domingo, 10 de janeiro de 2016

Fire (15)

 Nos dias seguintes após o ocorrido, a polícia ainda procurava Tyler, não havia pista alguma sobre seu paradeiro. Lile foi mandada ás pressas para um hospital, felizmente, não se feriu gravemente, exames foram realizados e não acharam nada, psicologicamente era outra história.
 Lile permaneceu em sua casa, sem sair nem para tomar um ar fresco, disse que sentia medo, que tinha pesadelos frequentes de que alguém a perseguia. O que aconteceu afetou todos, Lile parecia abatida e triste, Robert não esboçava um sorriso em nenhum momento, permanecia do lado da irmã o tempo todo, ele conseguiu alguns dias de folga do trabalho para ficar em casa. Louis por sua vez ia para o colégio, anotava tudo que os professores aplicavam para que Lile pudesse acompanhar de casa, assim, nas provas finais ela não ficaria tão perdida. Quando as aulas acabavam, ia correndo visitar os irmãos, quase sempre era a mesma cena, Robert cozinhando algo para Lile, Lile no sofá, coberta e encolhida, assistia televisão.
 Numa dessas idas, Louis tentava conversar mais com eles. Sentou-se ao lado de Lile,
 - Me mata lentamente te ver assim.
 Lile levantou o olhar e suspirou.
 - Me sinto suja... humilhada... não sei se quero mais morar aqui, sabe Louis. - Lile falava enquanto Louis recebia essas palavras como adagas jogadas contra seu peito.
 - Você... quer se mudar? - Louis disse quase sussurrando, temendo que se falasse muito alto, a frase tomasse força e se concretizasse de alguma maneira.
 - Eu estou com medo, ficando paranoica, me sinto desprotegida. - Robert deixa um prato cair no chão, Lile e Louis o olham assustados.
 - Desculpa. - Robert recolheu os cacos e saiu.
 Lile e Louis se entreolharam - Ele se sente culpado, e isso me deixa ainda mais triste, não é culpa dele - Disse Lile, cabisbaixa, Louis a abraçou e beijou sua testa.
 - Não se mude, eu não vou conseguir ficar aqui sem vocês... me levem com vocês então.
 - As coisas não funcionam assim.
 Lile se levantou e foi ao banheiro, demorou um tempo, ficou se olhando no reflexo da água na banheira, seu novo chanel improvisado não agradava muito, sentia muita falta de seus longos cabelos, apesar do cabelo curto não a deixar menos bonita. Talvez para tentar provar a si mesma que não iria se deixar abater, realçou o vermelho, o fogo era baixo, mas ainda queimava.

  Robert estava desolado, não dormia, se afundava em pensamentos e culpas, tinha falhado como irmão, tentava de alguma maneira preencher a cratera que foi aberta em seu peito. A polícia já tinha praticamente desistido de continuar a procura de Tyler, Robert foi atrás de pistas, visitou possíveis conhecidos de Tyler, descobriu telefones, rondou redes sociais, qualquer mínima pista que o levasse ao agressor de sua irmã. Na mesma noite em que Louis foi em sua casa, Robert se olhava no espelho, passou a mãos nos cabelos vermelhos, naquele momento já bem desbotado. Não via mais sentido naquilo, se não era capaz de cumprir uma promessa de proteger sua irmã, não faria sentido continuar a manter uma promessa estética, procurou nas coisas da irmã alguma tinta, achou um castanho escuro, não pensou duas vezes, o fogo havia sido apagado.
 Na manhã seguinte, Lile e Louis o olhavam preocupados.
 - Achei que tínhamos uma promessa - Disse Lile.
 - Não sou bom com promessas.
 - Mas continua lindo - Retrucou ela.
 - As meninas do colégio vão se abrir como flores quando você passar - Louis brincou.
  Robert se limitou a sorrir.
 - Não me esperem no final da aula, tenho alguns assuntos para resolver.
 - Nunca se esqueça. - Lile disse.
 - De que?
 - Que amamos você.

