Nos dias seguintes após o ocorrido, a polícia ainda procurava Tyler, não havia pista alguma sobre seu paradeiro. Lile foi mandada ás pressas para um hospital, felizmente, não se feriu gravemente, exames foram realizados e não acharam nada, psicologicamente era outra história.
Lile permaneceu em sua casa, sem sair nem para tomar um ar fresco, disse que sentia medo, que tinha pesadelos frequentes de que alguém a perseguia. O que aconteceu afetou todos, Lile parecia abatida e triste, Robert não esboçava um sorriso em nenhum momento, permanecia do lado da irmã o tempo todo, ele conseguiu alguns dias de folga do trabalho para ficar em casa. Louis por sua vez ia para o colégio, anotava tudo que os professores aplicavam para que Lile pudesse acompanhar de casa, assim, nas provas finais ela não ficaria tão perdida. Quando as aulas acabavam, ia correndo visitar os irmãos, quase sempre era a mesma cena, Robert cozinhando algo para Lile, Lile no sofá, coberta e encolhida, assistia televisão.
Numa dessas idas, Louis tentava conversar mais com eles. Sentou-se ao lado de Lile,
- Me mata lentamente te ver assim.
Lile levantou o olhar e suspirou.
- Me sinto suja... humilhada... não sei se quero mais morar aqui, sabe Louis. - Lile falava enquanto Louis recebia essas palavras como adagas jogadas contra seu peito.
- Você... quer se mudar? - Louis disse quase sussurrando, temendo que se falasse muito alto, a frase tomasse força e se concretizasse de alguma maneira.
- Eu estou com medo, ficando paranoica, me sinto desprotegida. - Robert deixa um prato cair no chão, Lile e Louis o olham assustados.
- Desculpa. - Robert recolheu os cacos e saiu.
Lile e Louis se entreolharam - Ele se sente culpado, e isso me deixa ainda mais triste, não é culpa dele - Disse Lile, cabisbaixa, Louis a abraçou e beijou sua testa.
- Não se mude, eu não vou conseguir ficar aqui sem vocês... me levem com vocês então.
- As coisas não funcionam assim.
Lile se levantou e foi ao banheiro, demorou um tempo, ficou se olhando no reflexo da água na banheira, seu novo chanel improvisado não agradava muito, sentia muita falta de seus longos cabelos, apesar do cabelo curto não a deixar menos bonita. Talvez para tentar provar a si mesma que não iria se deixar abater, realçou o vermelho, o fogo era baixo, mas ainda queimava.
Robert estava desolado, não dormia, se afundava em pensamentos e culpas, tinha falhado como irmão, tentava de alguma maneira preencher a cratera que foi aberta em seu peito. A polícia já tinha praticamente desistido de continuar a procura de Tyler, Robert foi atrás de pistas, visitou possíveis conhecidos de Tyler, descobriu telefones, rondou redes sociais, qualquer mínima pista que o levasse ao agressor de sua irmã. Na mesma noite em que Louis foi em sua casa, Robert se olhava no espelho, passou a mãos nos cabelos vermelhos, naquele momento já bem desbotado. Não via mais sentido naquilo, se não era capaz de cumprir uma promessa de proteger sua irmã, não faria sentido continuar a manter uma promessa estética, procurou nas coisas da irmã alguma tinta, achou um castanho escuro, não pensou duas vezes, o fogo havia sido apagado.
Na manhã seguinte, Lile e Louis o olhavam preocupados.
- Achei que tínhamos uma promessa - Disse Lile.
- Não sou bom com promessas.
- Mas continua lindo - Retrucou ela.
- As meninas do colégio vão se abrir como flores quando você passar - Louis brincou.
Robert se limitou a sorrir.
- Não me esperem no final da aula, tenho alguns assuntos para resolver.
- Nunca se esqueça. - Lile disse.
- De que?
- Que amamos você.
Enquanto caminhava por um parque e se corroía em pensamentos, Robert viu do outro lado do parque um sujeito que parecia ser familiar, resolveu segui-lo por alguns instantes, quanto mais caminhava, mas Robert ficava ansioso, porque o caminho que ele queria que o rapaz percorresse estava sendo feito, mais um pouco, Robert teria sua pista. Bingo.
O rapaz entrou na casa onde dias atrás, Louis e Robert haviam ido com a polícia para buscar o paradeiro de Tyler e seu comparsa. Uma onda de ódio subiu para a cabeça de Robert, estava a um passo de invadir a casa e matar o sujeito, mas isso não o levaria para o principal alvo, Tyler. Decidiu esperar mais um pouco, sentou num bar que havia na esquina da casa do rapaz, depois de quase uma hora de espera, o mesmo sujeito saiu, dessa vez, vindo na direção de Robert, que usou um jornal para se camuflar, agora que tinha o cabelo escuro, passava mais despercebido pela multidão, assim, voltou a segui-lo.
Depois de quase 20 minutos caminhando, o rapaz se aproximava de um lugar mais ermo, um complexo de quitinetes e barracos improvisados. Quando mal podia esperar, o rapaz se viu preso contra a parede, Robert o empurrava com o braço, fazia força contra seu pescoço e usava de sua vantagem em altura para empurra-lo para cima contra a parede, o rapaz quase balançava as pernas no ar e já parecia um tomate de tão vermelho.
- ... Não ten... tenho nada. (Tosse) Pra você ro... roubar, por fa... favor. (Tosse) - Robert não tinha expressão nenhuma, apenas fitava o jovem que estava sufocando contra a parede, mil coisas vinham em sua mente, se quisesse, podia matá-lo bem ali.
- Talvez você não morra hoje, talvez você só saia bem machucado, mas só talvez.
- Quem é... quem é você? (Tosse) Não cons... consigo respirar.
- Você não me conhece... mas conhece minha irmã. - Nesse mesmo momento, o rapaz arregalou os olhos, se sacudia mais e mais, como se clamasse por algo.
- Lembrou dela? Lógico que sim... uma menina como ela não se esquece, não é mesmo? - Robert levantou o menino com os dois braços e o jogou no chão, ele por sua vez tossia muito, tentou ensaiar uma fuga mas tropeçou, Robert pisou em suas costas, como se matasse uma barata.
- Não terminei com você ainda. - Robert segurou os braços do sujeito por trás, apoiou seus joelhos nas costas dele, fazendo com que o mesmo se contorcesse de dor. - Não foi assim que vocês ficaram em cima da minha irmã? - Robert tirou do bolso um canivete, que usava para acampar, era a primeira vez que ameaçava alguém com ele.
- Vou te dar as suas opções, vejamos... opção um: você me diz onde está seu amiguinho, e talvez eu te bata só um pouco, ou opção dois: você fica de bico fechado, mas aí vai ficar de bico fechado pra sempre, vou arrancar todos seus dentes, até conseguir fazer um colar novo com eles, vou perfurar você com esse canivete, cavar um buraco no seu estomago com isso até eu conseguir ver o chão... cara... - Dizia ele rindo - ... eu tô muito puto.
- Por favor cara... a gente só queria dar um susto nela....
- CALABOCA! - Robert levanta e acerta um chute no rosto do rapaz. - Um susto? Vocês estupraram minha irmã, acho que vou ficar com a opção dois mesmo...
- Não... Por fav... por favor - Dizia o jovem, que segurava o nariz sangrando. Eu te digo onde ele está.
...
- Você não sabe pra onde vou, você não me conhece, se eu suspeitar que você contou pra alguém, te caço até te matar. - Robert o empurrou contra uma pilha de caixas e deu as costas.
Robert saiu de lá outra pessoa, nunca havia ameaçado alguém daquela maneira, seu ódio interior havia sido liberado, bufava, andava a passos largos. Descobriu onde Tyler estava, se escondia numa cidade próxima, cerca de 50 minutos dali, sem pensar, foi direto para a rodoviária e pegou o ônibus, no caminho, ia pensando em todas as possibilidades, o que iria fazer com Tyler? Daria uma surra nele? Só isso? O entregaria para a polícia? Só isso?
Assim que desceu do ônibus, Robert tomou seu caminho, já havia estado ali antes, não estava completamente perdido. Seguindo as informações do comparsa, Tyler vivia num sótão improvisado na casa de seu tio, provavelmente a família estava acobertando a situação. Não demorou muito para encontrar a casa, seu coração batia na garganta, a adrenalina escorria por sua pele e evaporava no ar, conseguiu notar alguma movimentação no lugar, mas de gente velha, possivelmente os tios. Como da ultima vez, esperou sentado fingido que tomava algo, mas não perdia um segundo de vista da casa, após longa hora de espera, um carro saiu, pela janela, viu as mesmas pessoas da casa no carro, um casal de meia idade.
Estava em frente a porta da casa, respirava fundo, tremia de raiva, tristeza e frustração. Nem tentou bater na porta, não iria abrir, pulou uma janela que estava destrancada e entrou. Se viu no meio da sala, com muita cautela, procurava algum sótão, qualquer vestígio de esconderijo, até que, após arrastar um dos sofás, achou uma entrada. Finalmente, ele estava ali, ou pelo menos perto, imaginou que Tyler, naquela altura, não estava tão cauteloso assim, afinal, quase uma semana se passou e nenhuma pista foi encontrada. Bateu na porta do sótão, esperando que alguém viesse responder.
~toc toc~
Segundos depois...
- Tio?
Robert quis vomitar, era Tyler, estava a uma porta do agressor de sua irmã, não sabia o que fazer, se ligava para a polícia, ou destruía aquela porta e matava Tyler ali mesmo, enquanto pensava, viu a porta se levantar, Robert, que parecia ter engolido o próprio coração, foi para o outro lado, a porta ficou semi aberta por algum tempo, quando ia sendo fechada de novo, Robert a puxou para cima toda força que tinha, ouviu que alguém havia caído lá em baixo, sem perder tempo, com um pulo entrou no sótão.
Tyler estava no chão, encurralado, se afastava enquanto tentava se levantar, sem pestanejar, correu em direção a janela, Robert foi mais rápido, o agarrou pela blusa e o jogou contra a parede.
- Agora somos só eu e você. - Disse Robert.
Tyler por sua vez, não se intimidou, partiu pra cima de Robert, o empurrou contra a parede, mas a fúria de um irmão machucado buscando vingança é inimaginável, ninguém pararia Robert naquele momento, quando percebeu, estava no lado oposto da situação novamente, imobilizava Tyler, enquanto descarregava alguns socos guardados a muito tempo contra o mesmo. Segurando Tyler pela gola da blusa, o carregou até a janela, jogando a cabeça de Tyler contra o vidro, quebrando-a por completo, depois o jogou no canto do quarto, Tyler estava tonto, ensanguentado, desorientado, pôs se a rir.
- Era isso que você queria? Vingar sua irmã me dando uma surra? Conseguiu grandão... mas ela continua lá, careca e estuprada - Tyler ria como se estivesse no paraíso, Robert não esboçava nenhuma reação.
- Você tem razão Tyler, você humilhou minha irmã, ela continua lá, com medo, e eu vim até aqui, te cacei por todos os lugares... eu sempre clamei por justiça, sempre fui defensor da justiça... você merecia ser preso, mas está aqui, e provavelmente sua família vai salvar sua pele como sempre faz.
- Terminou seu teatrinho? Quer me bater mais? Vá em frente, mas não espere ouvir desculpas... foderia ela de novo se pudesse - Tyler sorria desafiadoramente.
- Não se anime, se a justiça do homem não vem até você...
- A Deus virá - Tyler completou rindo.
...
