Elisabeth, ainda tem um dia seguinte de não comparecimento, mas dessa vez algo substituía a presença dela, um bilhete.

 "Prezados alunos, sinto informar-lhes do falecimento de nossa aluna do segundo ano, Elisabeth, nossos pêsames aos amigos, familiares e colegas de sala, foi uma menina criativa e brilhante. - A Direção."

 Os alunos passavam por ali, liam, absorviam a mensagem, mas ninguém parecia se importar, Louis leu, fingiu não se importar, mas foi pro banheiro chorar. Elisabeth cedeu, e não tinha ninguém pra trazê-la de volta.

"Mas se você estiver por aí, andando pelo mundo sem parar, ouça essa canção e saiba que o meu coração ainda é o seu lugar."

Um corpo nadando.


Pessoas cinzas, paredes cinzas, tempo cinza
Estou cansado disso
Procuro uma nova perspectiva
Mais que uma parede de ilusões pra ver
Mais do que poeira pra ser.
Eu acredito, sim eu acredito, meu orgulho se foi
Mas ainda acredito
Morte, feridas, não consigo lidar, luto em vão
Meu peito está cheio e meu coração batendo no chão.
Eu sei, ainda sei, não há vida com uma alma morta
Meu cérebro está pegando fogo mesmo com meu coração quase parando
Desenho pessoas morrendo em rios
Escrevo cartas de despedida, jogo-as pro vento
Mas não quero isso novamente
A súplica de um corpo nadando em sofrimento.
Não é tão fácil andar por aí prestes a explodir
Quando caio bêbado no chão, preciso de uma mão
Não você me dizendo: "Eu te avisei então"
Tento ver uma nova perspectiva
Ontem tentei ir a outro planeta
Agora penso que posso viajar aqui
Posso trazer meu universo em paralelas e retas
Então afaste-se, não me coloque pra baixo
Já estou lá, não vês? Mas olhando para o céu
Não quero dizer adeus.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Fire (11)

 Como quem acorda de um sonho muito bom, Louis se virou bem devagar, tateando o outro lado da cama, encostou em cabelos, eram cabelos vermelhos, sorriu. Se levantou e foi preparar um café fresco, se vestiu, imaginando que Robert chegaria em breve.
 Lile acordou, sorriu para Louis e foi ao seu encontro, trocaram alguns beijos e Lile foi tomar uma ducha. Louis foi até o banheiro e a via relaxar na banheira, pensou um pouco e falou:
 - Acho que vou indo pra casa.
 - Por que? Não quer esperar o Robert?
 - Não é isso, é que fiquei de ajudar meu pai com algumas coisas.
 Lile riu.
 - Tá bom, te vejo amanhã então.
 Louis se aproximou da banheira e lhe deu um beijo de despedida.
 Foi para casa, pensava no que tinha acontecido, estava até um pouco feliz, tinha apenas receio de que isso se tornasse algo sério demais, ou que Robert não gostasse daquilo, afinal era irmã dele.

 Enquanto tentava desenhar algo novo em vão, ouviu a porta bater, seu pai, já em casa, gritou da porta.
 - Louis! Robert está aqui.
 - Peça pra ele subir, pai!
 Robert veio, abraçou Louis, deixou sua mochila na cama e puseram-se a conversar.
 - De onde está vindo? - Perguntou Louis.
 - Da biblioteca, na verdade, acabei de ver a Marie.
 - Está tudo bem entre vocês?
 - Acho que sim.
 - Acha?
 Robert sorriu encabulado.
 - As vezes eu tenho vontade de mata-la... As vezes eu acho que nunca vai dar certo, mas o que eu sinto por ela é bem forte.
 - Deve ser bem confusa essa dualidade.
 - É bastante.
 Louis levantou-se da cama, colocou um cd do Yeah Yeah Yeahs pra tocar e ficou olhando Robert encostado na parede.
 - Não gosto quando ela te diminui, ou quando ela tira sua esperança,
 Robert olhou para Louis com uma expressão um pouco vazia, de aceitação.
 - É o jeito dela, eu já disse que não vou mudar, não gosto de ficar tentando fazê-la mudar, estaria sendo hipócrita.
 - Mas você aceita ela, e ela não faz isso.
 Robert começou a bater o pé, acompanhando a música, fechou os olhos e deixou a musica guiar seu corpo, tocava bateria nas coxas, levantou-se, puxou Louis pra dançar, riam.
 - Esse som é muito bom - Disse Robert.
 - É sim. Me ajuda a animar.
 Robert subitamente se lembrou que tinha algo para entregar a Louis.
 - Eu trouxe sua blusa.
 - Que blusa?
 - Aquela que você me emprestou no café bar, da primeira vez que nos vimos.
 - Nossa, não lembrava dela.
 - Desculpe, acabei jogando no meu armário e lá ficou todo esse tempo.
 - Agora lembrei o quão engraçado você fica vestindo ela. Ela já é meio pequena pra mim, imagina pra você.
 Robert foi até sua mochila, pegou a blusa e tentou coloca-la.
 - Eu lavei ela e ela encolheu um pouco mais, desculpe. - Robert tentava enfiar a cabeça no espaço diminuto da blusa enquanto dançava, Louis pôs-se a rir, foi ajudá-lo a colocar a blusa. Tentava empurrar a blusa pra baixo, sem se importar de amassar a cara de Robert. Não paravam de rir, Robert tropeçou e caiu sentado na cama, Louis ficou em sua frente, desistiu de puxar a blusa, mas não tirou as mãos do rosto de Robert por fora da blusa, guiado por uma vontade que não soube explicar, tateava o rosto de Robert, ele ria.
 - O que está fazendo? Medindo o tamanho do meu nariz?
 - Sim, - Disse Louis rindo.
 Louis pôde sentir os lábios de Robert por fora da blusa, se atreveu a toca-los, sem pensar muito, se atreveu a beija-los por cima da blusa. Robert a princípio não teve reação, depois de alguns segundos, apenas se afastou, tirou a blusa da cara e olhou para Louis sorrindo,
 - Me... me desculpe... eu... droga, foi mal. - Louis começou a se arrepender.
 Robert continuou a acompanhar o ritmo da música que tocava, jogou a blusa no chão e fitou Louis.
 - Não estou mais com a blusa na cara.
 Louis estava mais vermelho que o cabelo do próprio Robert. Deu um passo para trás involuntariamente, pensou, deu dois passos para frente e o beijou. Robert correspondeu. Robert ficou sentado na cama enquanto Louis se mantinha em pé na sua frente, como a diferença de altura era um pouco notável, foi uma posição confortável, o beijo se intensificava a cada suspiro, Robert se levantou enquanto envolvia a cintura de Louis, ele por sua vez, deixava ser guiado, até o momento em que abriu os olhos o interrompeu o beijo. Robert o olhou confuso.
 - Não gostou?
 - Sim mas... e a Marie?
 - Não acho que esteja fazendo algo de errado, beijar um amigo. - Louis ainda estava um pouco ofegante.
 - Eu transei com a Lile hoje.
 Robert arregalou os olhos e mostrou surpresa.
 - Sério? Lile é uma menina muito meiga, sabia que vocês iam se dar bem.
 - Espera... não está bravo? - Perguntou confuso.
 - Não, até prefiro que seja alguém que eu confio. - Robert sorriu e beijou Louis mais uma vez. Louis correspondeu, se sentiu confuso mais uma vez e parou.
 - Espera.
 - O que foi?
 - Tá tudo muito confuso.
 - Você quer a Lile?
 - Sim.
 - Você se arrependeu de me beijar?
 - Não,
 - Então me beija. - Robert sentou na cama novamente e manteve o olhar fixo em Louis. Louis dessa vez o abraçou, abraçou forte.
 - Vocês me deixam maluco, sinceramente. - Robert riu, puxou Louis e os dois se deitaram na cama, Louis repousou o rosto no peito de Robert.
 - Gostamos de você, Louis.
 - Eu amo vocês. - Louis se levantou e deu um selinho em Robert.
 - Vamos comer algo? - Robert aceitou, foram até a cozinha, prepararam uma janta, até o pai de Louis comeu, depois disso, Robert se despediu com um abraço longo em Louis, seu pai espiava pela janela.