 Enquanto caminhava por um parque e se corroía em pensamentos, Robert viu do outro lado do parque um sujeito que parecia ser familiar, resolveu segui-lo por alguns instantes, quanto mais caminhava, mas Robert ficava ansioso, porque o caminho que ele queria que o rapaz percorresse estava sendo feito, mais um pouco, Robert teria sua pista. Bingo.
 O rapaz entrou na casa onde dias atrás, Louis e Robert haviam ido com a polícia para buscar o paradeiro de Tyler e seu comparsa. Uma onda de ódio subiu para a cabeça de Robert, estava a um passo de invadir a casa e matar o sujeito, mas isso não o levaria para o principal alvo, Tyler. Decidiu esperar mais um pouco, sentou num bar que havia na esquina da casa do rapaz, depois de quase uma hora de espera, o mesmo sujeito saiu, dessa vez, vindo na direção de Robert, que usou um jornal para se camuflar, agora que tinha o cabelo escuro, passava mais despercebido pela multidão, assim, voltou a segui-lo.
 Depois de quase 20 minutos caminhando, o rapaz se aproximava de um lugar mais ermo, um complexo de quitinetes e barracos improvisados. Quando mal podia esperar, o rapaz se viu preso contra a parede, Robert o empurrava com o braço, fazia força contra seu pescoço e usava de sua vantagem em altura para empurra-lo para cima contra a parede, o rapaz quase balançava as pernas no ar e já parecia um tomate de tão vermelho.
 - ... Não ten... tenho nada. (Tosse) Pra você ro... roubar, por fa... favor. (Tosse) - Robert não tinha expressão nenhuma, apenas fitava o jovem que estava sufocando contra a parede, mil coisas vinham em sua mente, se quisesse, podia matá-lo bem ali.
 - Talvez você não morra hoje, talvez você só saia bem machucado, mas só talvez.
 - Quem é... quem é você? (Tosse) Não cons... consigo respirar.
 - Você não me conhece... mas conhece minha irmã. - Nesse mesmo momento, o rapaz arregalou os olhos, se sacudia mais e mais, como se clamasse por algo.
 - Lembrou dela? Lógico que sim... uma menina como ela não se esquece, não é mesmo? - Robert levantou o menino com os dois braços e o jogou no chão, ele por sua vez tossia muito, tentou ensaiar uma fuga mas tropeçou, Robert pisou em suas costas, como se matasse uma barata.
 - Não terminei com você ainda. - Robert segurou os braços do sujeito por trás, apoiou seus joelhos nas costas dele, fazendo com que o mesmo se contorcesse de dor. - Não foi assim que vocês ficaram em cima da minha irmã? - Robert tirou do bolso um canivete, que usava para acampar, era a primeira vez que ameaçava alguém com ele.
 - Vou te dar as suas opções, vejamos... opção um: você me diz onde está seu amiguinho, e talvez eu te bata só um pouco, ou opção dois: você fica de bico fechado, mas aí vai ficar de bico fechado pra sempre, vou arrancar todos seus dentes, até conseguir fazer um colar novo com eles, vou perfurar você com esse canivete, cavar um buraco no seu estomago com isso até eu conseguir ver o chão... cara... - Dizia ele rindo - ... eu tô muito puto.
 - Por favor cara... a gente só queria dar um susto nela....
 - CALABOCA! - Robert levanta e acerta um chute no rosto do rapaz. - Um susto? Vocês estupraram minha irmã, acho que vou ficar com a opção dois mesmo...
 - Não... Por fav... por favor - Dizia o jovem, que segurava o nariz sangrando. Eu te digo onde ele está.
...
 - Você não sabe pra onde vou, você não me conhece, se eu suspeitar que você contou pra alguém, te caço até te matar. - Robert o empurrou contra uma pilha de caixas e deu as costas.
 Robert saiu de lá outra pessoa, nunca havia ameaçado alguém daquela maneira, seu ódio interior havia sido liberado, bufava, andava a passos largos. Descobriu onde Tyler estava, se escondia numa cidade próxima, cerca de 50 minutos dali, sem pensar, foi direto para a rodoviária e pegou o ônibus, no caminho, ia pensando em todas as possibilidades, o que iria fazer com Tyler? Daria uma surra nele? Só isso? O entregaria para a polícia? Só isso?
 Assim que desceu do ônibus, Robert tomou seu caminho, já havia estado ali antes, não estava completamente perdido. Seguindo as informações do comparsa, Tyler vivia num sótão improvisado na casa de seu tio, provavelmente a família estava acobertando a situação. Não demorou muito para encontrar a casa, seu coração batia na garganta, a adrenalina escorria por sua pele e evaporava no ar, conseguiu notar alguma movimentação no lugar, mas de gente velha, possivelmente os tios. Como da ultima vez, esperou sentado fingido que tomava algo, mas não perdia um segundo de vista da casa, após longa hora de espera, um carro saiu, pela janela, viu as mesmas pessoas da casa no carro, um casal de meia idade.
 Estava em frente a porta da casa, respirava fundo, tremia de raiva, tristeza e frustração. Nem tentou bater na porta, não iria abrir, pulou uma janela que estava destrancada e entrou. Se viu no meio da sala, com muita cautela, procurava algum sótão, qualquer vestígio de esconderijo, até que, após arrastar um dos sofás, achou uma entrada. Finalmente, ele estava ali, ou pelo menos perto, imaginou que Tyler, naquela altura, não estava tão cauteloso assim, afinal, quase uma semana se passou e nenhuma pista foi encontrada. Bateu na porta do sótão, esperando que alguém viesse responder.
~toc toc~
Segundos depois...
 - Tio?
 Robert quis vomitar, era Tyler, estava a uma porta do agressor de sua irmã, não sabia o que fazer, se ligava para a polícia, ou destruía aquela porta e matava Tyler ali mesmo, enquanto pensava, viu a porta se levantar, Robert, que parecia ter engolido o próprio coração, foi para o outro lado, a porta ficou semi aberta por algum tempo, quando ia sendo fechada de novo, Robert a puxou para cima toda força que tinha, ouviu que alguém havia caído lá em baixo, sem perder tempo, com um pulo entrou no sótão.