- A minha virá - Nesse momento, Robert tirou da cintura um facão que havia pego da cozinha para se defender/atacar. Tyler o olhava incrédulo.
- É um blefe... você não tem coragem de matar ninguém.
- Você mexeu com a pessoa errada, você me fez descumprir a promessa que fiz pros nossos pais de que iria protegê-la... você estuprou minha irmã, acha mesmo que estou blefando?
Tyler agora parecia nervoso, estava encurralado como um rato, depois de encarar Robert por alguns segundos, correu para a janela para tentar pular, Robert correu em sua direção e cravou a faca nas costas de Tyler, logo em seguida, tampou a boca dele e o jogou pra dentro novamente.
- Eu disse que não era um blefe... - Dizia Robert enquanto tampava a boca de Tyler, que se contorcia de dor - Você não tem salvação - Retirou a faca, podia sentir a dor dele, levantou e olhava o agressor sangrar, havia terror nos olhos de Tyler.
- Por favor cara... você já teve o que quis, não me deixa sangrar assim, chama uma ambulância, não me mata...
- O que você disse? - Perguntou Robert.
- Não me mata. - Respondeu Tyler, que já chorava a esse ponto.
- Me pergunto se minha irmã fez o mesmo pedido pra você, enquanto você a estuprava, batia nela, e cortava seu cabelo.
- Cara, me desculpa, eu tô arrependido,,, - Tyler olhou em volta de si mesmo, uma poça de sangue havia se formado, entrou em desespero - Cara! Por favor, me ajuda...
xx
O fim da tarde dava o ar da graça, Lile e Louis jantavam na casa dos irmãos, viram Robert chegar de longe, Louis foi em sua direção, Lile se sentia aliviada.
- Por onde você andou? - Perguntou Louis.
Robert passou direto por ele, entrou em casa, viu sua irmã, beijou sua testa e entrou no banheiro. Lá, Robert chorou tudo que não havia chorado nesses últimos dias. Louis ia no banheiro mas Lile o impediu.
- Deixa ele, Louis, deixa ele chorar, eu vou conversar com ele depois, vamos terminar de jantar.
Uma hora depois, Robert apareceu de banho tomado, estava pálido, com o olhar de quem havia presenciado algo terrível, ou de quem fez algo terrível.
- Robert - Lile se aproximou, o abraçou. - Por onde esteve? Senti sua falta.
- Fui tomar um ar, acabei me empolgando e perdi a hora.
- Como se sente? - Perguntou ela, ainda abraçada a ele.
- Vamos superar tudo isso minha irmã, como sempre fizemos.
Louis olhava de longe, Robert o chamou com uma mão enquanto abraçava Lile, Louis se aproximou e Robert o abraçou também - Tudo vai ficar bem... eu prometo.
Passava da meia noite, quando Lile foi dormir, Robert convidou Louis para fumar um na escada do prédio, Precisava estar chapado para contar esse tipo de coisa para Louis, e queria que Louis estivesse chapado quando recebesse a informação, temia que Louis ficasse com medo e se afastasse.
- Preciso te contar uma coisa - Disse Robert.
- O que?
- Você confia em mim?
- Claro... plenamente.
- Louis - Robert suspirou - Eu achei o Tyler.
Louis se espantou, fitou Robert por alguns segundos.
- Como? Aonde? Já contou pra polícia? Por que só me conta isso agora? Contou pra Lile? Esse cara tem que pagar por tudo que fez.
- Calma... ele não pode ser preso mais.
- Do que você tá falando? A família dele não pode acobertar tudo que ele faz, temos provas contra ele Robert.
- Louis, eu... eu não faço esse tipo de coisa, eu só não achei outra maneira, e meu coração apertava de raiva quando fiquei frente a frente com ele - Robert segurou a mão de Louis.
- O que você fez?
- Eu matei ele, Louis, eu matei o Tyler.
Louis ficou sem resposta, sabia que Robert não brincaria com algo assim, apenas olhava para Robert.
- Eu matei ele a facadas e me livrei do corpo.
- Você... matou ele? Robert, isso é sério? - Louis parecia engolir as palavras.
- Preciso que você me prometa que não vai contar isso pra ninguém, nem pra Lile, esse vai ser nosso segredo, porque eu confio em você como ninguém.
- Mas vão achar você Rob, vão prender você, só o fato dele aparecer morto, as primeiras pessoas suspeitas serão eu e você.
- Eu preciso que você me prometa.
- Robert! Meu Deus do céu... e agora? Por que fez isso? Acha que isso é justiça?
- Eu eliminei qualquer tipo de pista, usei luvas, coloquei ele ao meu lado em um dos carros da família, o levei até o lugar mais distante da cidadezinha onde estava escondido, e o furei até meu pulso doer... coloquei ele de volta no carro, quando o acharem, vão pensar que foi um assalto, roubei algumas coisas da casa e do carro, depois as queimei junto com as roupas que usei e deixei o carro cerca de 1 km dali... nada tem ligação comigo, talvez sejamos chamados pra depor, só isso... Louis, eu me sinto horrível, eu matei uma pessoa...
Louis estava sem reação nenhuma, via Robert segurar o choro, se fosse uma piada seria de muito mal gosto, mas sabia que não era, apenas o abraçou. Não conseguia pensar em nada, resolveu no fim das contas que deveria apoiar seu amigo.
- Vamos... esquecer tudo isso, ok? - Disse Louis - Nada aconteceu, a Lile está bem, vamos todos ir bem nas provas finais, você vai entrar pra uma faculdade, vamos ser muito felizes juntos ainda...
- Você promete? Não vai contar nada pra Lile... pra ninguém. - Perguntou Robert.
Louis suspirou.
- Prometo...
Pacto de sangue.
Transparece em Névoa.
domingo, 10 de janeiro de 2016
domingo, 6 de dezembro de 2015
Fire (14)
Assim que voltaram do acampamento, puseram-se a estudar com mais frequência, a semana finais de provas se aproximava, era um momento de tensão para Lile e Robert, que dependiam de boas notas para continuar estudando ali. Louis os ajudava no que podia, Marie, que também era inteligente, colaborava, não dava pra dizer que ela se integrou ao grupo, mas tê-la por perto não era mais um sacrifício.
Em meio a aula de geografia, ouve-se batidas na porta da sala de aula, um senhor calvo, um tanto acima do peso e sorridente adentrou a sala.
- Perdão pela intromissão, gostaria de me apresentar. Meu nome é Malcon, serei o novo diretor de vocês. Quero que contem comigo para tudo, estarei sempre disponível na minha sala.
Essa informação chocou Lile e Louis, os dois se entreolharam e pareciam não entender o que estava acontecendo, Lile perguntou:
- O que houve com o senhor Alfred?
- Bom, é um caso complicado, não vou falar disso agora, vão acabar sabendo em breve. Bom, podem retornar aos estudos. - Malcon saiu da sala, Lile e Louis se puseram a conversar enquanto todos da sala especulavam.
- O que isso significa? - Perguntou Louis.
- Não sei, mas devo confessar que me sinto melhor sabendo que aquele verme não é mais nosso diretor, resta saber se o filho dele continua aqui.
Quando se reuniram no intervalo, Robert apareceu animado.
- Vocês não vão acreditar.
- Alfred não é mais nosso diretor. - Respondeu Lile.
- Não só isso, aquele imbecil do filho dele também não é mais aluno dessa escola.
Lile sorriu de orelha a orelha. - O que será que aconteceu?
Robert puxou seu celular do bolso, depois de algumas pesquisas por jornais locais, descobriu algo intrigante.
- Parece que mais casos de agressão envolvendo seu filho vieram a tona, e parece que em todos os casos o pai acobertava as ações do filho. De acordo com essa fonte a ultima agressão ocorreu com o aluno do primeiro ano... da nossa escola. - Lile arregalou os olhos.
- Aquele menino que veio com o braço enfaixado... que canalha, o menino deve ter metade do tamanho dele.
- Pois é, pelo que parece não foi só esse caso, outros alunos o denunciaram também, acharam melhor suspender o senhor Alfred da diretoria.
Lile gargalhou de satisfação. - Finalmente aquela corja teve o que mereceu.
- Nem acredito... nos livramos deles. - Robert suspirou.
- Hey, vejam. - Louis apontou para o portão, era Tyler, acompanhado de um homem bem vestido. Lile se apressou em segui-los, Robert e Louis a seguiam de perto. Antes que entrassem no carro, Lile teve o prazer de falar:
- Não acredito que deixaram esse tipo de gente entrar nessa escola. - Disse sorrindo. A cara de satisfação nela era algo quase poético, se sentia completa, foi fuzilada por um olhar de ódio vindo de Tyler. Lhe disse na hora mais oportuna possível o que o próprio Tyler havia lhes dito um tempo atrás.
Voltando para casa, Lile comemorava.
- Essa cena deveria ter sido pintada e exposta num museu.
- Não podemos baixar guarda, tenho a leve impressão que ele vai querer nos incomodar ainda. - Disse Louis.
- Pro bem dele, espero que não. - Robert respondeu.
- Queridos, preciso passar na farmácia comprar coisas de garota, por que não me esperam no parque? - Disse Lile.
- Claro. - Responderam os dois.
Sentaram-se em baixo de uma árvore, Robert estendeu um pano e deitou a cabeça nas pernas de Louis, acendeu um cigarro. Louis mexia no cabelo de Robert enquanto o gigante divagava em pensamentos.
- O que está pensando agora? - Perguntou Louis.
Robert demorou a responder. - Sinto falta de casa, da mamãe... me pergunto se ela está bem.
- Seu pai cuida bem dela?
- Cuida, mas ele é muito duro, as vezes é rude e grosso, nossa mãe é muito frágil, me preocupo por ela.
- Você sempre se preocupa por todo mundo... queria ter tido um irmão que nem você. - Disse Louis, Robert sorriu.
- Agora você tem... desde pequeno meus pais me faziam cuidar de Lile, se ela voltasse com algum arranhão, mesmo que não tenha sido por minha culpa, eu ficava de castigo, as vezes apanhava.
- Isso não é legal.
- Não parece ser, mas isso fez com que meu laço de proteção com Lile aumentasse bastante... sabe Louis, você disse que tem medo de se tornar dependente de algum sentimento, dependente de nós, eu sou dependente de vocês, não sei o que faria sem você ou a Lile. - Louis sorriu e o abraçou.
- Não precisa imaginar o que faria sem nós, isso não vai acontecer.
Ficaram um tempo em silêncio, Robert terminava o cigarro, parecia que o cigarro trazia nostalgia e não câncer.
- Um dia vou te levar pra Romênia, vou te mostrar meus lugares favoritos... tem um parque aonde eu ia pra fugir de tudo, levava meu mp3 e me escondia no meio do mato, era um parque em sua maior parte aberto, com lindos lagos e com pouco concreto em volta. Eu gostava de ficar na parte fechada, onde ninguém pudesse me ver, assim eu chorava, destruía coisas, cantava, tudo o que eu precisava fazer pra me aliviar, fazia lá.
- Vou adorar conhecer sua cidade.
Lile os interrompeu.
- O que estão tramando sem mim?
- Apenas lembrando de como Bucharest faz falta. - Lile esboçou um sorriso triste.
- Faz mesmo... mas agora estamos felizes, mais felizes do que lá, não é mesmo?
- Claro! - Robert levantou, abraçou Lile e Louis. - O lugar é o de menos quando as pessoas que você ama estão ao seu lado.
