quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fire (2)

- Gostaria que soubesse que pode contar conosco, Louis.
O professor disse por ele e pelos alunos, que provavelmente se viam mal representados. "Você mal gosta do seu trabalho", pensava Louis. Aquele dia parecia uma tortura, só queria sair de lá, nem em casa se sentia confortável, as feições de seu pai, que andava de lá pra cá pela casa o deixava triste, começava a acreditar que tinha feito coisa errada, mas sua convicção de que ainda não valia a pena tentar era forte.

Louis saia do colégio quando Lile interrompeu seu passo. Usava um vestido simples com sapatos combinando, um laço decorava seus cabelos quentes, Louis a contemplava enquanto ela o olhava intrigado.
- Recebeu o presente?
- Sim, foi muito legal de sua parte mas...
- Vamos para a cafeteria? Descobri que eles fazem um capuccino delicioso, você tem cara de gostar disso.
Louis não respondeu, ficou olhando para seu sorriso convidativo por alguns segundos, Lile se cansou e o puxou pela mão.

Enquanto esperavam pelo café do lado de fora do estabelecimento e fumavam um cigarro barato, Louis e Lile conversavam sobre suas vidas, em nenhum momento o episódio sobre o suicídio foi mencionado. Lile contou que deixou sua familia na Romênia para estudar, não sabe ainda o que cursar quando terminar o ensino médio, e que além dela, Robert, seu irmão, veio com ela. Ele tem 17 anos e cursa o ultimo ano do ensino médio. Os chamam de gêmeos, por terem cabelos vermelhos e serem inseparáveis. Lile falava de Robert com muito entusiasmo, notava-se a afeição. Louis contou que sua mãe era artista plástica, e que ele gostava de desenhar e escrever, fazia muito isso com Elisabeth. Contou também que seu pai trabalhava em um escritório e que quase não o via.

Após o café, Louis se despediu de Lile alegando cansaço, inesperadamente Lile o abraçou.
- Que bom que ainda está aqui.
Louis a olhou no fundo dos seus olhos verdes.
- Por que?
- Porque seria um desperdício.
Louis a fitava. Suspirou.
- O mundo inteiro fede. A vizinhança fede, a escola fede, meu quarto fede...
- Você tem um cheiro de perfume amadeirado.
Louis não tinha mais resposta, se limitou a sorrir.

Quando chegou em casa, viu seu pai, normalmente só o via no final da tarde. Ele havia pego apenas meio expediente este mês para ficar mais tempo com Louis. Apesar de muita discussão sobre o assunto, Louis não conseguiu fazer seu pai mudar de ideia, teve que ouvir ainda, questionamentos sobre a competência como pai, se o ocorrido foi sua culpa, se a falta de contato e afeto influenciaram tudo isso.
- Não pai, não foi culpa sua.
- Por que fez isso então?
- Já disse que não gosto de falar sobre isso, você não entende.
- Não entendo porque você não confia em mim.
Silêncio.
- Tomou seus remédios?
Silêncio.

Louis subiu para o seu quarto e automaticamente levou a mão até a chave para trancar a porta, não achou nada. Suspirou e afundou a cara no travesseiro, sentia raiva. Objetos cortantes: removidos, remédios de sua mãe: removidos, whisky: eliminado. Ânimo para respirar: procura-se.

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