A noite havia dado o ar da graça, mas a tristeza ali já reinava. Louis fitava a parede do quarto e tinha vontade de pular da janela de um 8° andar de tanta angústia. Toda essa onda de apatia foi interrompida pelo toque da campainha. Esperou que seu pai atendesse, não queria ver parentes hoje.
- Louis. Você tem visita. Seu pai alertou.
Louis respirou fundo, desceu as escadas quase se arrastando, mas logo tudo mudou quando viu quem era. A dupla em chamas. Robert tinha alguns curativos na cara e seu olho estava completamente roxo, mas sorria, Lile, meiga como sempre servia de apoio.
- Viemos agradecer Louis por ter nos ajudado hoje, se ele não tivesse pedido apoio, talvez as coisas teriam sido bem piores. Robert dizia enquanto olhava para um Louis envergonhado.
- Isso mesmo, gostaríamos de saber se o senhor deixa ele ir a nossa casa agora, o trazemos de volta em segurança. Lile parecia convicta. O pai de Louis olhou para trás, Louis sorriu encabulado.
- Por mim tudo bem.
Lile sorriu, Robert também, notou que ao sorrirem, Lile sempre mostra os dentes, Robert não. Pequenos detalhes que começava a prestar atenção. No caminho para a casa dos irmãos, conversavam:
- Perdão por ter fugido, entrei em pânico.
- Falávamos sério quando disse que somos gratos, você chamou o diretor, foi melhor do que ter ido brigar conosco. Lile sorriu.
Louis sabia que não foi bem assim, sorriu sem graça e coçou a cabeça. Mas se sentia melhor com os dois por perto.
- Vamos pedir uma pizza lá em casa, assim você aproveita e conhece o lugar, espero que você vá mais vezes. Robert passou a braço pelo pescoço de Louis e agora usava os dois como apoio. Riam.
- Daqui algum tempo essa mancha roxa vai combinar com seu cabelo, Rob. Lile ria.
O lugar onde moravam era simples, porém bem arrumado, era um conjunto de pequenos cômodos que ficava a algumas quadras do colégio mas na direção oposta de Louis. Moravam no segundo andar desse conjunto, as paredes estavam um pouco mofadas e precisavam de uma pintura nova. Quando entrou no pequeno apartamento, a visão era outra. Parecia novo. Robert havia pintado as paredes recentemente, tinham alguns moveis velhos, dois sofás convidativos marrons de couro. Para a direita, o quarto que Lile e Robert dividiam, também para a direita, a cozinha, em frente, uma porta que provavelmente daria acesso ao banheiro. As paredes possuíam alguns quadros, fotos de família, e uma coleção invejável de borboletas, das mais coloridas Amadrias, até as mais cintilantes Morphos. Grandes, pequenas, algumas cinzas, outras brancas, outras com incontáveis cores, provavelmente borboletas que só aparecem na Romênia ou região. Louis parecia encantado com tudo.
- Gostou? Perguntou Robert.
- São suas?
- Sim, gosto muito delas, vivas e mortas, mas as que estão aí já encontrei mortas, não pense que sou assassino de borboletas. Riu.
- São lindas.
Lile voltou segurando 3 cervejas, a pizza já estava a caminho. Puseram almofadas no chão e discutiram como seria o acampamento. Seria no dia seguinte, de noite, dormiriam lá mesmo, comida, barraca, álcool, tudo resolvido.
- E maconha? Perguntou Lile.
- Amanhã eu consigo com o John. Robert respondeu.
Louis estava ansioso, apenas sorria e concordava com tudo.
- Já fumou alguma vez?
- Não.
- Não é grande coisa, talvez te faça rir. Lile arrumou a franja de Louis.
- Eu tô precisando mesmo rir. Louis fitou e teto e suspirou, Robert e Lile trocaram olhares.
No dia combinado, Lile e Louis foram direto para a casa dos irmãos, Louis ofereceu ajuda para arrumar tudo, já que Robert estava na livraria. Enquanto Louis separava utilidades necessárias para um acampamento de um baú velho, Lile preparava um café. Depois de tudo arrumado, Lile e Louis se puseram a ver fotos de infância e adolescência dos irmãos. Fotos de um lugar aparentemente afastado da área urbana, cavalos, sorrisos e caretas. Fotos não tão antigas também, onde Lile e Robert tinham o cabelo escuro, quase irreconhecíveis.
- Esse é Rob com a ex dele. Prefiro ela do que aquela loira azeda da Marie. Louis riu.
- Essa sou eu na escola de lá, um festival de dança.
- Que bonita. Louis disse sem filtros, apenas folheando o álbum. Lile sorriu.
- Sou mesmo bonita?
Louis tirou os olhos do álbum e colocou-os em Lile.
- Por que a pergunta?
- As meninas da nossa turma não me acham.
- Elas tem inveja. Louis respondeu sereno, Lile parecia desabrochar com o elogio. Ficaram em silêncio por algum tempo.
- Já beijou alguma garota? Lile perguntou. Louis corou.
- Algumas... Por que?
- E garotos? Lile riu. Louis parecia um pimentão agora.
- N... Não.
Lile gargalhou. Louis sorria envergonhado. Depois de mais algum tempo em silêncio, Lile colocou sua mão sobre a mão de Louis.
- Eu gosto de você, Louis.
Louis a fitava um pouco sem fôlego, tentou colecionar as palavras, que agora pareciam flutuar de sua mente.
- Também gosto de você.
Lile sorriu, se aproximou de Louis, acariciou seu rosto e o beijou, Louis, um pouco anestesiado, correspondeu, seu coração pulsava sem controle, parecia um primeiro beijo. Louis a interrompeu subitamente.
- E se Robert nos vir?
- Qual o problema?
- Ele é seu irmão.
- Eu sei disso... Louis, está tudo bem, eu e Robert não temos segredos um com o outro, nem censuras. Louis sorriu sem graça, dessa vez foi ele que a beijou.
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