 No dia seguinte, no colégio, Louis estava um pouco receoso se Robert havia contado alguma coisa para Lile, Lile o olhou normalmente quando entrou na sala, foi sentar-se ao lado de sua cadeira. Ela passou a mão no rosto de Louis, passavam-se mil coisas em sua cabeça agora.
 - Tá tudo bem? - Perguntou Louis.
 - Sim, claro, por que não estaria?
 - Não sei...
 - Quer me contar alguma coisa?
 Louis ficou pensativo, suspirou.
 - Eu... eu... beijei... beijei o Robert. Fui eu, não foi ele. Ele só correspondeu, me desculpe.
 Lile ficou sem expressão por alguns segundos, segundos que mataram Louis pouco a pouco, depois. pôs-se a rir.
 - Do que está rindo Lile?
 - Te acho uma graça quando fica com vergonha.
 - Não está brava?
 - Não.
 - Nem com ciúmes?
 - Talvez.
 Louis ia dizer mais alguma coisa, mas foi interrompido pela professora de biologia.
 - Alunos, gostaria de apresentar pra vocês, uma nova aluna, quer dizer, nem tão nova. - Todos prestaram atenção, alguns como abutres mirando uma nova presa, outros como atiradores, mirando uma nova vítima.
 Elisabeth entrou.
 Louis arregalou os olhos, seu coração foi até a garganta, Lile percebeu imediatamente.
 - Seja bem-vinda novamente, Elisabeth - Disse a professora.
 Elisabeth encontrou Louis na sala, engoliu seco e foi sentar-se do outro lado. Louis voltou ao tempo, não gostou nem um pouco desse retorno. Uma mistura de nostalgia triste abraçou Louis, não sabia o que sentir ao vê-la, pessoas que significam o mundo pra você, se tornam meras vielas sujas do nada, aquela calçada esburacada que você evita. O que deveria fazer? Dar-lhe um buquê de flores pela volta? Ou devolver-lhe as flechas que tirou das costas?
 Lile a olhava com cara de poucos amigos. Louis fechou os olhos evitou contato visual, Elisabeth parecia vazia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Fire (10)

 Sobre aqueles momentos de júbilo e glória onde você se perde em felicidade, tudo é bonito, tudo vale a pena. As flores tem mais cheiro. mais aroma, o mundo é mais saturado, os dias cinzas são até mais bonitos, a chuva parece aspirina e o cheiro de mata úmida reascende momentos nostálgicos.
 O que de errado pode haver nisso? Para uma mente frágil e apegada á melancolia, como a de Louis, tudo. Nada muito bonito é confiável, nada muito afetuoso pode se transformar em algo bom. Louis olhava para Lile e se apaixonava, olhava para Robert e o admirava, vice-versa. Se via perdido sem os dois, e isso começou a incomoda-lo. Não queria se tornar tão dependente, não imaginava sua vida sem eles agora, apesar de saber que eles são o motivo pela qual manteve a vontade de continuar tentando, isso o assustava. Pensava que estava vivo apenas por eles, e não por si próprio, começou a sentir raiva de si mesmo, deles, de todos. O mar calmo se tornou revolto. 
 Havia marcado um café da manhã com os irmãos. Pediu para seu pai que dissesse que estava gripado e dormindo, assim ficaria no quarto, deu a desculpa que queria ficar sozinho.
 - Isso inclui você também, pai, desculpe. - E fechou a porta. 
 Ouviu lá de cima os dois falando com seu pai. Espiou pela janela, escondido entre a cortina, os dois saindo de sua casa com caras preocupadas. Lile tinha uma cesta de piquenique, sentiu uma ponta de arrependimento, mas ainda estava confuso. 
 Não foi para o colégio, disse que se sentia cansado e que pegaria a matéria depois. Quando desceu pro almoço, viu um bilhete de seu pai.
 "Louis, limpe a casa, fiz compras, tem várias coisas gostosas para cozinhar. Lile te deixou laranjas, disse que você precisa de vitamina C."
 Se sentiu mais triste, não queria se sentir triste por ninguém.