 Tyler estava no chão, encurralado, se afastava enquanto tentava se levantar, sem pestanejar, correu em direção a janela, Robert foi mais rápido, o agarrou pela blusa e o jogou contra a parede.
 - Agora somos só eu e você. - Disse Robert.
 Tyler por sua vez, não se intimidou, partiu pra cima de Robert, o empurrou contra a parede, mas a fúria de um irmão machucado buscando vingança é inimaginável, ninguém pararia Robert naquele momento, quando percebeu, estava no lado oposto da situação novamente, imobilizava Tyler, enquanto descarregava alguns socos guardados a muito tempo contra o mesmo. Segurando Tyler pela gola da blusa, o carregou até a janela, jogando a cabeça de Tyler contra o vidro, quebrando-a por completo, depois o jogou no canto do quarto, Tyler estava tonto, ensanguentado, desorientado, pôs se a rir.
 - Era isso que você queria? Vingar sua irmã me dando uma surra? Conseguiu grandão... mas ela continua lá, careca e estuprada - Tyler ria como se estivesse no paraíso, Robert não esboçava nenhuma reação.
 - Você tem razão Tyler, você humilhou minha irmã, ela continua lá, com medo, e eu vim até aqui, te cacei por todos os lugares... eu sempre clamei por justiça, sempre fui defensor da justiça... você merecia ser preso, mas está aqui, e provavelmente sua família vai salvar sua pele como sempre faz.
 - Terminou seu teatrinho? Quer me bater mais? Vá em frente, mas não espere ouvir desculpas... foderia ela de novo se pudesse - Tyler sorria desafiadoramente.
 - Não se anime, se a justiça do homem não vem até você...
 - A Deus virá - Tyler completou rindo.
...
 - A minha virá - Nesse momento, Robert tirou da cintura um facão que havia pego da cozinha para se defender/atacar. Tyler o olhava incrédulo.
 - É um blefe... você não tem coragem de matar ninguém.
 - Você mexeu com a pessoa errada, você me fez descumprir a promessa que fiz pros nossos pais de que iria protegê-la... você estuprou minha irmã, acha mesmo que estou blefando?
 Tyler agora parecia nervoso, estava encurralado como um rato, depois de encarar Robert por alguns segundos, correu para a janela para tentar pular, Robert correu em sua direção e cravou a faca nas costas de Tyler, logo em seguida, tampou a boca dele e o jogou pra dentro novamente.
 - Eu disse que não era um blefe... - Dizia Robert enquanto tampava a boca de Tyler, que se contorcia de dor - Você não tem salvação - Retirou a faca, podia sentir a dor dele, levantou e olhava o agressor sangrar, havia terror nos olhos de Tyler.
 - Por favor cara... você já teve o que quis, não me deixa sangrar assim, chama uma ambulância, não me mata...
 - O que você disse? - Perguntou Robert.
 - Não me mata. - Respondeu Tyler, que já chorava a esse ponto.
 - Me pergunto se minha irmã fez o mesmo pedido pra você, enquanto você a estuprava, batia nela, e cortava seu cabelo.
 - Cara, me desculpa, eu tô arrependido,,, - Tyler olhou em volta de si mesmo, uma poça de sangue havia se formado, entrou em desespero - Cara! Por favor, me ajuda...