No dia seguinte, Lile voltava da aula, Louis havia ido para casa e Robert para a livraria, tomava seu caminho habitual, tinha por vezes, a sensação que alguém a seguia, olhava para trás mas nada via. Quando virava a esquina da rua de sua casa, trombou com Tyler, que a esperava ali. Subitamente, Tyler a imobilizou, tampou sua boca e puxou seu cabelo, a levou até um carro onde outro rapaz o esperava, Lile nada pode fazer, Tyler a colocou dentro do porta-malas, o carro era barulhento e ninguém ouvia sua voz abafada pelo pano que cobria sua boca. O carro seguiu por horas até um lugar ermo, Tyler roubou seu celular, então Lile estava incomunicável. Lile estava apavorada, sabia que alguma coisa iria acontecer, que provavelmente poderia até morrer, pensou em Louis, pensou em Robert, começou a chorar, mas seu instinto de marrenta falava mais alto, chutava a lataria do carro como podia, na esperança de que o porta-malas abrisse.
Robert voltou para casa e encontrou a porta ainda fechada, tinha a cópia da chave. Entrou e procurou por Lile, não a encontrou, imaginou que estaria com Louis, pouco tempo depois, Louis apareceu.
- Oi, Rob. Tá tudo bem por aí?
- Sim, a Lile está com você?
- Não, na verdade tentei falar com ela mas ela não me responde, iria chamar vocês pra jantar lá em casa.
Robert pôs-se a pensar, não gostava muito da situação.
- Estranho, ela nunca sai sem deixar recado, e quando não está em casa está com você. Devo me preocupar?
- Tentou ligar pra ela?
- Sim, dá caixa postal direto.
Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, a aflição estava estampada ali em suas caras.
- Vamos dar uma volta pelo bairro, talvez ela tenho ido ao mercado ou coisa parecida. - Disse Louis.
- Pode ser, vamos nos separar, quem a encontrar liga pro outro.
E foram.
O carro parou, o coração de Lile também, estava pronta pra fazer o que fosse preciso quando abrissem o porta-malas. Sentiu o clic e fechou os olhos. Antes que pudesse fazer alguma coisa, Tyler a puxou pelos cabelos e a jogou no chão, Lile se debatia como podia, Tyler apoiou seus joelhos nas costas de Lile, ela sentia mais raiva que dor. Olhou em volta, não sabia onde estava, pelo tempo que ficou no carro imaginava que estava bem longe de casa, parecia um terreno baldio de difícil acesso.
- Está com medo? - Perguntou Tyler. - Eu e você temos algumas coisas pendentes pra acertar... - Ele tirou um canivete do bolso, Lile suava frio, começou a chorar.
- Oh... agora você não é tão valentona não é? - Dizia isso enquanto passava a ponta do canivete pelo pescoço de Lile. - Já estou cansado dessa sua arrogância, quem você pensa que é? Você e seu irmão, juntos com aquele pivete... são uma aberração.
Lile sentiu que Tyler estava cortando seus cabelos, começou a gritar como pode. Via suas longas madeixas ao seu lado, no chão.
- Grite, vai ser em vão. Vou te tratar como toda vagabunda que nem você merece ser tratada.
Robert e Louis foram para uma delegacia, relataram que Lile havia desaparecido e não havia sequer pistas de onde poderia estar. Os dois estavam preocupadíssimos, tinham um péssimo pressentimento quanto a isso. Robert tentava se acalmar, Louis via que Robert se esforçava para não surtar e fez o mesmo, precisava manter as ideias no lugar numa situação dessas.
- O que?! Como assim 24 horas? Ela pode estar correndo perigo AGORA! Não vou ficar aqui esperar dar 24 horas pra vocês começarem a fazer algo. - Robert havia perdido o ultimo pingo de sanidade.
- Meu jovem, pelo que você me falou, a sua irmã está sumida a poucas horas, nada me garante que ela esteja em perigo. Para declarar uma pessoa desaparecida, são necessárias essas 24 horas. - Disse o delegado.
Robert puxou a gravata do delegado com força e falou quase encostando seu nariz no dele. - Tem um cara que costuma nos perseguir, eu tenho quase certeza que foi ele, o senhor precisa nos ajudar! - Louis tentou acalmar Robert.
- Solta ele, Robert, delegado, desculpe, estamos muito aflitos, não sabemos o que fazer.
- Antes de tudo, você vai soltar minha gravata e eu não vou te prender por desacato. - Robert respirou fundo e se afastou. - ... Por favor. - Robert continha a umidade nos olhos com bravura. Louis o confortava.
- Vou ver o que posso fazer, ok? Me passem os dados da menina.
Tyler tirou o pano que cobria a boca de Lile.
- EU VOU MATAR VOCÊ, SEU VERME! - Lile se debatia, gritava.
- Quem vai matar você sou eu, piranha.
O coração de Lile gelou.
- Só assim pra você ter uma menina ao seu lado, na força... quem é que vai querer ficar com você? Um sujeito tão burro, ignorante e covarde. - Lile cuspiu no rosto de Tyler, ele por sua vez suspirou fundo e limpou o rosto. Lile estava amarrada nos pulsos, que pendiam em suas costas, e nos tornozelos. Tyler acertou um chute no estômago de Lile, um espasmo abafado de dor vibrou em seu corpo.
- Calada... foi uma péssima ideia você ter vindo para cá, deveria ter ficado no seu país, roçando uma horta, sua caipira, aqui não tem espaço pra pessoas como você.
- Quem você pensa que é pra dizer onde eu devo ou não ir? Onde eu devo ou não ficar? NINGUÉM.
O mundo é meu, eu posso ir pra onde eu bem quiser, e não vai ser um zero à esquerda como você que vai me dizer o contrário. Estou farta desse tipo de gente que desmerece uma mulher ou uma pessoa que vem de fora... você não tem nada no cérebro e isso me dá pena.
Tyler bufou, se aproximou violentamente de Lile, pressionou seu rosto contra o chão de terra batida. Falava bem perto de seu ouvido. - Agora já chega, minha paciência esgotou.
Louis e Robert estavam sentados à espera de algum movimento policial.
- Louis.
- O que?
- Se acontecer alguma coisa com a Lile...
- Não vai acontecer nada.
- ... Se acontecer alguma coisa com ela... eu vou matar aquele sujeito, com as minhas próprias mãos.
- Isso não vai ser preciso. - Louis apoiou sua mão na de Robert.
- Se algo acontecer com ela eu nunca vou me perdoar, Louis.
- Mas não é culpa sua...
- É meu dever protegê-la... ela é tudo pra mim. - Robert já não continha mais as lágrimas, Louis estava desesperado, o abraçou, tentava pensar em alguma coisa mas se sentia um completo inútil e também se culpava.
Viaturas policias começaram a vasculhar a área em busca de pistas, Louis e Robert os acompanhavam, pelas arredondezas nada encontraram. Deram informações também sobre Tyler, o possível agressor. Louis imaginava que Tyler não estaria no próprio carro, mas sim no de um comparsa, era sempre o mesmo, deu os detalhes de como o garoto era e onde morava. Foram até a casa dele, conseguiram com os pais informações sobre o carro, pela placa, o rastrearam. O possível suspeito foi fotografado a última vez por radares em uma área um tanto afastada dali, no mínimo bem estranha. Seguiram até lá.
Por mais força que fizesse, Lile não conseguia sair dali, sentia nojo, pensava em Robert e Louis, chorava e não tinha mais voz para gritar. Tyler esfregava seu corpo pesado sobre Lile, lambia sua orelha, seu pescoço, a despia pouco a pouco, Lile tentou mordê-lo na esperança de arrancar algum pedaço, em vão. Ele cortou as roupas íntimas de Lile com o canivete, tinha um sorriso nojento na cara, quase babava. Lile se sentia suja, queria vomitar.
Lile sentiu um espasmo de dor, nunca imaginou que isso fosse acontecer com ela, estava ali, sendo usada, com os cabelos cortados, nua, humilhada, simplesmente pelo fato de não ser dali, ou de ser mulher. A cada fisgada seu ódio crescia, podia ver o sorriso pervertido de Tyler sobre ela. Tyler foi interrompido pelo comparsa.
- Tyler! Ouvi sirenes, acho que estão atrás de nós.
- Meu irmão vai matar você. - Disse Lile, bem baixo, com todas as forças que lhe restavam. Tyler entrou em pânico.
- Preciso me livrar dessa garota.
- Mata ela! - Disse o comparsa.
As sirenes se aproximavam cada vez mais, Tyler não sabia o que fazer.
- Não dá tempo, NÃO DÁ TEMPO... não vai dar pra eliminar todas as pistas... maldição!
- Bota ela no porta-malas de novo.
- Vai ser pior... - Tyler apoiou os joelhos sobre as costas de Lile novamente. - Se você contar que fui eu, vou caçar você até a morte.... estamos claros?
Tyler e o comparsa entraram no carro e partiram. Lile ficou ali, deitada, nua, sangrando, cortaram seus cabelos, mas não levaram seu orgulho.
Poucos minutos depois, duas viaturas apareceram no lugar, Robert, mal esperou o carro estacionar e pulou, foi correndo em direção a Lile, que parecia estar desmaiada.
- LILE! Minha irmã... - Ele chorava, estava tremendo, Louis olhava de longe, não tinha coragem de ver. - Quem fez isso com você? Foi aquele verme não foi? Fala comigo meu amor... me desculpe, eu sou um péssimo irmão, eu deveria estar te protegendo.
Lile, abriu os olhos e pareceu ver uma miragem, sua visão embaçada via Robert, ela suspirou aliviada e sorriu como pode. - Não seja bobo... você sempre aparece pra me salvar... - Lile disse. Robert chorou muito, Louis apareceu para confortá-los. Louis nunca em sua vida havia ficado tão triste, uma faca foi enfiada em seu peito quando viu a menina que mais amava naquele estado... Parecia um pesadelo.
Em meio a aula de geografia, ouve-se batidas na porta da sala de aula, um senhor calvo, um tanto acima do peso e sorridente adentrou a sala.
- Perdão pela intromissão, gostaria de me apresentar. Meu nome é Malcon, serei o novo diretor de vocês. Quero que contem comigo para tudo, estarei sempre disponível na minha sala.
Essa informação chocou Lile e Louis, os dois se entreolharam e pareciam não entender o que estava acontecendo, Lile perguntou:
- O que houve com o senhor Alfred?
- Bom, é um caso complicado, não vou falar disso agora, vão acabar sabendo em breve. Bom, podem retornar aos estudos. - Malcon saiu da sala, Lile e Louis se puseram a conversar enquanto todos da sala especulavam.
- O que isso significa? - Perguntou Louis.
- Não sei, mas devo confessar que me sinto melhor sabendo que aquele verme não é mais nosso diretor, resta saber se o filho dele continua aqui.
Quando se reuniram no intervalo, Robert apareceu animado.
- Vocês não vão acreditar.
- Alfred não é mais nosso diretor. - Respondeu Lile.
- Não só isso, aquele imbecil do filho dele também não é mais aluno dessa escola.
Lile sorriu de orelha a orelha. - O que será que aconteceu?
Robert puxou seu celular do bolso, depois de algumas pesquisas por jornais locais, descobriu algo intrigante.
- Parece que mais casos de agressão envolvendo seu filho vieram a tona, e parece que em todos os casos o pai acobertava as ações do filho. De acordo com essa fonte a ultima agressão ocorreu com o aluno do primeiro ano... da nossa escola. - Lile arregalou os olhos.