 No dia seguinte, Louis fingiu que ia para a aula, mas se escondeu na parte de trás da casa até seu pai sair, assim que saiu, voltou para seu quarto, não queria lidar com tudo. Várias mensagens de Lile e Robert estavam sem ser lidas no celular. Louis estava perdido, não sabia confrontar tanta beleza, tanta alegria, tanto amor. 
 Quando a noite chegou, ouviu do seu quarto Robert, que falava com seu pai. Louis atreveu-se a sair do quarto para ouvir melhor a conversa.
 - Não, ele não foi hoje, estamos preocupados, posso falar com ele?
 - Me desculpe, acho que ele está dormindo, disse que queria ficar sozinho.
 Espiava escondido atrás da parede, viu Robert esboçar um sorriso de aceitação, quase foi ao seu encontro, mas suas pernas não se mexiam. 
 - Ele foi ao médico? Se as laranjas e os remédios não fizerem efeito, podemos ir com ele se o senhor não puder. Eu posso subir no quarto dele só pra fazer companhia se o senhor não se importar.
 Louis não sabia o que fazer, imaginava que seu pai não tinha muitos argumentos restantes, correu para seu quarto e trancou a porta. Fez o mínimo de barulho possível, ouvia os passos se aproximando. A maçaneta se mexeu, Louis não respirava, via apenas a sombra dos pés de Robert.
 - Louis? - Robert falou baixo, com medo de acorda-lo e torcendo para que ele já estivesse desperto. 
 Houve um momento de silêncio, Robert tentou de novo.
 - Louis? Sou eu, Robert... você não tem ido a aula nem respondido nossas mensagens, estamos preocupados. 
 A vontade de Louis era abrir a porta e convida-lo a entrar, conversar sobre tudo e abraça-lo, mas tinha medo, um medo que nunca sentira, medo de se decepcionar mais uma vez. Elisabeth já o fizera muito bem.
 - Louis, eu te vi espiando... o que está acontecendo? Você sabe que pode contar tudo pra mim.
 Louis ficou paralisado, quase não conseguiu respirar. Robert não tentou mais, desceu as escadas e partiu. Pela janela, viu Robert deixando a casa, fumando um cigarro.
 Louis já não sabia o que faria, estava com medo, com raiva, triste, inseguro, queria gritar, chorar, se odiava naquele momento. A tristeza nunca deixa você aceitar a felicidade se você não souber lidar com ela.

 No dia seguinte, seu pai o obrigou a ir para aula, o levou de carro para ter certeza que não se esconderia novamente. Louis não abriu a boca o caminho todo. Quando entrou na sala, viu Lile no mesmo lugar de sempre. Sua cadeira á frente de Lile estava lá, como se Lile a tivesse guardado, ela abriu um sorriso de orelha a orelha quando o viu. Louis engoliu a vontade de correr até ela. Pensou em sentar em outro lugar mas isso seria maldade. Sabia que não tinha motivos concretos para não sentar-se ao seu lado, além de sua mente conturbada. 
 - Louis! Que saudade... você melhorou? Por que não respondeu minhas mensagens? Ontem Robert foi te ver e disse que você ainda estava doente. 
 Louis suspirou, se aproveitou do pedido de atenção da professora.
 - Lile, você tem hora pra conversar sobre assuntos banais, é o intervalo.
 Lile sorriu para Louis e fez uma careta quando ela virou de costas. 
 - No intervalo conversamos. - Lile disse sussurrando. 
 Quando o sinal tocou, Lile praticamente puxou Louis até o saguão, onde sempre ficam, Robert já estava lá, olhou com surpresa a presença de Louis. 
 - O que você tinha? Você parece um pouco abatido. - Lile passava a mão no rosto de Louis.
 Robert parecia um pouco mais intrigado, o olhava com desconfiança. - Melhorou, Louis? 
 Louis suspirou novamente, olhou o chão e fez que sim com a cabeça.
 - Estou bem, só um pouco...
 - Confuso. - Robert completou.
 Lile o olhou intrigada. 
 - O que está havendo?
 - Eu não estava doente, desculpem.
 - O que foi então? - Lile ainda parecia preocupada.
 - Eu não sei explicar. 
 Robert ficou de pé, olhava diretamente para Louis.
 - Está com medo?
 Louis fez que sim.
 - Está com raiva?
 De novo.
 - Por isso nos ignorou?
 Dessa vez não se moveu.
 - Quer que nos afastemos? 
 Louis queria chorar, estava se contendo para não sair correndo dali. Sabia que não queria deixa-los, seu peito pedia por eles, sua mente os rejeitava. Ouviu seu peito.
 - Não. - Disse cabisbaixo. 
 Robert o confortou, o puxou para perto dele o abraçou, puxou Lile também, que apesar de ser a mais esperta dali, foi pega de surpresa, quase chorava. 
 - Não tenha medo Louis. Eu entendo o que está acontecendo com você, eu sei o que você já tentou fazer e o que você tentou largar, e sendo muito sincero, eu fico feliz de você não ter conseguido, e se nós somos um motivo para que você não tente de novo, mantenha isso em mente, me sinto privilegiado. Eu sei como é se sentir desconectado do mundo, eu me sinto desconectado de Marie, mas eu sinto que se eu tentar, tudo vai valer a pena no final. Nunca vamos te maltratar, talvez te decepcionaremos porque não somos perfeitos, mas no final vamos estar juntos, não? Você é muito importante pra mim e pra Lile. Só preciso que você deixe a gente gostar de você e que você pare de fugir, me deixa triste. - Robert disse tudo isso sorrindo e riu no final. Louis dava pequenos soluços, não queria se debulhar em lagrimas na frente de todos. Lile se aproximou e o abraçou, disse baixinho em seu ouvido:
 - Não deixe ninguém fazer você pensar que está sozinho, nem você mesmo, sua vida está apenas começando, você vai encontrar mais pessoas que vão fazer você perceber que valeu a pena... Nós amamos você, idiota.
 Ao final da aula, combinaram de ir ao café bar, fazia um tempo que não iam só os três. Lile e Louis esperavam por Robert na saída, o viram conversar com Marie, que mais uma vez parecia brava, provavelmente Robert estava desmarcando algo ou negando uma saída com ela para sair com sua irmã e Louis. 
 - Está tudo bem? - Perguntou Louis.
 Robert suspirou. - Vai ficar. 

