A noite se aproximava, Louis havia voltado para casa e arrumava suas coisas, pensava no beijo que deu em Lile e de como deveria ser daqui pra frente, se ela era do tipo que se apegava ou não, não parecia. Se perguntava se Robert se importava mesmo ou não, e se iria sentir algo, já que não beijava alguém a um bom tempo. Seu pai o observava enquanto ele procurava algumas coisas.
- Me lembro de quando íamos acampar com sua mãe nas montanhas. Silêncio.
- Fico feliz em ter arrumado novos amigos, espero que esqueça Elisabeth.
Louis deixou cair a lanterna que tinha encontrado.
- Louis?
- Não falamos sobre a mamãe, não falamos de Elisabeth.
Seu pai suspirou, deu meia volta e fechou a porta.
Indo para a floresta, Robert, Lile e Louis já acendiam um beck, combinavam jogos e cantavam The Smiths, banda favorita de Lile.
Lile e Louis esperaram na esquina da entrada improvisada por Robert, enquanto ele dava a volta pelo quarteirão para verificar se policiais estavam rondando. Adentraram o local por uma trilha fechada, cortando alguns galhos que obstruiam a passagem. Chegaram em lugar marcado e aberto, como uma cúpula no meio da floresta. Haviam mesas e bancos improvisados de troncos, todos feitos por Robert, algumas escritas nas madeiras, provavelmente feitas por outros grupos que passaram por ali antes. Estenderam um pano no chão, deixaram comida, bebida e as drogas ali, Robert montava a barraca enquanto Lile fazia a fogueira, Louis se sentia um pouco inútil.
Assim que terminaram os afazeres, se puseram a beber e fumar, Louis contou algumas coisas que não havia contado e nem pensava contar para ninguém, coisas sobre sua mãe, Elisabeth, sobre si mesmo. Ouviu de Lile e Robert sobre seus passados, do que pretendem pro futuro.
Com o efeito do álcool e da chapação, o trio se sentia mais livre pra tudo, Lile teve a ideia de jogar uma espécie de quiz, onde quem errasse perderia uma peça de roupa, o tema era de livre escolha, com o frio que fazia, ninguém se arriscava a errar. Giravam a garrafa, a base pergunta pro bico. Lile > Robert.
- Qual a capital da Mongólia?
- Que?
- Ulan Bator, tira uma peça de roupa. Louis ria. Robert fez cara feia e tirou os sapatos.
Louis > Lile.
Louis pensou um pouco, olhou para Robert e sorriu.
- Quantas especies de borboletas podem ser encontradas na floresta amazônica?
- Isso é um complô? Perguntou Lile.
- Sabe?
Lile tentou recordar algo que Robert havia lhe explicado, mas se limitou a chutar um palpite.
- 300... Sei lá.
- 1.800.
Lile suspirou, tirou a blusa de cara. Louis olhou para outro lado, os cabelos vermelhos de Lile pendiam sobre seu pálido ombro.
Louis > Robert.
- Em que ano foi inaugurada a torre Eiffel? Robert sorriu.
- 1889. Você consegue elaborar perguntas melhores. Tira a blusa.
- Mas eu não errei nenhuma pergunta. Protestou Louis.
- Bebe um pouco, fuma mais e tira a blusa. Lile apoiava. Louis que já sentia um pouco de frio, tomou coragem e o fez.
Lile > Robert.
- Essa garrafa está comprada, não é possível. Lile ria.
- Quem era o arquiteto na construção da torre Eiffel?
Robert fitou o vazio, parecia buscar a resposta.
- Droga!... Não sei.
- Stephen...
- Sauvestre. Completou Robert.
- Tarde demais, irmão.
Robert suspirou, tirou a blusa e a regata. Louis não pode deixar de notar, as costas de Robert tinham varias pintas, algumas no peito, se sentia estranho por ficar olhando e disfarçou.
- Olhar não tira pedaço Louis. Brincou Lile.
- Eu não... Esquece.
Se cansaram do jogo, Louis permanecera com uma camiseta e se cobria com um cobertor, tinha acertado todas. Lile só errou aquela, estava de sutiã e também se cobrindo, já Robert errou todas, usava só uma cueca samba-canção e bebia para esquentar, não parecia se preocupar. Robert notou que a fogueira estava fraca e não havia muita lenha, se adentrou na floresta a procura de alimento pra fogueira. Lile e Louis ficaram conversando, se beijaram, riam, não notaram a demora de Robert. Até Lile se dar conta.
- Louis... Rob está demorando muito.
- Tem razão, vou buscá-lo. Fique aqui.
Louis tomou a mesma direção que Robert, após alguns minutos de caminhada, o viu escorado em uma árvore, estava de cabeça baixa, mais pálido que o normal. O amontoado de galhos que havia recolhido estava em seus pés. Louis foi ao seu encontro às pressas.
- Robert? (Colocou a mão em seu rosto) Você está parecendo um iceberg. O que foi?
- Eu sou mesmo um idiota, pequeno Louis. Ele tossia e limpava o rosto, parecia chorar mas não queria demonstrar.
- O que aconteceu Robert? Você está bêbado? Robert riu, passou a mão no rosto de Louis.
- Acho que sim.
- Vamos voltar pro acampamento, você precisa se esquentar.
- Não! Lile não pode me ver assim.
- Ela é sua irmã, vai entender.
- Você não entende... Louis... Eu amo ela, e ela não me ama.
- De quem você está falando?
- Como de quem? Da Marie. Ela me deu um fora, depois de tudo, disse que eu não tenho futuro, e que ela quer algo estável, mas eu tenho planos, não sou um desses sem futuro, Louis.
- Não, não, não... Você não é sem futuro, ela está errada. Aposto que ela vai perceber e vai correr atrás de você novamente.
- Eu gosto dela Louis, como nunca gostei de ninguém. Eu quero ser pra ela o que os outros não foram, eu sou essa pessoa, eu tenho que cuidar dela, de Lile...
Louis não sabia mais o que fazer, pegou a lenha do chão e com o outro braço serviu de apoio para Robert, tarefa árdua.
- Escuta, se você não quer que Lile te veja assim, enxuga as lágrimas. Você está bêbado, quando você ficar normal, eu vou te contar e você vai dar risada. Eu sei porque eu e Elisabeth fazíamos isso o tempo todo.
- Quem é Elisabeth? Robert perguntou enquanto tiritava. Louis fechou os olhos e abraçou Robert.
- Vai ficar tudo bem, Robert.
Quando voltaram, Lile veio ao encontro de Robert.
- Quer me matar do coração? Achei que tinham te raptado.
- Estou bem. Lile o fitou. Colocou a mão em seu rosto. Sua expressão mudou na hora.
- O que foi Rob?
- Ele está bêbado, acho que se perdeu. Não é nada demais. Lile os olhou desconfiada, não gostava de sentir que lhe escapava algo na história. Pegou uma coberta e cobriu Robert, sentaram em roda perto da nova fogueira, lhe ofereceu comida e café. Robert pôs seu rosto no ombro de Lile e ali ficou. Lile olhava para Louis, como se o interrogasse.