- Aquele menino que veio com o braço enfaixado... que canalha, o menino deve ter metade do tamanho dele.
- Pois é, pelo que parece não foi só esse caso, outros alunos o denunciaram também, acharam melhor suspender o senhor Alfred da diretoria.
Lile gargalhou de satisfação. - Finalmente aquela corja teve o que mereceu.
- Nem acredito... nos livramos deles. - Robert suspirou.
- Hey, vejam. - Louis apontou para o portão, era Tyler, acompanhado de um homem bem vestido. Lile se apressou em segui-los, Robert e Louis a seguiam de perto. Antes que entrassem no carro, Lile teve o prazer de falar:
- Não acredito que deixaram esse tipo de gente entrar nessa escola. - Disse sorrindo. A cara de satisfação nela era algo quase poético, se sentia completa, foi fuzilada por um olhar de ódio vindo de Tyler. Lhe disse na hora mais oportuna possível o que o próprio Tyler havia lhes dito um tempo atrás.
Voltando para casa, Lile comemorava.
- Essa cena deveria ter sido pintada e exposta num museu.
- Não podemos baixar guarda, tenho a leve impressão que ele vai querer nos incomodar ainda. - Disse Louis.
- Pro bem dele, espero que não. - Robert respondeu.
- Queridos, preciso passar na farmácia comprar coisas de garota, por que não me esperam no parque? - Disse Lile.
- Claro. - Responderam os dois.
Sentaram-se em baixo de uma árvore, Robert estendeu um pano e deitou a cabeça nas pernas de Louis, acendeu um cigarro. Louis mexia no cabelo de Robert enquanto o gigante divagava em pensamentos.
- O que está pensando agora? - Perguntou Louis.
Robert demorou a responder. - Sinto falta de casa, da mamãe... me pergunto se ela está bem.
- Seu pai cuida bem dela?
- Cuida, mas ele é muito duro, as vezes é rude e grosso, nossa mãe é muito frágil, me preocupo por ela.
- Você sempre se preocupa por todo mundo... queria ter tido um irmão que nem você. - Disse Louis, Robert sorriu.
- Agora você tem... desde pequeno meus pais me faziam cuidar de Lile, se ela voltasse com algum arranhão, mesmo que não tenha sido por minha culpa, eu ficava de castigo, as vezes apanhava.
- Isso não é legal.
- Não parece ser, mas isso fez com que meu laço de proteção com Lile aumentasse bastante... sabe Louis, você disse que tem medo de se tornar dependente de algum sentimento, dependente de nós, eu sou dependente de vocês, não sei o que faria sem você ou a Lile. - Louis sorriu e o abraçou.
- Não precisa imaginar o que faria sem nós, isso não vai acontecer.
Ficaram um tempo em silêncio, Robert terminava o cigarro, parecia que o cigarro trazia nostalgia e não câncer.
- Um dia vou te levar pra Romênia, vou te mostrar meus lugares favoritos... tem um parque aonde eu ia pra fugir de tudo, levava meu mp3 e me escondia no meio do mato, era um parque em sua maior parte aberto, com lindos lagos e com pouco concreto em volta. Eu gostava de ficar na parte fechada, onde ninguém pudesse me ver, assim eu chorava, destruía coisas, cantava, tudo o que eu precisava fazer pra me aliviar, fazia lá.
- Vou adorar conhecer sua cidade.
Lile os interrompeu.
- O que estão tramando sem mim?
- Apenas lembrando de como Bucharest faz falta. - Lile esboçou um sorriso triste.
- Faz mesmo... mas agora estamos felizes, mais felizes do que lá, não é mesmo?
- Claro! - Robert levantou, abraçou Lile e Louis. - O lugar é o de menos quando as pessoas que você ama estão ao seu lado.
No dia seguinte, Lile voltava da aula, Louis havia ido para casa e Robert para a livraria, tomava seu caminho habitual, tinha por vezes, a sensação que alguém a seguia, olhava para trás mas nada via. Quando virava a esquina da rua de sua casa, trombou com Tyler, que a esperava ali. Subitamente, Tyler a imobilizou, tampou sua boca e puxou seu cabelo, a levou até um carro onde outro rapaz o esperava, Lile nada pode fazer, Tyler a colocou dentro do porta-malas, o carro era barulhento e ninguém ouvia sua voz abafada pelo pano que cobria sua boca. O carro seguiu por horas até um lugar ermo, Tyler roubou seu celular, então Lile estava incomunicável. Lile estava apavorada, sabia que alguma coisa iria acontecer, que provavelmente poderia até morrer, pensou em Louis, pensou em Robert, começou a chorar, mas seu instinto de marrenta falava mais alto, chutava a lataria do carro como podia, na esperança de que o porta-malas abrisse.
Robert voltou para casa e encontrou a porta ainda fechada, tinha a cópia da chave. Entrou e procurou por Lile, não a encontrou, imaginou que estaria com Louis, pouco tempo depois, Louis apareceu.
- Oi, Rob. Tá tudo bem por aí?
- Sim, a Lile está com você?
- Não, na verdade tentei falar com ela mas ela não me responde, iria chamar vocês pra jantar lá em casa.
Robert pôs-se a pensar, não gostava muito da situação.
- Estranho, ela nunca sai sem deixar recado, e quando não está em casa está com você. Devo me preocupar?
- Tentou ligar pra ela?
- Sim, dá caixa postal direto.
Os dois ficaram se olhando por alguns segundos, a aflição estava estampada ali em suas caras.
- Vamos dar uma volta pelo bairro, talvez ela tenho ido ao mercado ou coisa parecida. - Disse Louis.
- Pode ser, vamos nos separar, quem a encontrar liga pro outro.
E foram.
O carro parou, o coração de Lile também, estava pronta pra fazer o que fosse preciso quando abrissem o porta-malas. Sentiu o clic e fechou os olhos. Antes que pudesse fazer alguma coisa, Tyler a puxou pelos cabelos e a jogou no chão, Lile se debatia como podia, Tyler apoiou seus joelhos nas costas de Lile, ela sentia mais raiva que dor. Olhou em volta, não sabia onde estava, pelo tempo que ficou no carro imaginava que estava bem longe de casa, parecia um terreno baldio de difícil acesso.
- Está com medo? - Perguntou Tyler. - Eu e você temos algumas coisas pendentes pra acertar... - Ele tirou um canivete do bolso, Lile suava frio, começou a chorar.
- Oh... agora você não é tão valentona não é? - Dizia isso enquanto passava a ponta do canivete pelo pescoço de Lile. - Já estou cansado dessa sua arrogância, quem você pensa que é? Você e seu irmão, juntos com aquele pivete... são uma aberração.
Lile sentiu que Tyler estava cortando seus cabelos, começou a gritar como pode. Via suas longas madeixas ao seu lado, no chão.
- Grite, vai ser em vão. Vou te tratar como toda vagabunda que nem você merece ser tratada.
Robert e Louis foram para uma delegacia, relataram que Lile havia desaparecido e não havia sequer pistas de onde poderia estar. Os dois estavam preocupadíssimos, tinham um péssimo pressentimento quanto a isso. Robert tentava se acalmar, Louis via que Robert se esforçava para não surtar e fez o mesmo, precisava manter as ideias no lugar numa situação dessas.
- O que?! Como assim 24 horas? Ela pode estar correndo perigo AGORA! Não vou ficar aqui esperar dar 24 horas pra vocês começarem a fazer algo. - Robert havia perdido o ultimo pingo de sanidade.
- Meu jovem, pelo que você me falou, a sua irmã está sumida a poucas horas, nada me garante que ela esteja em perigo. Para declarar uma pessoa desaparecida, são necessárias essas 24 horas. - Disse o delegado.
Robert puxou a gravata do delegado com força e falou quase encostando seu nariz no dele. - Tem um cara que costuma nos perseguir, eu tenho quase certeza que foi ele, o senhor precisa nos ajudar! - Louis tentou acalmar Robert.
- Solta ele, Robert, delegado, desculpe, estamos muito aflitos, não sabemos o que fazer.
- Antes de tudo, você vai soltar minha gravata e eu não vou te prender por desacato. - Robert respirou fundo e se afastou. - ... Por favor. - Robert continha a umidade nos olhos com bravura. Louis o confortava.
- Vou ver o que posso fazer, ok? Me passem os dados da menina.
Tyler tirou o pano que cobria a boca de Lile.
- EU VOU MATAR VOCÊ, SEU VERME! - Lile se debatia, gritava.
- Quem vai matar você sou eu, piranha.
O coração de Lile gelou.
- Só assim pra você ter uma menina ao seu lado, na força... quem é que vai querer ficar com você? Um sujeito tão burro, ignorante e covarde. - Lile cuspiu no rosto de Tyler, ele por sua vez suspirou fundo e limpou o rosto. Lile estava amarrada nos pulsos, que pendiam em suas costas, e nos tornozelos. Tyler acertou um chute no estômago de Lile, um espasmo abafado de dor vibrou em seu corpo.
- Calada... foi uma péssima ideia você ter vindo para cá, deveria ter ficado no seu país, roçando uma horta, sua caipira, aqui não tem espaço pra pessoas como você.
- Quem você pensa que é pra dizer onde eu devo ou não ir? Onde eu devo ou não ficar? NINGUÉM.
O mundo é meu, eu posso ir pra onde eu bem quiser, e não vai ser um zero à esquerda como você que vai me dizer o contrário. Estou farta desse tipo de gente que desmerece uma mulher ou uma pessoa que vem de fora... você não tem nada no cérebro e isso me dá pena.
Tyler bufou, se aproximou violentamente de Lile, pressionou seu rosto contra o chão de terra batida. Falava bem perto de seu ouvido. - Agora já chega, minha paciência esgotou.
Louis e Robert estavam sentados à espera de algum movimento policial.
- Louis.
- O que?
- Se acontecer alguma coisa com a Lile...
- Não vai acontecer nada.
- ... Se acontecer alguma coisa com ela... eu vou matar aquele sujeito, com as minhas próprias mãos.
- Isso não vai ser preciso. - Louis apoiou sua mão na de Robert.
- Se algo acontecer com ela eu nunca vou me perdoar, Louis.
- Mas não é culpa sua...
- É meu dever protegê-la... ela é tudo pra mim. - Robert já não continha mais as lágrimas, Louis estava desesperado, o abraçou, tentava pensar em alguma coisa mas se sentia um completo inútil e também se culpava.
Viaturas policias começaram a vasculhar a área em busca de pistas, Louis e Robert os acompanhavam, pelas arredondezas nada encontraram. Deram informações também sobre Tyler, o possível agressor. Louis imaginava que Tyler não estaria no próprio carro, mas sim no de um comparsa, era sempre o mesmo, deu os detalhes de como o garoto era e onde morava. Foram até a casa dele, conseguiram com os pais informações sobre o carro, pela placa, o rastrearam. O possível suspeito foi fotografado a última vez por radares em uma área um tanto afastada dali, no mínimo bem estranha. Seguiram até lá.
Por mais força que fizesse, Lile não conseguia sair dali, sentia nojo, pensava em Robert e Louis, chorava e não tinha mais voz para gritar. Tyler esfregava seu corpo pesado sobre Lile, lambia sua orelha, seu pescoço, a despia pouco a pouco, Lile tentou mordê-lo na esperança de arrancar algum pedaço, em vão. Ele cortou as roupas íntimas de Lile com o canivete, tinha um sorriso nojento na cara, quase babava. Lile se sentia suja, queria vomitar.