 No café bar, pediram seus cappuccinos, fumaram seus cigarros, deram risada, ficaram em silêncio, apenas se contemplando em olhares perdidos, quando um assunto surgia, o devoravam e iam longe. Louis se sentia completo novamente, ainda sentia medo, ainda estava inseguro, mas lutava contra si mesmo naquela hora, acreditava que poderia valer a pena continuar tentando.
 Após essa reunião, Robert foi trabalhar, Lile convidou Louis para almoçar em sua casa, ele aceitou. Entre conversas e risadas, Lile teve a ideia de se aproveitar da presença de Louis para arrumar a casa, era mais um período de arrumação, da troca de posições de móveis e decoração. Vasculhando algumas fotos, Louis achou várias dos irmãos ainda crianças e pré-adolescentes, viu algumas mais recentes também, ainda na Romênia, Robert tinha cabelo preto, sua cor natural, parecia bem diferente, Lile pintava de laranja naquela época.
 - Você sente saudades? - Louis perguntou.
 - Desse cabelo não. - Riu - Mas do resto sim, da mamãe, até do papai, da nossa casa, de tudo. Um dia vamos levar você pra lá.
 - Vou adorar.
 Ficaram em silêncio por algum momento, Lile, com toda sua delicadeza e aleatoriedade, perguntou:
 - Você é virgem né? 
 - Você deve imaginar que sim.
 - Imagino.
 - Você é? - Louis perguntou com um pouco de vergonha.
 - Não. Isso me torna uma pessoa menos confiável pra você?
 - Não. 
 - Ótimo.
 Silêncio. 
 - Louis?
 - Oi.
 - Me beija?
 Dessa vez não era um sonho.
 Louis dessa vez não disse seu famoso "oi?" ou "que?", respondeu beijando-a. Até se sentiu atrveido. Uma onda de calor irradiava dos dois, talvez por ser a primeira vez de Louis, ou porque Louis e Lile faziam uma combinação maravilhosa. Lile o conduzia na dança até Louis se encontrar, sua mão seguia a dela, e quando se sentia confiante, ia até onde queria ir, Lile lhe dava consentimento. Estavam no quarto dos irmãos, Louis contemplava cada centímetro de pele pálida de Lile, fazendo jus a primeira vez de um garoto, contemplando a obra prima que é o corpo feminino, recém aflorado. Estavam literalmente se amando, não foi nada constrangedor, nem vergonhoso, Lile foi uma boa guia, Louis já estava confortável, já dominava a si mesmo e as vezes, dominava-a. Gostaram, repetiram, tomaram banho juntos, comeram juntos, ele de cueca e ela só de calcinha, estavam livres. Ele estava livre.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Imensidão.

Parece que eu já te vi por aí, em algum lugar, em algum corredor
Parece que eu já senti, você se aproximar de mim, muito antes disso ser amor
Você é isso pra mim, imensidão sem fim, sem metas ou contradições
Um desejo a se tornar verdade.

Um tanto descomprometido, seus atos me agradam, me aproximam
Vejo meu mundo ao teu, meu futuro no seu, meus sonhos desfilam
Eu quero ter, lembranças pra viver, momentos pra contar ao vento
Mas só se você estiver comigo nesse meio tempo.

Brasa que acendeu, fogueira que cresceu e nos queimou
Nascente que acreditou, virou rio e nos afogou
Um sonho vivo.
Você é isso pra mim, imensidão sem fim, sem metas ou contradições
Um desejo a se tornar verdade.

Você quer ser meu bem querer?
Responda-me pedindo as estrelas, ou meu coração
Faço seu desejo valer, se seus olhos brilham ao entardecer
Sem tardar te dou uma constelação.

Mas se você quiser sair, juro acreditar em ti
Se não valer a pena, se não for eficiente
Mas tenho a sensação em mim, vai ser eterno sim
Vai ser eterno até o fim...
O fim não é suficiente.

Maybe.


