Durkheim define três tipos de suicídio: O altruísta, o anômico e o egoísta. O altruísta se caracteriza por um suicídio em favor de um grupo, o indivíduo se caracteriza tanto com um grupo, com seus ideais, que morre por ele. Terroristas, atentados... O World Trade Center foi altruísta. O anômico vale para as crises, pessoas sem motivação, desempregadas, que não vão conseguir manter suas funções, quando o piano em suas costas se torna tão pesado que esmigalha seus ossos. O egoísta vale para indivíduos que; ao contrário do altruístas, não se identificam em nenhum grupo, são deslocados, sozinhos, não interagem, a sociedade capitalista esconde almas em becos, esses becos são tão escuros que não é possível ver quem está lá dentro, quem está nesse beco tem medo, e parte.
Louis é egoísta.
Conversinhas sem sentido, conselhos robóticos:
- Como estão as namoradas, Louis? Ah, é só uma questão de tempo, uma fase como vocês falam, não é? Só tem que esperar um pouco. Tem estudado bastante? Você tem que se dedicar muito, seu pai se esforça muito por você. Você sente falta da sua mãe? Sinto tanto por você querido, você tem que rezar todos os dias por ela, ela te olha lá de cima sabia? Tem ido a igreja? Como não? Como quer que Deus lembre de você se você não lembra dele? Como você está magro, tem se alimentado direito? Você tem que visitar nossa cidade algum dia desses, eu sei que você passa mal com calor excessivo, oh... sempre foi doentinho. O que pretende fazer depois da escola? Não saber é normal, mas não demore muito, não queremos alguém não estudando em nossa família haha, já pensou em ser doutor? Artista? O que você vai fazer? Viver de desenhos e esculturas? Acha mesmo que isso dá futuro queri... *Ouve-se um ruído de tiro*.
Louis, Lile e Robert, se aproximaram bastante nos últimos dias, os irmãos eram a fuga de Louis. Por um momento Louis se sentiu feliz, mas logo o sentimento deu lugar a culpa.
Planejaram acampar, há um bosque em uma área um pouco afastada que Lile e Robert descobriram desbravando a cidade. O plano era ir à noite, depois da aula, e depois do trabalho de Robert. Ele trabalhava numa livraria.
Pela manhã, estavam sentados os três no pátio do colégio.
- Vamos para a mata, hoje tem o festival no centro da cidade, o policiamento vai ficar todo concentrado naquela área. – Ela profetizava enquanto enrolava uma mecha do cabelo com um dedo.
- Não vamos, olhe para cima, há risco de chuva, você não vai querer ficar dentro da mata com chuva. – Robert apontava para cima.
- Same Jeans! – Um garoto gritou apontando e rindo para o Robert, ele estava acompanhado de mais 3 rapazes, todos riam. A piadinha referia-se ao fato do Robert usar sempre jeans, nesse dia ele usava o mesmo jeans rasgado que usava quando conheceu Louis, dá a impressão que só tem essa calça, mas ele gosta de jeans mesmo.
Robert olhou de relance para o lado e fez uma cara feia, Lile insistia, sem perceber muita coisa: - Nós vamos, não é Louis?
- Same Jeans, pobretão! – Dessa vez Robert virou o rosto e os encarou, suas sobrancelhas quase se encontraram numa franzida de testa, um dos caras encostados na parede deu um passo à frente, ele voltou o rosto para Lile, suspirou e falou pausadamente: - Não vamos.
As risadas continuavam, Lile parecia não perceber: - Você não manda em mim, a gente vai ir sim. Robert fechou os olhos, pegou no pulso da mão em que Lile enrolava o cabelo e abaixou até a mesa com certa força, ela o olhou incrédula, ele parecia bem irritado, falou ainda mais pausadamente: - Ninguém, vai. Louis tentava dizer alguma coisa mas não encontrava brecha.
- Que tal fazermos algum tipo de doação para ele e a família hein? – O deboche continuava, dessa vez Lile percebeu, olhou para o Robert e entendeu tudo em um segundo, levantou na hora: - Deixem-nos em paz ou eu vou chamar o diretor agora mesmo!
- Maldita hora em que deixaram esse tipo de gente entrar na escola. Não acreditava no que acabara de ouvir, Lile colocou a mão na boca, alguém do grupo proferiu esse absurdo, Robert perdeu o último pingo de paciência que restara, levantou e foi em direção do grupo, Louis tentou impedir, ficou em sua frente segurando sua camisa:
- Não faça nada que te prejudique aqui, é isso que eles querem! – Não adiantou muita coisa, ele só esticou o braço e jogou Louis pra trás, caiu sentado: - Robert, NÃO!