Lile sentiu um espasmo de dor, nunca imaginou que isso fosse acontecer com ela, estava ali, sendo usada, com os cabelos cortados, nua, humilhada, simplesmente pelo fato de não ser dali, ou de ser mulher. A cada fisgada seu ódio crescia, podia ver o sorriso pervertido de Tyler sobre ela. Tyler foi interrompido pelo comparsa.
- Tyler! Ouvi sirenes, acho que estão atrás de nós.
- Meu irmão vai matar você. - Disse Lile, bem baixo, com todas as forças que lhe restavam. Tyler entrou em pânico.
- Preciso me livrar dessa garota.
- Mata ela! - Disse o comparsa.
As sirenes se aproximavam cada vez mais, Tyler não sabia o que fazer.
- Não dá tempo, NÃO DÁ TEMPO... não vai dar pra eliminar todas as pistas... maldição!
- Bota ela no porta-malas de novo.
- Vai ser pior... - Tyler apoiou os joelhos sobre as costas de Lile novamente. - Se você contar que fui eu, vou caçar você até a morte.... estamos claros?
Tyler e o comparsa entraram no carro e partiram. Lile ficou ali, deitada, nua, sangrando, cortaram seus cabelos, mas não levaram seu orgulho.
Poucos minutos depois, duas viaturas apareceram no lugar, Robert, mal esperou o carro estacionar e pulou, foi correndo em direção a Lile, que parecia estar desmaiada.
- LILE! Minha irmã... - Ele chorava, estava tremendo, Louis olhava de longe, não tinha coragem de ver. - Quem fez isso com você? Foi aquele verme não foi? Fala comigo meu amor... me desculpe, eu sou um péssimo irmão, eu deveria estar te protegendo.
Lile, abriu os olhos e pareceu ver uma miragem, sua visão embaçada via Robert, ela suspirou aliviada e sorriu como pode. - Não seja bobo... você sempre aparece pra me salvar... - Lile disse. Robert chorou muito, Louis apareceu para confortá-los. Louis nunca em sua vida havia ficado tão triste, uma faca foi enfiada em seu peito quando viu a menina que mais amava naquele estado... Parecia um pesadelo.
domingo, 1 de novembro de 2015
Hey Giant.
Hey dear giant, is so much going on right?
So many sirens and flashing lights
So many people falling on the ground
Some of them screaming
Some of them making no sound
You're in the middle of the chaos
Running armed to the teeth
You saw their faces
You bleed.
The fire took away your army
You feel empty, hopeless
But there's a fire in your chest
And I hope you keep feeding it
Cause you did your best.
Close your eyes when you remember
Oh journey, you've been cruel this time
What about the next day?
What about the last good bye?
Keep in mind, good things are coming
They'll come back as soon as possible
Stronger than ever, is not that far
And you will win the match and the war.
So many sirens and flashing lights
So many people falling on the ground
Some of them screaming
Some of them making no sound
You're in the middle of the chaos
Running armed to the teeth
You saw their faces
You bleed.
The fire took away your army
You feel empty, hopeless
But there's a fire in your chest
And I hope you keep feeding it
Cause you did your best.
Close your eyes when you remember
Oh journey, you've been cruel this time
What about the next day?
What about the last good bye?
Keep in mind, good things are coming
They'll come back as soon as possible
Stronger than ever, is not that far
And you will win the match and the war.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Fire (13)
Após uma semana da morte de Elisabeth, Louis já não se sentia triste por ela, tentava associar seu nome com lembranças bonitas, assim poupava-se também. A companhia de Lile e Robert confortava qualquer possível surto de tristeza que viesse a acontecer.
Decidiram que era hora de outro acampamento, precisavam recarregar as energias, a semana de provas finais se aproximava como um tiro a queima roupa, um acampamento, risadas e boas histórias fariam os três ficarem bem, ou melhor, os quatro.
- O que?! Marie vai junto? Você tá ficando maluco? - Lile esbravejava.
- Acho que é um bom momento pra ela se enturmar, ela é uma boa garota, só precisa conhecer outro mundo.
- Robert! Eu sou uma boa garota, que vai se tornar má se ela for.
- Não sei se é uma boa ideia, Rob. - Louis disse baixinho.
- Gostaria de poder contar com o apoio de vocês, a gente terminou há dois dias.
Lile e Louis ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Lile, como de costume, explode primeiro.
- Desde quando você começa a esconder coisas de mim?!
- Por que não nos contou? Como se sente? - Louis perguntou.
- Gente, tá tudo bem, só não queria estragar o clima, Louis estava triste, estávamos fazendo o possível para ajudá-lo, e apesar de eu gostar muito dela, é tudo muito fútil.
- Não é fútil, porra! Quem terminou com quem? - Lile estava nervosa, quase querendo encontrar Marie no acampamento agora.
- Entramos em comum acordo...
- Robert?! - Lile sabia que algo não estava completamente esclarecido.
- Tudo bem... foi ela, mas o pai dela a obrigou.
Silêncio de novo.
- Agora somos amigos, ela está bem triste com tudo isso, eu também, por isso quero levá-la, quem sabe assim ela tenha um início de clareamento mental, sei lá.
- E qual o propósito? Voltar pra ela? - Lile perguntou.
- Salvá-la.
No dia seguinte, arrumavam as coisas para partir logo pela manhã, o tal lugar não era o mesmo do ultimo acampamento, era numa cidade próxima, precisariam pegar um ônibus. No ponto de ônibus, avistaram Marie se aproximando, Lile respirou fundo, Louis a cumprimentou de longe, sorrindo, Robert deu um beijo em seu rosto.
Não trocavam muitas palavras durante o caminho, Louis ainda tentava não deixar a situação ainda mais estranha e conversava com Marie. Robert olhava para Lile como uma cara clamante de cooperação.
Chegando no acampamento, Lile foi direto ao lago, tirou suas roupas e foi nadar, Louis ficou ajudando Robert a armar a barraca, Marie se sentou ao lado deles.
- Sua irmã nunca vai gostar de mim não é mesmo?
- Dê um tempo a ela.
- Sinto muito pelo que aconteceu com a gente Robert...
- Tudo bem, estamos aqui para nos divertirmos. O lago parece bem convidativo.
E era, o lugar era uma mata fechada, a natureza era bem nítida, cores fortes, o lago deveria ter quase 500 metros de comprimento, do outro lado a floresta de pinheiros era densa, o sol aquecia as águas do lago. Louis observava Lile nadando, parecia Ariel com seus cabelos vermelhos. Robert finalizava a barraca enquanto conversava com Marie, ela parecia mais a vontade.
Lile saiu do lago, se enrolou numa toalha e beijou Louis, que estava sentado na beira do lago, depois sentou-se do lado de Marie e começou a comer um sanduíche. Se entreolharam mas nada disseram.
Robert se aproximou de Louis, que continuava sentado, apreciando a paisagem, tirou a blusa e pegou na mão de Louis.
- Vamos nadar? - Louis puxou a mão novamente.
- Melhor não.
- Por que não? Veio até aqui pra ficar sentado?
Louis ficou em silêncio.
- Louis? O que foi?
- Eu não sei nadar, não gosto de lugares onde eu não possa pisar, e esse lago parece bem fundo.
- Vem comigo, não vou deixar você se afogar.
- Não Robert.
Robert pegou sua camiseta do chão e vendou Louis.
- O que está fazendo?
- Levante Louis, vamos andando devagar até lá. Estou com você.
Louis sentiu a água um tanto gelada no pé e hesitou, abraçou Robert.
- Não é uma boa ideia.
Robert continuou caminhando com Louis, não soltou sua mão, o pânico de Louis aumentava a medida que sentia a água chegar na cintura, até o peito, quando queria voltar, Robert se impulsionou para o meio do lago levando Louis consigo, Louis se agarrou em Robert e manteve seu queixo apoiado nos ombros dele.
- Robert! Vamos voltar...
- Não precisa ter medo, balance as pernas, os braços, não vou deixar nada acontecer com você.
Robert retirou as vendas de Louis, ele se viu exatamente no meio do lago, uma sensação de barreira quebrada envolveu Louis, ainda tinha medo, mas Robert estava ali e sentia seguro. Robert mergulhou, ainda segurando Louis, o abraçou por baixo d'água, Louis ria, Robert voltou a superfície, tirou o cabelo da cara de Louis e sorriu.
- Não foi tão mal, não é? - Perguntou Robert.
- Não... obrigado.
Robert aproximou seu rosto no de Louis e o beijou, Louis apoiava os braços nos ombros de Robert enquanto tentava não escorregar.
- Vocês nunca vão me deixar, não é? - Louis interrompeu o beijo e o abraçou.
- Não, nunca. Não vou deixar nada acontecer com você e com Lile.
Do outro lado do lago, Marie e Lile estavam sentadas, observando os dois.
- Eles se beijaram! - Protestou Marie.
- Sim, fazem as coisas divertidas sem mim.
- O que? Enquanto ele ficava comigo ele beijava esse menino por aí?
- "Esse menino" é a melhor pessoa do mundo, quem está beijando ele é a outra melhor pessoa do mundo, na qual você dispensou, então não chora.
- Você não entende...
- E nem quero, se você não é capaz de se impor por algo que você ama, é porque não é bom o suficiente pra você.
- O que vocês são afinal? Um trio amoroso? Você e seu irmão...
- Calaboca Marie, não to com paciência pra esse seu espanto, não haja como se fosse a pior coisa do mundo, e não, eu e Robert nunca tivemos nada, somos apenas bem próximos.
- Então é disso que ele gosta...
Lile olhou para Marie, ela olhava sem parar para os dois. - Não seja ridícula. - Lile se levantou e entrou na barraca.
A noite se aproximou, o quarteto pretendia passar a noite ali, Robert preparava algo para todos comerem, havia levado um pequeno grill bem prático. Robert via de longe Marie e Lile conversando, a conversa na maioria das vezes parecia séria e uma delas sempre parecia discordar, mas pelo menos estavam conversando, Louis estava escrevendo algo, viu as duas conversando na frente da barraca e foi ao encontro delas. Lile sorriu ao vê-lo, Louis a abraçou por trás, os dois se beijaram e ela recostou a cabeça nas pernas de Louis.
- Do que falavam? - Perguntou ele.
- De como essa menina é idiota. - Lile disse sorrindo.
- Não fale assim Lile, não ligue, Marie. - Lile deu um tapa em Louis.
- Além de só ficar com o Rob de lá pra cá está defendendo ela agora? - Louis riu.
- Não fique com ciumes, amo vocês dois igualmente. - Louis se abaixou e a beijou novamente, dessa vez um beijo mais demorado, Marie parecia desconfortável.
- Ok, todo mundo beija todo mundo aqui.
- Quer participar? - Disse Lile rindo.
- Não, obrigada.
Robert bateu uma colher na panela e chamou todo mundo.
- Repas prêt!
Enquanto comiam, Robert olhava para Marie, ela olhava de volta por alguns segundos e baixava o olhar. Ele foi sentar-se perto dela.
- Como se sente? - Disse ele.
- Triste.
- Não gosto de te ver assim, estou tentando te integrar ao grupo mas você não me dá uma chance.
- Me integrar ao grupo significa me obrigar a ver você beijando... um garoto?
- Não é grande coisa, Marie, não é o fim do mundo, ele não é só um garoto pra mim, ele é nosso melhor amigo, quando eu te beijo é diferente do beijo de Louis.
- Não me venha com essa, talvez eu não seja tão moderna pra aceitar esse tipo de coisa.
- Está com ciumes?