You’ll find me in places that you’re not used to go
In the middle of a storm, lost in the woods
Not in the market, I like to dirty my boots
If you knock my door, maybe you can’t find me
Maybe I’m away, thinking about you
Wondering why you don’t love me like the way I do
If you try talk to me in a gray day
I may not listen to you
I'm listening to that song
You don't like this song
You don't like the blues
If you try to call me in a sunday
I won't pick up the phone
I turned off the TV too
Wondering why you don't love me like the way I do
If you find me looking to the wall
Don't wake me up
I'm happy, because you love me like the way I do.

sábado, 12 de setembro de 2015

Fire (9)

 Estavam á caminho da casa de Louis, o pai, Louis, e a metade da metade da laranja. O silêncio reinava, Robert se sentia desconfortável apesar de ter aceitado participar do jantar, Louis se sentia envergonhado de tudo, seu pai sentia o dobro de vergonha e isso lhe comia as palavras.
 - Obrigado por ter ajudado meu filho.
 Foi tudo o que conseguiu dizer.
 Adentrando a cozinha, Lile pilotava o fogão, não se importava com todo esse papo de "mulher tem que pilotar o fogão", ela pilotava, manobrava, fazia você comer poeira, e gostava, o cheiro da comida abriu um sorriso na cara pálida de Robert, que a abraçou. Seu radar de irmã logo notou que algo estava fora dos eixos, Louis fitava o chão e Robert sorria, mas quando se tem uma conexão muito forte com a pessoa, você enxerga além do sorriso na casca.
 - Tudo parece muito apetitoso, menina. Sua mãe lhe ensinou a cozinhar desse jeito? - Perguntou o pai.
 - Sim. - Disse com orgulho - Depois eu pratiquei bastante.
 - Eu era a cobaia. - Robert disse rindo.
 O pai riu também, trocaram olhares pela primeira vez, talvez ali tivesse ocorrido o pedido formal de desculpas.
 Lile preparou um prato típico romeno, Carnatzlach, acompanhado de uma macarronada, caso o prato não agradasse todo mundo. Sentaram-se, sem cerimônias comeram, repetiram.
 Louis e Robert lavaram a louça enquanto o pai secava. Lile foi posta em um altar depois da janta. O pai agradeceu a presença de todos na casa e foi dormir, não puxou muito assunto com os irmãos, mas já era um grande começo. Quando ficaram só eles na sala principal, contaram o que aconteceu horas atrás. Lile se enfureceu, disse que ia ter uma conversa séria com o diretor, se nada fosse feito haveriam denúncias, isso preocupava Louis. Robert ainda se sentia no direito de resolver tudo no punho.
 Louis quis mostrar seu quarto para a metade da laranja. Estava um tanto desarrumado, nada fora do comum, alguns retratos na parede de sua mãe, outros de Lile e Robert no ultimo acampamento, muitos papéis na cama, rabiscos que poderiam virar algo concreto mais além. Deitaram os três na cama, ficaram conversando, trancaram as janelas, puseram uma toalha debaixo da porta e acenderam um baseado. Chapados, esperançosos de um futuro melhor e entretidos com eles mesmos, Louis tinha medo que isso acabasse, tinha medo de se tornar muito dependente de toda essa relação, mas fechou os olhos, se deixava entregar.
 - Queridos, preciso ir dormir, vamos pra casa Lile? - Robert realmente parecia cansado.
 - Por que não dormem aqui? Tenho um colchão debaixo da cama, posso dormir nele, e vocês dividem minha cama.
 Os irmãos se entreolharam.
 - É uma boa oferta, Rob. Está tarde para voltarmos, assim podemos fumar mais e conversar até mais tarde. De manhã cedo vamos pra casa antes de ir pro colégio.
 Concordou. Lile sorriu de orelha á orelha. se enfiaram em uma coberta, fumaram mais até pegar no sono, enxeram o quarto de perfume masculino e foram se deitar. Louis puxou o colchão e se deitou, Lile e Robert se deitaram na cama de Louis.

 Num desses sonhos mirabolantes, onde você tem asas e atinge os lugares mais inexplorados, onde você cai no infinito, onde nada faz algum sentido, onde é muito melhor não acordar, onde diversas mãos te proporcionam prazeres, onde várias bocas te beijam e depois cospem na sua cara. Louis estava longe, bem longe, foi trazido pra perto por uma mão que buscava prazer, a de Lile. Com muito cuidado ela saiu da companhia de Robert e se deitou no colchão com Louis, ainda sonolento, ele demorou pra entender o que estava prestes a acontecer. Quando notou, estavam se beijando, se acariciando, se provando como nunca. Louis teve súbito de juízo.
 - Robert está aqui, vamos acordá-lo.
 - Ele dorme como uma pedra. - Lile sussurrava em seu ouvido. Louis sentia todos os tipos de arrepios, sua cueca estava apertada. Lile podia sentir a respiração ofegante de Louis, seu corpo quente e um tanto trêmulo.
 - Tá tudo bem?
 - Sim.
 - Louis, você é virgem?
 - Que?
 - Louis, você é virgem?
 Silêncio.
 Ela não insistiu, obteve sua resposta. O beijou apaixonadamente, ele retribuiu, Lile se entregou apaixonadamente, Louis aceitou. Transavam ali, no seu quarto, debaixo das fuças do irmão, que provavelmente não estava dormindo.
 Entre gemidos e sussurros, a noite foi passando, a vergonha também, entre salivas e chupões, a noite foi uma criança crescida, entre penetrações e ejaculações, Louis se sentia novo.