Ele partiu para cima dos caras, acertou um murro na cara do primeiro, ia partir pro segundo mas os outros três o seguraram pelo braço, o que tomou um murro já levantava e partia pra cima do Robert, o acertou em cheio no rosto, punhos fechados. Lile gritou, tirou seus sapatos e partiu para cima deles também, batia neles com sapatos e com as mãos, um dos caras a cercou, ela se defendia com os pés. Uma multidão ficou em volta observando e incentivando a briga, Louis ficou em pânico, não sabia o que fazer, se sentia impotente contra tudo aquilo, Robert continuava a apanhar, ele não parecia bem mesmo, ninguém vinha ajudar, ninguém vinha prestar algum tipo de apoio, Louis queria correr dali, mas estava petrificado, ouviu a voz de Lile, gritando: - CHAME ALGUÉM, LOUIS, VÁ CHAMAR O DIRETOR!
Saiu correndo, queria chorar, não sabia que atitude tomar, não foi em direção à diretoria, queria ir embora, se sentia culpado e fraco, por sorte, encontrou o diretor no corredor em que ele estava, perdeu o fôlego, ele o viu, pareceu perceber que algo estava errado.
- Louis, como vai? Problemas? Sei que você tem passado por tempos um tanto compli...
- VAI AJUDAR ELES, ESTÃO MANTADO ELE. – Não percebeu, mas falou alto o suficiente para que todos ouvissem, o olhavam, Louis segurava o terno do diretor com força.
- Calma meu jovem, quem está matando quem?
- Você não me ouviu? CHAMA ALGUÉM! Por que vocês não fazem nada? Vocês nunca fazem nada... Saiu correndo, sentia falta de ar, a cabeça parecia querer explodir, foi em direção ao portão de saída mas estava trancado, só abriria quando o horário final chegasse, mas ainda faltava o 2° tempo de aula, correu para a garagem, se escondeu lá.
Tudo estava voltando, sentia raiva da escola, desses vermes, se odiava por não ter feito nada e corrido, só pensava no Robert e na Lile, a culpa o corroía, um peso de toneladas voltava a cair sobre suas costas, se perguntava por que não tinha conseguido acabar com sua vida da primeira vez.
Ligou para o seu pai, atropelava as palavras, não conseguia explicar o que estava acontecendo, pediu para que ele o buscasse, a culpa aumentava, ele tinha acabado de voltar para o trabalho depois de muita insistência, e no dia seguinte Louis já o impedia de trabalhar, se sentia um transtorno para todo mundo. Seu pai perguntou o que estava acontecendo, não conseguiu responder, só disse para ele vir logo.
Sua consciência pesava, reuniu toda coragem necessária e saiu da garagem, assim que chegou perto do pátio, viu uma ambulância de longe, as piores sensações vieram em sua mente, queria vomitar. Se aproximou, um círculo de pessoas impedia a visão, olhou para o lado, o diretor conversava ao celular, parecia preocupado. Enfiou seus cotovelos no meio da multidão para poder adentrar, quando finalmente conseguiu, viu Lile de costas, ela parecia acariciar o rosto de alguém, não dava pra ver mas com certeza era o Robert, ela tampava a visão principal de trás da ambulância, Louis se aproximou devagar, ela olhou para trás, o viu e fez uma expressão triste, uma mão pousou em sua cintura e a empurrou de leve, Robert também o viu. Seu cabelo vermelho se confundia com o sangue em seu rosto, seu nariz, boca, estavam ensanguentados, o olho direito estava inchado, ficaria roxo em breve, segurava seu estômago com uma mão, ele não fez nenhuma expressão.
Lile limpava seu rosto enquanto um médico o examinava, aquele processo parecia dolorido, mas ele não parecia se importar, Louis não teve coragem de se aproximar, pediu desculpa dali mesmo, Robert sorriu com dificuldade, levantou um braço, parecia o chamar.
Louis sentiu uma mão puxando seu braço, a primeira reação foi de susto, tentou se livrar daquilo. Era seu pai.
- Louis, calma, sou eu, o que está acontecendo?
- Eu tenho que falar com meu amigo...
- Você está bem? O que é essa ambulância? – Olhou em volta, os caras que iniciaram a briga não estavam mais ali, o diretor se aproximava.
- Vamos pra casa, não me sinto muito bem.
Louis sentia vontade de chorar no carro, seu pai não sabia o que falar, apenas questionava o ocorrido.
- Eles bateram nos meus amigos... E eu fugi, sou um covarde.
- Você fez bem Louis, não se deve meter nisso.
- Você nunca quis defender ou brigar por alguém que você gosta?
Silêncio.
- Eles são diferentes, pai.
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