- É claro Robert, não é porque terminamos a uns dias atrás que vou ficar bem em te ver beijando outra pessoa.
Silêncio.
- Eu amo você Marie, fiz o possível pra ficar com você. - Ela secou um olho que teimava em ficar úmido.
- Me desculpe. Todas as coisas que eu te disse foram em voz do meu pai, você não é inútil, você não é um talento desperdiçado, você não é um...
- Perdedor. - Completou Robert.
Ela suspirou fundo, o abraçou. - Não, você não é. Mas entenda que não posso discordar do meu pai assim, ele paga tudo pra mim, as vezes eu queria muito ter a vida de vocês, são tão independentes, cuidam de si próprios... e eu fico na barra da calça do meu pai.
- Não quero te deixar desconfortável, Marie, tudo bem sermos só amigos, amigos ás escondidas ainda, mas não quero que se entregue.
Se preparavam pra dormir, Lile já tinha feito o roteiro de posições.
- Marie, da esquerda pra direita, você dorme primeiro, pode abraçar o Robert, que dorme do seu lado, Louis fica no meio de nós dois, e eu na extremidade direita, podendo usufruir do Louis... estamos de acordo? - Sim - Todos (menos Marie) responderam.
Como de costume, os três se abraçaram, Marie deitou de barriga pra cima e olhava o teto da barraca, Robert olhou para o lado de Marie, pegou seu braço e puxou para sua cintura. - Não faça cerimônias, vai esfriar. - Robert disse, Marie sorriu e beijou seu rosto.
De manhã cedo arrumavam as coisas pra sair da mata, Robert mexia em sua mochila, de repente abriu um sorriso de orelha á orelha.
- Pessoal, encontrei um beck.
Louis parou o que estava fazendo e foi correndo em direção ao Robert, Lile fez o mesmo.
- Era o que faltava! - Lile riu.
Acenderam o beck sentaram perto do lago, Louis e Robert atiravam pedras pra ver qual quicava mais. Lile passou o beck para Marie. - Vai querer? - Ela relutou um pouco. - Acho que sim, o que vai acontecer comigo?
- O idiota do Robert nunca te levou pra fumar um? - Lile ria.
- Ele já me chamou mas eu nunca quis.
- Então fume, você não vai ver duendes nem nada, só vai ficar relaxada, com vontade de rir.
Ela fumou, minutos depois, ela e Lile já compartilhavam opiniões de quais garotas eram as mais falsas e metidas, Robert as olhou e riu. Minutos depois, os quatro subiam pela mata até a estrada, pegariam um ônibus para a cidade novamente. Quando passaram por um posto de gasolina, um grupo de velhos começou a caçoar deles.
- A noite no meio do mato foi boa? - Diziam rindo.
Lile olhou pra trás, pegou na bunda da Marie e apertou. - Foi ótima.
Marie deu um tapa na mão de Lile, todos riam, até os velhos.
Decidiram que era hora de outro acampamento, precisavam recarregar as energias, a semana de provas finais se aproximava como um tiro a queima roupa, um acampamento, risadas e boas histórias fariam os três ficarem bem, ou melhor, os quatro.
- O que?! Marie vai junto? Você tá ficando maluco? - Lile esbravejava.
- Acho que é um bom momento pra ela se enturmar, ela é uma boa garota, só precisa conhecer outro mundo.
- Robert! Eu sou uma boa garota, que vai se tornar má se ela for.
- Não sei se é uma boa ideia, Rob. - Louis disse baixinho.
- Gostaria de poder contar com o apoio de vocês, a gente terminou há dois dias.
Lile e Louis ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Lile, como de costume, explode primeiro.
- Desde quando você começa a esconder coisas de mim?!
- Por que não nos contou? Como se sente? - Louis perguntou.
- Gente, tá tudo bem, só não queria estragar o clima, Louis estava triste, estávamos fazendo o possível para ajudá-lo, e apesar de eu gostar muito dela, é tudo muito fútil.
- Não é fútil, porra! Quem terminou com quem? - Lile estava nervosa, quase querendo encontrar Marie no acampamento agora.
- Entramos em comum acordo...
- Robert?! - Lile sabia que algo não estava completamente esclarecido.
- Tudo bem... foi ela, mas o pai dela a obrigou.
Silêncio de novo.
- Agora somos amigos, ela está bem triste com tudo isso, eu também, por isso quero levá-la, quem sabe assim ela tenha um início de clareamento mental, sei lá.
- E qual o propósito? Voltar pra ela? - Lile perguntou.
- Salvá-la.
No dia seguinte, arrumavam as coisas para partir logo pela manhã, o tal lugar não era o mesmo do ultimo acampamento, era numa cidade próxima, precisariam pegar um ônibus. No ponto de ônibus, avistaram Marie se aproximando, Lile respirou fundo, Louis a cumprimentou de longe, sorrindo, Robert deu um beijo em seu rosto.
Não trocavam muitas palavras durante o caminho, Louis ainda tentava não deixar a situação ainda mais estranha e conversava com Marie. Robert olhava para Lile como uma cara clamante de cooperação.
Chegando no acampamento, Lile foi direto ao lago, tirou suas roupas e foi nadar, Louis ficou ajudando Robert a armar a barraca, Marie se sentou ao lado deles.
- Sua irmã nunca vai gostar de mim não é mesmo?
- Dê um tempo a ela.
- Sinto muito pelo que aconteceu com a gente Robert...
- Tudo bem, estamos aqui para nos divertirmos. O lago parece bem convidativo.
E era, o lugar era uma mata fechada, a natureza era bem nítida, cores fortes, o lago deveria ter quase 500 metros de comprimento, do outro lado a floresta de pinheiros era densa, o sol aquecia as águas do lago. Louis observava Lile nadando, parecia Ariel com seus cabelos vermelhos. Robert finalizava a barraca enquanto conversava com Marie, ela parecia mais a vontade.
Lile saiu do lago, se enrolou numa toalha e beijou Louis, que estava sentado na beira do lago, depois sentou-se do lado de Marie e começou a comer um sanduíche. Se entreolharam mas nada disseram.
Robert se aproximou de Louis, que continuava sentado, apreciando a paisagem, tirou a blusa e pegou na mão de Louis.
- Vamos nadar? - Louis puxou a mão novamente.
- Melhor não.
- Por que não? Veio até aqui pra ficar sentado?
Louis ficou em silêncio.
- Louis? O que foi?
- Eu não sei nadar, não gosto de lugares onde eu não possa pisar, e esse lago parece bem fundo.
- Vem comigo, não vou deixar você se afogar.
- Não Robert.
Robert pegou sua camiseta do chão e vendou Louis.
- O que está fazendo?
- Levante Louis, vamos andando devagar até lá. Estou com você.
Louis sentiu a água um tanto gelada no pé e hesitou, abraçou Robert.
- Não é uma boa ideia.
Robert continuou caminhando com Louis, não soltou sua mão, o pânico de Louis aumentava a medida que sentia a água chegar na cintura, até o peito, quando queria voltar, Robert se impulsionou para o meio do lago levando Louis consigo, Louis se agarrou em Robert e manteve seu queixo apoiado nos ombros dele.
- Robert! Vamos voltar...
- Não precisa ter medo, balance as pernas, os braços, não vou deixar nada acontecer com você.
Robert retirou as vendas de Louis, ele se viu exatamente no meio do lago, uma sensação de barreira quebrada envolveu Louis, ainda tinha medo, mas Robert estava ali e sentia seguro. Robert mergulhou, ainda segurando Louis, o abraçou por baixo d'água, Louis ria, Robert voltou a superfície, tirou o cabelo da cara de Louis e sorriu.
- Não foi tão mal, não é? - Perguntou Robert.
- Não... obrigado.
Robert aproximou seu rosto no de Louis e o beijou, Louis apoiava os braços nos ombros de Robert enquanto tentava não escorregar.
- Vocês nunca vão me deixar, não é? - Louis interrompeu o beijo e o abraçou.
- Não, nunca. Não vou deixar nada acontecer com você e com Lile.
Do outro lado do lago, Marie e Lile estavam sentadas, observando os dois.
- Eles se beijaram! - Protestou Marie.
- Sim, fazem as coisas divertidas sem mim.
- O que? Enquanto ele ficava comigo ele beijava esse menino por aí?
- "Esse menino" é a melhor pessoa do mundo, quem está beijando ele é a outra melhor pessoa do mundo, na qual você dispensou, então não chora.
- Você não entende...
- E nem quero, se você não é capaz de se impor por algo que você ama, é porque não é bom o suficiente pra você.
- O que vocês são afinal? Um trio amoroso? Você e seu irmão...
- Calaboca Marie, não to com paciência pra esse seu espanto, não haja como se fosse a pior coisa do mundo, e não, eu e Robert nunca tivemos nada, somos apenas bem próximos.
- Então é disso que ele gosta...
Lile olhou para Marie, ela olhava sem parar para os dois. - Não seja ridícula. - Lile se levantou e entrou na barraca.
A noite se aproximou, o quarteto pretendia passar a noite ali, Robert preparava algo para todos comerem, havia levado um pequeno grill bem prático. Robert via de longe Marie e Lile conversando, a conversa na maioria das vezes parecia séria e uma delas sempre parecia discordar, mas pelo menos estavam conversando, Louis estava escrevendo algo, viu as duas conversando na frente da barraca e foi ao encontro delas. Lile sorriu ao vê-lo, Louis a abraçou por trás, os dois se beijaram e ela recostou a cabeça nas pernas de Louis.
- Do que falavam? - Perguntou ele.
- De como essa menina é idiota. - Lile disse sorrindo.
- Não fale assim Lile, não ligue, Marie. - Lile deu um tapa em Louis.
- Além de só ficar com o Rob de lá pra cá está defendendo ela agora? - Louis riu.
- Não fique com ciumes, amo vocês dois igualmente. - Louis se abaixou e a beijou novamente, dessa vez um beijo mais demorado, Marie parecia desconfortável.
- Ok, todo mundo beija todo mundo aqui.
- Quer participar? - Disse Lile rindo.
- Não, obrigada.
Robert bateu uma colher na panela e chamou todo mundo.
- Repas prêt!
Enquanto comiam, Robert olhava para Marie, ela olhava de volta por alguns segundos e baixava o olhar. Ele foi sentar-se perto dela.
- Como se sente? - Disse ele.
- Triste.
- Não gosto de te ver assim, estou tentando te integrar ao grupo mas você não me dá uma chance.
- Me integrar ao grupo significa me obrigar a ver você beijando... um garoto?
- Não é grande coisa, Marie, não é o fim do mundo, ele não é só um garoto pra mim, ele é nosso melhor amigo, quando eu te beijo é diferente do beijo de Louis.
- Não me venha com essa, talvez eu não seja tão moderna pra aceitar esse tipo de coisa.
- Está com ciumes?
- É claro Robert, não é porque terminamos a uns dias atrás que vou ficar bem em te ver beijando outra pessoa.
Silêncio.
- Eu amo você Marie, fiz o possível pra ficar com você. - Ela secou um olho que teimava em ficar úmido.
- Me desculpe. Todas as coisas que eu te disse foram em voz do meu pai, você não é inútil, você não é um talento desperdiçado, você não é um...
- Perdedor. - Completou Robert.
Ela suspirou fundo, o abraçou. - Não, você não é. Mas entenda que não posso discordar do meu pai assim, ele paga tudo pra mim, as vezes eu queria muito ter a vida de vocês, são tão independentes, cuidam de si próprios... e eu fico na barra da calça do meu pai.