 No dia seguinte, Louis tentava não olhar para Robert, Lile agia naturalmente, tomaram café da manhã mais cedo, conversaram normalmente e se despediram. Robert não parecia zangado. Quando chegaram á escola, Louis avistou o mesmo sujeito que os atacou no beco, agora não tinha dúvidas, o que mais lhe intrigava era que estava conversando com o diretor. Será que ele foi descoberto? Os três se entreolharam mas não comentaram nada.
 No intervalo, Lile interrompeu o passo do diretor.
 - Gostaria de conversar com o senhor, diretor.
 - Olá Lile, bom dia! Infelizmente não posso, tenho alguns compromissos. Me procure na minha sala amanhã, que tal?
 - Me sinto ameaçada por um aluno.
 Isso foi o suficiente para ele prestar atenção nela. Ele a abordou falando manso.
 - Como?
 - Me sinto ameaçada por um aluno, meu irmão e meu amigo já foram atacados. Ele é do terceiro ano do ensino médio. Gostaria que providências fossem tomadas, inclusive, era o menino na qual o senhor conversava agora pouco.
 O diretor parecia um pouco nervoso, respirou fundo.
 - Vou averiguar isso, ok? É uma acusação muito séria, você sabe disso, não?
 - Exatamente por ser séria que estou falando com o senhor.
 Ele sorriu sem graça, prometeu investigar o caso. Lile não sentiu confiança. Foi ao encontro dos dois.
 - Ele agiu como se estivesse tentando não ajudar. Qualquer outra pessoa iria tirar isso a limpo na hora. - Lile dizia enquanto se punha a pensar, Robert fechou a cara.
 - Maldito! Se ele também fechar os olhos pra tudo isso eu vou me virar.
 - Não! Nada de brigas, chega. - Louis disse olhando para os dois - Vamos pensar,,, Eu vou procurar a ficha do sujeito na direção, posso ir escondido, ninguém me imagina fazendo alguma coisa dessas... Lile, qual o nome completo do diretor?
 - Alfred Thompson.
 - Obrigado. - E saiu.
 A metade da laranja ficou pensativa e intrigada.
 Louis voltou com cara de poucos amigos.
 - Tyler Thompson.
 Lile olhou um tanto surpresa para Robert. Ele por sua vez manteve a mesma feição.
  -Você quer dizer que...
 - Vocês nunca notaram a semelhança do nariz gordo?
 Permaneceram em silêncio por algum tempo. Parecia um pouco mais complicado do que era.
 Robert, de súbito, saiu em passos largos até o portão, tomou impulso e foi correndo até lá, Louis e Lile o seguiram preocupados.
 - Rob! O que vai fazer? - Gritava Lile.
 Antes que o diretor pudesse fechar a porta de seu carro para sair, Robert o impediu.
 - Tyler Thompson!
 O diretor o olhava um tanto incrédulo.
 - O que quer dizer garoto?
 - O nome do sujeito é Tyler Thompson, ele e seus amigos nos atacaram duas vezes, uma vez dentro da sua escola. O que vai fazer? - Robert não piscava. o diretor parecia engolir qualquer palavra, Louis e Lile estavam olhando de trás, apreensivos.
 - Vocês tem provas?
 - Temos testemunhas, diretor, eu acredito que ele não goste da gente por sermos de fora. Ele nunca anda sozinho e eu temo pela minha irmã, não estou com ela o tempo todo. O que vai fazer? - Aquela pergunta parecia irritar o diretor, ele suspirou, batia os dedos da mão de leve no volante.
 - Tenho um conselho, apenas não se meta no caminho deles. Facilita pra mim e pra você. - Tentou fechar a porta de novo mas Robert a segurou.
 - Você está protegendo ele por ele ser seu filho, não é mesmo?
 Lile saiu da retaguarda e foi junto ao seu irmão.
 - Isso mesmo! Sabemos que ele tem o mesmo sobrenome que o senhor. Vai fechar os olhos quanto a isso?
 - Queridos... - O diretor saiu do carro, olhou para os dois, passou a mão em seus cabelos vermelhos e continuou - Vocês são apenas intercambistas bolsistas, apenas não se metam no caminho dos nossos alunos, já foi um grande presente vocês serem aceitos aqui, não é? Agora tentem ficar no lugar de vocês, ok? Vai facilitar muito minha vida. Tentem não causar algum tipo de alvoroço, ninguém vai levar vocês a sério. - Aquilo deixou Lile pasma, os olhos de Robert quase refletiam a cor de seu cabelo, fechou os punhos, antes que pudesse fazer algo, Louis segurou seu punho e o manteve abaixado.
 - Robert, controle-se. - Louis olhava para o diretor com repulsa.
 - Não vamos desistir, diretor.
 O diretor sorriu de canto, tirou a mão de Robert de sua porta com força,a fechou e deu partida. Os três voltaram para o colégio com uma sensação azeda e amarga.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Impraticável.

Minha poesia é impraticável
Você é inatingível
Enfeito de laços todas as desventuras
Uma coroa de flores em meio às cicatrizes
Nada realmente faz sentido
De nada vale escrever mil cartas
Mesmo guardando-a debaixo do travesseiro
Ou queimando-a em meio à lembranças...
Minha poesia é impraticável
Ela não tem fundamento
Mas eu continuo escrevendo
Pra você, pra eles, pra mim, pra todos
Seria tudo muito seco
Essa realidade sem palavras bonitas
Sem amores impossíveis
Você é impraticável
Um pouco fútil
Eu não sou notável
Um pouco inútil
Mas crio belas inutilidades, fugindo da verdade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Fire (8)