xx

 O fim da tarde dava o ar da graça, Lile e Louis jantavam na casa dos irmãos, viram Robert chegar de longe, Louis foi em sua direção, Lile se sentia aliviada.
 - Por onde você andou? - Perguntou Louis.
 Robert passou direto por ele, entrou em casa, viu sua irmã, beijou sua testa e entrou no banheiro. Lá, Robert chorou tudo que não havia chorado nesses últimos dias. Louis ia no banheiro mas Lile o impediu.
 - Deixa ele, Louis, deixa ele chorar, eu vou conversar com ele depois, vamos terminar de jantar.
 Uma hora depois, Robert apareceu de banho tomado, estava pálido, com o olhar de quem havia presenciado algo terrível, ou de quem fez algo terrível.
 - Robert - Lile se aproximou, o abraçou. - Por onde esteve? Senti sua falta.
 - Fui tomar um ar, acabei me empolgando e perdi a hora.
 - Como se sente? - Perguntou ela, ainda abraçada a ele.
 - Vamos superar tudo isso minha irmã, como sempre fizemos.
 Louis olhava de longe, Robert o chamou com uma mão enquanto abraçava Lile, Louis se aproximou e Robert o abraçou também - Tudo vai ficar bem... eu prometo.

 Passava da meia noite, quando Lile foi dormir, Robert convidou Louis para fumar um na escada do prédio, Precisava estar chapado para contar esse tipo de coisa para Louis, e queria que Louis estivesse chapado quando recebesse a informação, temia que Louis ficasse com medo e se afastasse.
 - Preciso te contar uma coisa - Disse Robert.
 - O que?
 - Você confia em mim?
 - Claro... plenamente.
 - Louis - Robert suspirou - Eu achei o Tyler.
 Louis se espantou, fitou Robert por alguns segundos.
 - Como? Aonde? Já contou pra polícia? Por que só me conta isso agora? Contou pra Lile? Esse cara tem que pagar por tudo que fez.
 - Calma... ele não pode ser preso mais.
 - Do que você tá falando? A família dele não pode acobertar tudo que ele faz, temos provas contra ele Robert.
 - Louis, eu... eu não faço esse tipo de coisa, eu só não achei outra maneira, e meu coração apertava de raiva quando fiquei frente a frente com ele - Robert segurou a mão de Louis.
 - O que você fez?
 - Eu matei ele, Louis, eu matei o Tyler.
 Louis ficou sem resposta, sabia que Robert não brincaria com algo assim, apenas olhava para Robert.
 - Eu matei ele a facadas e me livrei do corpo.
 - Você... matou ele? Robert, isso é sério? - Louis parecia engolir as palavras.
 - Preciso que você me prometa que não vai contar isso pra ninguém, nem pra Lile, esse vai ser nosso segredo, porque eu confio em você como ninguém.
 - Mas vão achar você Rob, vão prender você, só o fato dele aparecer morto, as primeiras pessoas suspeitas serão eu e você.
 - Eu preciso que você me prometa.
 - Robert! Meu Deus do céu... e agora? Por que fez isso? Acha que isso é justiça?
 - Eu eliminei qualquer tipo de pista, usei luvas, coloquei ele ao meu lado em um dos carros da família, o levei até o lugar mais distante da cidadezinha onde estava escondido, e o furei até meu pulso doer... coloquei ele de volta no carro, quando o acharem, vão pensar que foi um assalto, roubei algumas coisas da casa e do carro, depois as queimei junto com as roupas que usei e deixei o carro cerca de 1 km dali... nada tem ligação comigo, talvez sejamos chamados pra depor, só isso... Louis, eu me sinto horrível, eu matei uma pessoa...
 Louis estava sem reação nenhuma, via Robert segurar o choro, se fosse uma piada seria de muito mal gosto, mas sabia que não era, apenas o abraçou. Não conseguia pensar em nada, resolveu no fim das contas que deveria apoiar seu amigo.
 - Vamos... esquecer tudo isso, ok? - Disse Louis - Nada aconteceu, a Lile está bem, vamos todos ir bem nas provas finais, você vai entrar pra uma faculdade, vamos ser muito felizes juntos ainda...
 - Você promete? Não vai contar nada pra Lile... pra ninguém. - Perguntou Robert.
 Louis suspirou.

 - Prometo...

 Pacto de sangue.

Nenhum comentário:

Postar um comentário