- Não quero te deixar desconfortável, Marie, tudo bem sermos só amigos, amigos ás escondidas ainda, mas não quero que se entregue.
Se preparavam pra dormir, Lile já tinha feito o roteiro de posições.
- Marie, da esquerda pra direita, você dorme primeiro, pode abraçar o Robert, que dorme do seu lado, Louis fica no meio de nós dois, e eu na extremidade direita, podendo usufruir do Louis... estamos de acordo? - Sim - Todos (menos Marie) responderam.
Como de costume, os três se abraçaram, Marie deitou de barriga pra cima e olhava o teto da barraca, Robert olhou para o lado de Marie, pegou seu braço e puxou para sua cintura. - Não faça cerimônias, vai esfriar. - Robert disse, Marie sorriu e beijou seu rosto.
De manhã cedo arrumavam as coisas pra sair da mata, Robert mexia em sua mochila, de repente abriu um sorriso de orelha á orelha.
- Pessoal, encontrei um beck.
Louis parou o que estava fazendo e foi correndo em direção ao Robert, Lile fez o mesmo.
- Era o que faltava! - Lile riu.
Acenderam o beck sentaram perto do lago, Louis e Robert atiravam pedras pra ver qual quicava mais. Lile passou o beck para Marie. - Vai querer? - Ela relutou um pouco. - Acho que sim, o que vai acontecer comigo?
- O idiota do Robert nunca te levou pra fumar um? - Lile ria.
- Ele já me chamou mas eu nunca quis.
- Então fume, você não vai ver duendes nem nada, só vai ficar relaxada, com vontade de rir.
Ela fumou, minutos depois, ela e Lile já compartilhavam opiniões de quais garotas eram as mais falsas e metidas, Robert as olhou e riu. Minutos depois, os quatro subiam pela mata até a estrada, pegariam um ônibus para a cidade novamente. Quando passaram por um posto de gasolina, um grupo de velhos começou a caçoar deles.
- A noite no meio do mato foi boa? - Diziam rindo.
Lile olhou pra trás, pegou na bunda da Marie e apertou. - Foi ótima.
Marie deu um tapa na mão de Lile, todos riam, até os velhos.
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Esse texto não precisa de título.
Às duas da manhã fui bolar um e ver as estrelas. Tinha algo naquelas cores, naquele brilho, tudo estava bem nítido... Talvez seja tudo refletido pelo o que eu estava sentindo naquele momento. Eu estava feliz, em paz. É raro, frestas e faixas de luzes aleatórias. Um júbilo em acreditar que valia a pena escrever, que tudo tinha um propósito, que a poesia era válida e me completava. Viajei em piscadas cintilantes, pensando em todos as futuras jornadas com meus amigos, de todos os lugares que ainda iria desvendar sozinho. Um cigarro todo foi consumido em meus dedos em meio dos meus devaneios. Pairava, entre as constelações e o escuro da noite, e de repente caí, de cara no chão. Limpei o rosto e voltei pro meu apartamento apertado.
Há um caminho que eu sigo
Quando a amargura me faz de refém
Quando me sinto bem por estar vivo
Quando me sinto vivo por estar bem.
Quando a amargura me faz de refém
Quando me sinto bem por estar vivo
Quando me sinto vivo por estar bem.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Fire (12)
Um ano atrás...
Louis estava em seu quarto, deitado no chão de barriga pra baixo em vários papéis em branco, parecia buscar inspiração, ainda não tinha sua vontade de viver inibida pelo mundo externo, na verdade tinha, mas não era um sentimento tão forte, tentava se acostumar.
- Louis? Visita! - Gritou seu pai.
Louis não respondeu, ouvia passos delicados se aproximarem de seu quarto, já sabia quem era.
Parada na porta, estava uma menina bem pálida, de cabelo curto e bem escuro, era um tanto encorpada, quase sempre estava de branco, trazia com ela uma escultura feita por ela mesma, algumas folhas em branco e um estojo decorado... Era Elisabeth.
- Você demorou. - Reclamou Louis
- Foi mal, estava dando uns retoques finais. Olhe, gostou?
Louis analisou a escultura, era um rosto deformado feito de esparadrapos, pintado com diversas cores de tinta. - Nada mal. Fez sozinha?
- Sim... o que está fazendo?
- Tentando escrever, mas minha mente anda oca.
- Você é bom Louis, se não fosse não teria te escolhido, não desista, ainda vamos dominar o mundo com arte. - Louis sorriu.
- Sim, arte para o povo.
Louis e Elisabeth eram inseparáveis, se completavam, mantinham um no outro a vontade de tentar fazer algo diferente, articulavam projetos, planos, desenhavam, escreviam, moldavam juntos, se ajudavam como podiam. Ambos de caráter reservado, sabiam que o tinham pelo outro era forte, mas não demonstravam tanto.
Foram se arrastando pelo ano letivo juntos, eram uma dupla excluída como muitas por aí, até que em algum determinado momento, Elisabeth tentou algo novo, se permitiu amar, um amor sem barreiras e sem limites, foi um girassol em busca de brilho, mal sabia ela que seu amor era a lua.
Louis não se opôs, não se sentiu no direito de opinar, até se sentiu feliz por ela. Craig, namorado de Elisabeth, era 7 anos mais velho que ela, não terminou o colégio, trabalhava como garçom e dirigia o carro velho do pai por aí. No começo, como todo paixão fresca, foi tudo muito bonito, Louis e Elisabeth ainda se viam, mas ela criava pouco, contava para Louis suas novas experiências, quando convidada para elaborar algum projeto, dizia não estar inspirada, o que soava engraçado para Louis.
O tempo foi passando e Elisabeth se distanciando, Louis só a via com Craig, ele parecia um pouco rude, mas se ele lhe fazia feliz, Louis aceitava. Mas quando a viu debilitada, magra, com marcas de abuso e quando um boato chegou em seus ouvidos de que Elisabeth estaria gravida e abortou, Louis se viu na obrigação de tentar fazer o papel de amigo, de lhe avisar que isso não era saudável, de que sentia falta dos tempos onde só compor era suficiente. Foi falar com ela... foi a ultima vez. Brigaram, Elisabeth o julgou estar contra ela. Desde então, Elisabeth só andava com Craig e mal olhava mais para Louis, ele por sua vez não insistiu em uma reaproximação.
Passado algumas semanas da briga, houve uma festa no colégio, organizado pelo grupo esportivo, basicamente, iriam todas as pessoas que Louis não se identifica, mas quando se está completamente só e ainda não é capaz de associar tudo, há tentativas de se socializar. Louis ficou só na festa, ficou triste e angustiado, viu Elisabeth, percebeu que ela se tornou uma pessoa da qual ele não consiga se comunicar mais. Foi a primeira ponta da solidão total que abraçou Louis.
Apelou pra bebida, Louis nunca foi de beber, mas se sentiu no direito de afogar as mágoas, bebeu até rir e chorar sozinho, bebeu até perder o juízo e cair no chão, no meio do barro e virar piada. Sua cabeça rodava e tudo se misturava com o barulho ensurdecedor da vergonha e dos risos que vinham como flechas, procurou por Elisabeth, a viu, os olhos de Louis clamavam por ajuda, notou que Elisabeth até queria se desprender de tudo e ir até lá, tira-lo dali, mas ela estava com Craig, que estava rindo também, então ela se pôs a rir.
- Perdedores merecem isso. - Foi isso que ouviu dela.
Esse episódio mudou Louis, ele se tornou uma pessoa mais seca, mais amarga, descrente de bons afetos. Louis não teve mais apoio e cedeu, foi salvo pelos irmãos. Uma semana depois da festa, Elisabeth deixou o colégio, foi morar com Craig, nunca mais ouviu falar dela, até que um ano depois...
Lá estava ela, do outro lado da sala, os olhos de Louis lutavam para não envolvê-la em análises, ela estava péssima, muito magra, com manchas pelo corpo, com um olhar opaco, era o mesmo olhar que Louis tinha.
Lile notava todo esse clima pesado.
- O que está havendo? - Perguntou ela.
- É ela. - Disse Louis em baixo tom. - Elisabeth.
- A piranha que te humilhou? - Lile quase levantou da cadeira e seu tom de voz não foi tão baixo assim. Elisabeth a olhou de volta, trocaram farpas.
No intervalo, Louis tentava se assegurar que Lile não fosse conversar com Elisabeth, não gostava nem um pouco da ideia, Robert estava em um canto com Marie, provavelmente discutindo como sempre, vagando entre carícias e reclamações. Em um momento de descuido, viu Lile na cafeteria do colégio, parada atrás de Elisabeth, que comia alguma coisa, Louis se apressou.
- Não se aproxime dele. - Chegou tarde, Lile já havia abordado Elisabeth. Ela se virou devagar e permaneceu com o olhar focado em Lile.
- Do que está falando? Você é a aluna intercambista não é? Não me amole com suas paranoias, não sei por que permitem gente como você aqui no colégio.
- Mal voltou e já está bem informada, futilidade corre rápido.
- Lile! - Louis segurou o pulso de Lile. - Vamos. - Elisabeth olhava Louis e não sabia como reagir, não estava perto dele fazia um ano.
- Por sua maldita causa, Louis tentou se matar, sabia? - Lile se soltou de Louis, Louis bufou de raiva e saiu, não queria ouvir mais nada. - Se não fosse por nós, Louis não estaria mais aqui, você o abandonou, o humilhou. - Elisabeth permaneceu imóvel, tentou não demonstrar espanto, mas falhou, seus olhos corriam e seguiam Louis pelo corredor.
- Isso não é da sua conta garota, você não me conhece. - Elisabeth se levantou com uma expressão triste e foi em direção da saída.
- Não se abandona alguém frágil desse jeito. Ele está com a gente agora, não queremos você por perto. - Elisabeth não respondeu.
No dia seguinte, ela não foi ao colégio, Louis, movido por uma vontade estranha de tentar resolver algo já perdido, tentou se informar aonde ela morava, aonde trabalhava, se estava com Craig ou não, com a ajuda de Robert (já que Lile provavelmente recusaria ajudar) descobriram que ela está morando com uma tia, que está desempregada e que Craig havia morrido de overdose. Louis sentiu medo de que acontecesse a mesma coisa com ela, Elisabeth parecia péssima, já entregava as pontas.
Foi com Robert até a casa aonde supostamente morava, chamaram várias vezes seu nome, ninguém respondia.
- Acha que erramos o endereço? - Perguntou Robert.
- Acho que ela não quer falar comigo.
Quando iam embora, ouviram o barulho de uma janela se abrindo, era Elisabeth.
- O que quer? Acertar as contas? - Ela parecia lutar contra si mesmo.
- Não, quero que acerte contas consigo mesmo... você está sumindo Elisabeth.
Ela parecia segurar o que lá fosse que tinha dentro dos olhos vazios.
- Isso não é da sua conta.
- É só isso que você sabe dizer? Elisabeth, eu morri e voltei, você pode fazer o mesmo, não quero que sejamos amigos novamente, não quero forçar nada, mas quando eu te conheci você era alguém relevante, agora se tornou pó.
- O único pó que existe é o que vou cheirar pra ter que aturar vocês, sumam da minha casa.
Elisabeth não foi no dia seguinte, nem no seguinte, nem no seguinte, Louis saía com os irmãos, mas parte de sua mente estava em Elisabeth, ainda tem um dia seguinte de não comparecimento, mas dessa vez algo substituía a presença dela, um bilhete.