 A rotina voltava, Louis desejava que o acampamento tivesse durado pelo menos uma semana, começava a perceber que não se importava com ninguém mais na escola além dos irmãos. Passou momentos ótimos com eles, até mesmo o episódio da banheira foi válido, se sentia vivo, e isso o deixava apavorado.
 No intervalo tudo ocorria normal, os três se viram, conversavam, Lile tagarelava, Louis só ouvia e Robert trocava olhares ameaçadores com o grupo que os atacou da última vez, pelo visto nada foi feito com eles, nenhuma atitude foi tomada, e isso o frustrava muito. Robert não tolerava injustiça.
 Quando o sino tocou liberando a multidão, Lile e Louis esperavam por Robert na saída, em vão. Olharam para trás e o viram já do lado de fora, conversando com Marie, Lile fechou a cara e bufou, Louis suspirou e desejou que isso não fosse o começo de uma relação nada saudável para Robert, que parecia submisso á tudo isso. Os dois se entreolharam quando viram Robert e Marie se beijando. Os dois se aproximaram de Lile e Louis.
 - Olá - Disse Marie.
 Ninguém respondeu. Louis se sentiu na obrigação de quebrar o silêncio.
 - Oi.
 - Estamos indo tomar um café, querem ir conosco? - Robert convidou.
 - Não com ela - Disse Lile, que mordia o lábio inferior e olhava o chão. Louis sentia uma leve vontade de rir da resposta.
 - Não seja rude. - Robert sabia que esse momento iria chegar uma hora ou outra.
 - Sejamos francos... não gosto dela. - Lile agora olhava para o casal.
 - Não entendo por que você não gosta de mim. - Marie finalmente abriu a boca.
 O silêncio reinou, alguns segundos de constrangimento que pareceram horas.
 - Vamos Louis? - Robert convidou. Lile arregalou os olhos e fitou Louis. Ele se sentia num muro de fuzilamento.
 - Nós vamos. - Resposta final. Louis decretou a guerra no café bar.
 Pediram café, exceto por Marie, que pediu suco. Louis e Lile sentaram fora como de costume, para fumar seus cigarros. Marie reclamou.
 - Você sabe que eu não gosto de cigarro, o cheiro é nojento. Vamos sentar aqui dentro.
 - Faça um esforço, quer deixá-los lá fora?
 - Eles podem fazer um esforço, que tal?
 Lile conseguia ouvir os dois, se enfurecia mais a cada minuto. Louis começou achar que deu uma péssima resposta. No fim, Marie aceitou tomar seu suco no lado de fora.
 Depois de mais alguns segundos de silêncio, Marie tentou quebrar o gelo.
 - Seu nome é Louis, não é?
 - É sim.
 - Robert me disse muito sobre você.
 - Coisas boas, espero. - Marie sorriu.
 - Me conte... o que pretende fazer quando terminar o colégio?
 Louis suspirou, era o tipo de pergunta que sua tia faria.
 - Não sei ainda.
 - Na sua idade eu também não imaginava o que queria fazer.
 - Nossa, você é só um ano mais velha que ele. - Lile respondeu com cara de poucos amigos. Marie suspirou, deixou passar.
 - No que você vai se dedicar? - Perguntou Louis.
 - Arquitetura, é a profissão do meu pai, acho que levo jeito pra coisa. - Marie olhou para Robert de relance, continuou:
 - Já comentei com Robert que se ele quiser seguir esse caminho, meu pai pode ajudá-lo, acho que ele se encaixaria muito bem.
 - Ele está muito bem seguindo suas próprias vontades. - Lile respondeu, um tanto enfurecida.
 Marie mais uma vez deixou passar, suspirou.
 - No que você mais se identifica Louis?
 - Talvez arte... talvez eu seria um bom escritor, ou um bom artista plástico, só preciso treinar mais.
 - Ah claro... artistas. - Marie deu um sorriso mal dado e tomou seu suco. Louis se sentiu deslocado.
 - Marie... - Robert pensou em repreende-la, mas suspirou.
 - O que?
 - Pra mim já chega. - Lile se levantou e saiu fumando seu cigarro, Louis olhou para Robert e a seguiu. Enquanto se afastavam, era possível ouvir Robert e Marie discutindo.