"Prezados alunos, sinto informar-lhes do falecimento de nossa aluna do segundo ano, Elisabeth, nossos pêsames aos amigos, familiares e colegas de sala, foi uma menina criativa e brilhante. - A Direção."
Os alunos passavam por ali, liam, absorviam a mensagem, mas ninguém parecia se importar, Louis leu, fingiu não se importar, mas foi pro banheiro chorar. Elisabeth cedeu, e não tinha ninguém pra trazê-la de volta.
"Mas se você estiver por aí, andando pelo mundo sem parar, ouça essa canção e saiba que o meu coração ainda é o seu lugar."
Louis estava em seu quarto, deitado no chão de barriga pra baixo em vários papéis em branco, parecia buscar inspiração, ainda não tinha sua vontade de viver inibida pelo mundo externo, na verdade tinha, mas não era um sentimento tão forte, tentava se acostumar.
- Louis? Visita! - Gritou seu pai.
Louis não respondeu, ouvia passos delicados se aproximarem de seu quarto, já sabia quem era.
Parada na porta, estava uma menina bem pálida, de cabelo curto e bem escuro, era um tanto encorpada, quase sempre estava de branco, trazia com ela uma escultura feita por ela mesma, algumas folhas em branco e um estojo decorado... Era Elisabeth.
- Você demorou. - Reclamou Louis
- Foi mal, estava dando uns retoques finais. Olhe, gostou?
Louis analisou a escultura, era um rosto deformado feito de esparadrapos, pintado com diversas cores de tinta. - Nada mal. Fez sozinha?
- Sim... o que está fazendo?
- Tentando escrever, mas minha mente anda oca.
- Você é bom Louis, se não fosse não teria te escolhido, não desista, ainda vamos dominar o mundo com arte. - Louis sorriu.
- Sim, arte para o povo.
Louis e Elisabeth eram inseparáveis, se completavam, mantinham um no outro a vontade de tentar fazer algo diferente, articulavam projetos, planos, desenhavam, escreviam, moldavam juntos, se ajudavam como podiam. Ambos de caráter reservado, sabiam que o tinham pelo outro era forte, mas não demonstravam tanto.
Foram se arrastando pelo ano letivo juntos, eram uma dupla excluída como muitas por aí, até que em algum determinado momento, Elisabeth tentou algo novo, se permitiu amar, um amor sem barreiras e sem limites, foi um girassol em busca de brilho, mal sabia ela que seu amor era a lua.
Louis não se opôs, não se sentiu no direito de opinar, até se sentiu feliz por ela. Craig, namorado de Elisabeth, era 7 anos mais velho que ela, não terminou o colégio, trabalhava como garçom e dirigia o carro velho do pai por aí. No começo, como todo paixão fresca, foi tudo muito bonito, Louis e Elisabeth ainda se viam, mas ela criava pouco, contava para Louis suas novas experiências, quando convidada para elaborar algum projeto, dizia não estar inspirada, o que soava engraçado para Louis.
O tempo foi passando e Elisabeth se distanciando, Louis só a via com Craig, ele parecia um pouco rude, mas se ele lhe fazia feliz, Louis aceitava. Mas quando a viu debilitada, magra, com marcas de abuso e quando um boato chegou em seus ouvidos de que Elisabeth estaria gravida e abortou, Louis se viu na obrigação de tentar fazer o papel de amigo, de lhe avisar que isso não era saudável, de que sentia falta dos tempos onde só compor era suficiente. Foi falar com ela... foi a ultima vez. Brigaram, Elisabeth o julgou estar contra ela. Desde então, Elisabeth só andava com Craig e mal olhava mais para Louis, ele por sua vez não insistiu em uma reaproximação.
Passado algumas semanas da briga, houve uma festa no colégio, organizado pelo grupo esportivo, basicamente, iriam todas as pessoas que Louis não se identifica, mas quando se está completamente só e ainda não é capaz de associar tudo, há tentativas de se socializar. Louis ficou só na festa, ficou triste e angustiado, viu Elisabeth, percebeu que ela se tornou uma pessoa da qual ele não consiga se comunicar mais. Foi a primeira ponta da solidão total que abraçou Louis.
Apelou pra bebida, Louis nunca foi de beber, mas se sentiu no direito de afogar as mágoas, bebeu até rir e chorar sozinho, bebeu até perder o juízo e cair no chão, no meio do barro e virar piada. Sua cabeça rodava e tudo se misturava com o barulho ensurdecedor da vergonha e dos risos que vinham como flechas, procurou por Elisabeth, a viu, os olhos de Louis clamavam por ajuda, notou que Elisabeth até queria se desprender de tudo e ir até lá, tira-lo dali, mas ela estava com Craig, que estava rindo também, então ela se pôs a rir.
- Perdedores merecem isso. - Foi isso que ouviu dela.
Esse episódio mudou Louis, ele se tornou uma pessoa mais seca, mais amarga, descrente de bons afetos. Louis não teve mais apoio e cedeu, foi salvo pelos irmãos. Uma semana depois da festa, Elisabeth deixou o colégio, foi morar com Craig, nunca mais ouviu falar dela, até que um ano depois...
Lá estava ela, do outro lado da sala, os olhos de Louis lutavam para não envolvê-la em análises, ela estava péssima, muito magra, com manchas pelo corpo, com um olhar opaco, era o mesmo olhar que Louis tinha.
Lile notava todo esse clima pesado.
- O que está havendo? - Perguntou ela.
- É ela. - Disse Louis em baixo tom. - Elisabeth.
- A piranha que te humilhou? - Lile quase levantou da cadeira e seu tom de voz não foi tão baixo assim. Elisabeth a olhou de volta, trocaram farpas.
No intervalo, Louis tentava se assegurar que Lile não fosse conversar com Elisabeth, não gostava nem um pouco da ideia, Robert estava em um canto com Marie, provavelmente discutindo como sempre, vagando entre carícias e reclamações. Em um momento de descuido, viu Lile na cafeteria do colégio, parada atrás de Elisabeth, que comia alguma coisa, Louis se apressou.
- Não se aproxime dele. - Chegou tarde, Lile já havia abordado Elisabeth. Ela se virou devagar e permaneceu com o olhar focado em Lile.
- Do que está falando? Você é a aluna intercambista não é? Não me amole com suas paranoias, não sei por que permitem gente como você aqui no colégio.
- Mal voltou e já está bem informada, futilidade corre rápido.
- Lile! - Louis segurou o pulso de Lile. - Vamos. - Elisabeth olhava Louis e não sabia como reagir, não estava perto dele fazia um ano.
- Por sua maldita causa, Louis tentou se matar, sabia? - Lile se soltou de Louis, Louis bufou de raiva e saiu, não queria ouvir mais nada. - Se não fosse por nós, Louis não estaria mais aqui, você o abandonou, o humilhou. - Elisabeth permaneceu imóvel, tentou não demonstrar espanto, mas falhou, seus olhos corriam e seguiam Louis pelo corredor.
- Isso não é da sua conta garota, você não me conhece. - Elisabeth se levantou com uma expressão triste e foi em direção da saída.
- Não se abandona alguém frágil desse jeito. Ele está com a gente agora, não queremos você por perto. - Elisabeth não respondeu.
No dia seguinte, ela não foi ao colégio, Louis, movido por uma vontade estranha de tentar resolver algo já perdido, tentou se informar aonde ela morava, aonde trabalhava, se estava com Craig ou não, com a ajuda de Robert (já que Lile provavelmente recusaria ajudar) descobriram que ela está morando com uma tia, que está desempregada e que Craig havia morrido de overdose. Louis sentiu medo de que acontecesse a mesma coisa com ela, Elisabeth parecia péssima, já entregava as pontas.
Foi com Robert até a casa aonde supostamente morava, chamaram várias vezes seu nome, ninguém respondia.
- Acha que erramos o endereço? - Perguntou Robert.
- Acho que ela não quer falar comigo.
Quando iam embora, ouviram o barulho de uma janela se abrindo, era Elisabeth.
- O que quer? Acertar as contas? - Ela parecia lutar contra si mesmo.
- Não, quero que acerte contas consigo mesmo... você está sumindo Elisabeth.
Ela parecia segurar o que lá fosse que tinha dentro dos olhos vazios.
- Isso não é da sua conta.
- É só isso que você sabe dizer? Elisabeth, eu morri e voltei, você pode fazer o mesmo, não quero que sejamos amigos novamente, não quero forçar nada, mas quando eu te conheci você era alguém relevante, agora se tornou pó.
- O único pó que existe é o que vou cheirar pra ter que aturar vocês, sumam da minha casa.
Elisabeth não foi no dia seguinte, nem no seguinte, nem no seguinte, Louis saía com os irmãos, mas parte de sua mente estava em Elisabeth, ainda tem um dia seguinte de não comparecimento, mas dessa vez algo substituía a presença dela, um bilhete.
"Prezados alunos, sinto informar-lhes do falecimento de nossa aluna do segundo ano, Elisabeth, nossos pêsames aos amigos, familiares e colegas de sala, foi uma menina criativa e brilhante. - A Direção."
Os alunos passavam por ali, liam, absorviam a mensagem, mas ninguém parecia se importar, Louis leu, fingiu não se importar, mas foi pro banheiro chorar. Elisabeth cedeu, e não tinha ninguém pra trazê-la de volta.
"Mas se você estiver por aí, andando pelo mundo sem parar, ouça essa canção e saiba que o meu coração ainda é o seu lugar."
Um corpo nadando.
Pessoas cinzas, paredes cinzas, tempo cinza
Estou cansado disso
Procuro uma nova perspectiva
Mais que uma parede de ilusões pra ver
Mais do que poeira pra ser.
Procuro uma nova perspectiva
Mais que uma parede de ilusões pra ver
Mais do que poeira pra ser.
Eu acredito, sim eu acredito, meu orgulho se foi
Mas ainda acredito
Mas ainda acredito
Morte, feridas, não consigo lidar, luto em vão
Meu peito está cheio e meu coração batendo no chão.
Eu sei, ainda sei, não há vida com uma alma morta
Meu cérebro está pegando fogo mesmo com meu coração quase parando
Desenho pessoas morrendo em rios
Escrevo cartas de despedida, jogo-as pro vento
Mas não quero isso novamente
A súplica de um corpo nadando em sofrimento.
Não é tão fácil andar por aí prestes a explodir
Quando caio bêbado no chão, preciso de uma mão
Não você me dizendo: "Eu te avisei então"
Tento ver uma nova perspectiva
Ontem tentei ir a outro planeta
Agora penso que posso viajar aqui
Posso trazer meu universo em paralelas e retas
Então afaste-se, não me coloque pra baixo
Já estou lá, não vês? Mas olhando para o céu
Não quero dizer adeus.
Meu peito está cheio e meu coração batendo no chão.
Eu sei, ainda sei, não há vida com uma alma morta
Meu cérebro está pegando fogo mesmo com meu coração quase parando
Desenho pessoas morrendo em rios
Escrevo cartas de despedida, jogo-as pro vento
Mas não quero isso novamente
A súplica de um corpo nadando em sofrimento.
Não é tão fácil andar por aí prestes a explodir
Quando caio bêbado no chão, preciso de uma mão
Não você me dizendo: "Eu te avisei então"
Tento ver uma nova perspectiva
Ontem tentei ir a outro planeta
Agora penso que posso viajar aqui
Posso trazer meu universo em paralelas e retas
Então afaste-se, não me coloque pra baixo
Já estou lá, não vês? Mas olhando para o céu
Não quero dizer adeus.
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