 Quando a noite se aproximava e Louis fitava a parede de seu quarto procurando algo para ocupar sua mente, recebeu uma mensagem de texto de Robert. Planejava um jantar na casa dos irmãos. Louis teve uma ideia, já era hora de seus amigos conhecerem seu pai. Os convidou para jantar em sua casa. Robert aceitou, o chamou para esperá-lo na frente da livraria, assim iriam ao supermercado juntos, Lile estava ocupada em casa arrastando móveis e mudando a decoração, fazia isso quando se irritava muito, os encontrariam na casa de Louis mais tarde.
 Compraram o necessário, Louis já havia pedido para seu pai arrumar a mesa. No caminho de casa, conversavam um pouco.
 - Desculpe pela Marie, ela as vezes diz muita besteira.
 - Não se desculpe.
 Ficaram em silêncio por alguns minutos.
 - Você realmente gosta dela? - Louis perguntou. - Não estou te julgando.
 Robert sorriu.
 - Gosto, ela parece difícil de conviver mas estou trabalhando nisso, quando estamos sós ela me trata muito bem, só tem dificuldade de não impor sua opinião nos outros.
 - Não acho que ela seja a garota certa pra você.
 - Eu a amo.
 Antes que Louis pudesse responder, subitamente foi empurrado por um homem vestido todo de preto, usava um moletom com touca, o empurrão foi tão forte que ele foi tropeçando para o fundo de um beco até perder o equilíbrio e cair, Robert não teve tempo de segurá-lo, seguiu em sua direção mas olhando sempre para frente e nunca perdendo o contato com o agressor.
 - Quem você pensa que é? - Robert gritou.
 - Você está bem? - Robert se abaixou, segurava os ombros de Louis. Ele parecia assustado.
 Outros dois chegaram e tamparam a saída do beco.
 - Essa cidade não tem lugar pra vocês! - Um deles disse. Robert já entendia.
 - São vocês de novo, não são? Por que não mostram a cara? São covardes a esse ponto? Não se aproximem!
 - O que você vai fazer? Somos três, vocês são um e meio. - Os três riram. Louis se levantou.
 - Não tenho medo de vocês! - Louis encontrou do fundo do baú uma coragem jamais vivenciada.
 - Você vai apanhar tanto... até sua cara ficar da mesma cor do cabelo do seu amiguinho viado. Isso é pra você aprender a não ficar se metendo com esse tipo de gente!
 Aquilo tudo parecia irreal, Louis tinha muita raiva interna, mas já mais presenciara esse tipo de raiva em outra pessoa, a ponto de querer machucá-la sem motivo nenhum.
 - Eu tenho pena de vocês. - Louis parecia anestesiado com tudo isso, os três se aproximavam mais de Robert e Louis, Robert olhou em volta, chutou uma caixa e de madeira com força, que se desmontou, se armou de um pedaço de pau.
 - Não se aproximem! Vocês não me pegaram num bom dia. - Robert mantinha Louis atrás dele.
 - Vai defender seu namoradinho? Não vai conseguir, bixa.
 Quando estavam prestes a atacar, ouviram um barulho de carro se aproximando e entrando no beco, arrastando caixas e sacolas de lixo pelo caminho, os três sujeitos que tampavam o beco se escoraram nas extremidades da parede para não serem atropelados. Era o pai de Louis. Os três saíram do beco, não sem antes danificar a traseira do carro.
 Robert largou o pedaço de pau e foi em direção de Louis.
 - Você está bem? Se machucou?
 - Não...
 - Louis! - Era seu pai.
 - Bem na hora, pai.
 - Entre no carro, e você... *apontando para Robert* afaste-se do meu filho.
 Robert parecia um pouco confuso, mas não respondeu e nem questionou nada.
 - O que?! - Louis era puxado pelo seu pai.
 - Entre no carro.
 - Me solta! Ele me defendeu! Por que você não corre atrás de quem realmente está errado?
 - Não quero você mais metido com essa gente. Só trazem problemas.
 Louis conseguia ver a expressão de Robert, era uma mistura de vergonha e tristeza.
 - Retire o que disse! Pai!
 Entraram no carro, deram a ré, Robert ficou sozinho no beco, iluminado apenas pelo farol do carro que se afastava.
 - Que merda você tá fazendo pai?!
 - É isso que ele está te ensinando então?
 - Você está enlouquecendo! Volte lá e vamos buscar ele!
 - Vamos para casa.
 - Sim, com ele!
 - JÁ CHEGA! Não quero mais você metido com eles, olha no que ele te meteu, numa briga de rua! Não foi a educação que eu te dei!
 Louis parecia não acreditar no que estava acontecendo, um mar de intolerância o afogava, começou a chorar.
 - Você não entende nada! Ele é meu amigo, meu melhor amigo! A Lile também, eles são as pessoas que me mostraram pelo menos um pingo de consideração e de que vale a pena viver por algo! Coisa que você não fez! Eles estão sendo atacados por aí só por serem de fora, ele me defendeu! Você deveria recebê-lo de braços abertos... Esse é seu problema, você é medroso demais! Mas eu não quero ser mais assim, eu quero viver...
 Seu pai acabava de ouvir nessa conversa mais do que já tinha ouvido de Louis a semana inteira. Não tinha resposta, Louis se encolhia no banco da frente. Um buraco tinha sido aberto em seu peito, cada soluço que Louis dava era um tiro no ouvido. Sem pensar muito, mudou a rota e fez o retorno, Louis percebeu e o olhou desarmado.
 - Obrigado...
 Silêncio.
 Passaram pelo beco, mas Robert não estava mais lá, seguiram em direção á casa dele, chovia um pouco. O encontraram num ponto de ônibus, fitando o vazio, provavelmente usava a desculpa para si próprio que esperava a chuva passar. O carro encostou ao lado do ponto de ônibus. Louis desceu do carro e foi abraçá-lo.
 - Estava chorando? - Robert perguntou.
 - Não... desculpe. Meu pai não quis ofendê-lo.
 - Tudo bem, não é a primeira vez.
 - Vamos pra casa, temos um jantar.
 - Não estou no clima, Louis.
 - Por favor...
 Robert suspirou, disse num tom baixo o suficiente para que seu pai não escutasse.
 - Talvez ele tenha razão. Eles poderiam ter te machucado, eu não iria me perdoar. Talvez eu não seja uma boa companhia pra você.
 - Não! Por favor, esqueça isso... você e Lile são as melhores companhias que já tive. Eu amo vocês, não quero me afastar. Vocês não podem se afastar. - Louis falava enquanto segurava os ombros de Robert, nem percebeu que estava na chuva, seu cabelo já pingava.
 - Entre no carro garoto. - O pai de Louis disse em tom alto. - Não posso deixar o carro estacionado aqui.
 - Por favor. - Louis insistia.
 - Eu sei que não começamos bem... podemos tentar de novo... entre no carro. - Louis sorriu com a resposta de seu pai. Robert enfim cedeu.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sonhar

Dei meia volta e fui colando os cacos, tropecei nos meus próprios ladrilhos, cobri os buracos, mas faltava muita coisa, comecei um quebra-cabeça com novas peças velhas, me perdi e desisti. Retornei ao zero, ao ponto de encontro, olhei para frente e estava tudo intacto, mas meus pés sangravam.

Imundo por dentro e por fora.

Não há culpados quando a sirene toca, não há refúgio em lares em baixo d'água. A onda vem e me arrasta, me guia sem direção e eu não consigo parar. Dou risada e me entrego a demência, posso rir até chorar. Essa onda ártica e cortante, que tira seu fôlego e não te deixa gritar... balbucio alguma coisa sem sentido... essa onda se chama sonhar.

Porque quando estás em alto mar, e seu barquinho já não consegue enxergar o que deixou, não vale em nada nadar dias e dias pra tentar dar adeus, colher o que foi esquecido, deixar claro que não foi sua intenção... vou morrer... então eu sonho... quando acordo estou em pé, olhando meu reflexo, "já tive dias piores", digo eu. Não quero mais voltar. Meus pés ainda sangram.

Não estou mais imundo.
Banho de mar.