Louis estava em seu quarto, deitado no chão de barriga pra baixo em vários papéis em branco, parecia buscar inspiração, ainda não tinha sua vontade de viver inibida pelo mundo externo, na verdade tinha, mas não era um sentimento tão forte, tentava se acostumar.
- Louis? Visita! - Gritou seu pai.
Louis não respondeu, ouvia passos delicados se aproximarem de seu quarto, já sabia quem era.
Parada na porta, estava uma menina bem pálida, de cabelo curto e bem escuro, era um tanto encorpada, quase sempre estava de branco, trazia com ela uma escultura feita por ela mesma, algumas folhas em branco e um estojo decorado... Era Elisabeth.
- Você demorou. - Reclamou Louis
- Foi mal, estava dando uns retoques finais. Olhe, gostou?
Louis analisou a escultura, era um rosto deformado feito de esparadrapos, pintado com diversas cores de tinta. - Nada mal. Fez sozinha?
- Sim... o que está fazendo?
- Tentando escrever, mas minha mente anda oca.
- Você é bom Louis, se não fosse não teria te escolhido, não desista, ainda vamos dominar o mundo com arte. - Louis sorriu.
- Sim, arte para o povo.
Louis e Elisabeth eram inseparáveis, se completavam, mantinham um no outro a vontade de tentar fazer algo diferente, articulavam projetos, planos, desenhavam, escreviam, moldavam juntos, se ajudavam como podiam. Ambos de caráter reservado, sabiam que o tinham pelo outro era forte, mas não demonstravam tanto.
Foram se arrastando pelo ano letivo juntos, eram uma dupla excluída como muitas por aí, até que em algum determinado momento, Elisabeth tentou algo novo, se permitiu amar, um amor sem barreiras e sem limites, foi um girassol em busca de brilho, mal sabia ela que seu amor era a lua.
Louis não se opôs, não se sentiu no direito de opinar, até se sentiu feliz por ela. Craig, namorado de Elisabeth, era 7 anos mais velho que ela, não terminou o colégio, trabalhava como garçom e dirigia o carro velho do pai por aí. No começo, como todo paixão fresca, foi tudo muito bonito, Louis e Elisabeth ainda se viam, mas ela criava pouco, contava para Louis suas novas experiências, quando convidada para elaborar algum projeto, dizia não estar inspirada, o que soava engraçado para Louis.
O tempo foi passando e Elisabeth se distanciando, Louis só a via com Craig, ele parecia um pouco rude, mas se ele lhe fazia feliz, Louis aceitava. Mas quando a viu debilitada, magra, com marcas de abuso e quando um boato chegou em seus ouvidos de que Elisabeth estaria gravida e abortou, Louis se viu na obrigação de tentar fazer o papel de amigo, de lhe avisar que isso não era saudável, de que sentia falta dos tempos onde só compor era suficiente. Foi falar com ela... foi a ultima vez. Brigaram, Elisabeth o julgou estar contra ela. Desde então, Elisabeth só andava com Craig e mal olhava mais para Louis, ele por sua vez não insistiu em uma reaproximação.
Passado algumas semanas da briga, houve uma festa no colégio, organizado pelo grupo esportivo, basicamente, iriam todas as pessoas que Louis não se identifica, mas quando se está completamente só e ainda não é capaz de associar tudo, há tentativas de se socializar. Louis ficou só na festa, ficou triste e angustiado, viu Elisabeth, percebeu que ela se tornou uma pessoa da qual ele não consiga se comunicar mais. Foi a primeira ponta da solidão total que abraçou Louis.
Apelou pra bebida, Louis nunca foi de beber, mas se sentiu no direito de afogar as mágoas, bebeu até rir e chorar sozinho, bebeu até perder o juízo e cair no chão, no meio do barro e virar piada. Sua cabeça rodava e tudo se misturava com o barulho ensurdecedor da vergonha e dos risos que vinham como flechas, procurou por Elisabeth, a viu, os olhos de Louis clamavam por ajuda, notou que Elisabeth até queria se desprender de tudo e ir até lá, tira-lo dali, mas ela estava com Craig, que estava rindo também, então ela se pôs a rir.
- Perdedores merecem isso. - Foi isso que ouviu dela.
Esse episódio mudou Louis, ele se tornou uma pessoa mais seca, mais amarga, descrente de bons afetos. Louis não teve mais apoio e cedeu, foi salvo pelos irmãos. Uma semana depois da festa, Elisabeth deixou o colégio, foi morar com Craig, nunca mais ouviu falar dela, até que um ano depois...
Lá estava ela, do outro lado da sala, os olhos de Louis lutavam para não envolvê-la em análises, ela estava péssima, muito magra, com manchas pelo corpo, com um olhar opaco, era o mesmo olhar que Louis tinha.
Lile notava todo esse clima pesado.
- O que está havendo? - Perguntou ela.
- É ela. - Disse Louis em baixo tom. - Elisabeth.
- A piranha que te humilhou? - Lile quase levantou da cadeira e seu tom de voz não foi tão baixo assim. Elisabeth a olhou de volta, trocaram farpas.
No intervalo, Louis tentava se assegurar que Lile não fosse conversar com Elisabeth, não gostava nem um pouco da ideia, Robert estava em um canto com Marie, provavelmente discutindo como sempre, vagando entre carícias e reclamações. Em um momento de descuido, viu Lile na cafeteria do colégio, parada atrás de Elisabeth, que comia alguma coisa, Louis se apressou.
- Não se aproxime dele. - Chegou tarde, Lile já havia abordado Elisabeth. Ela se virou devagar e permaneceu com o olhar focado em Lile.
- Do que está falando? Você é a aluna intercambista não é? Não me amole com suas paranoias, não sei por que permitem gente como você aqui no colégio.
- Mal voltou e já está bem informada, futilidade corre rápido.
- Lile! - Louis segurou o pulso de Lile. - Vamos. - Elisabeth olhava Louis e não sabia como reagir, não estava perto dele fazia um ano.
- Por sua maldita causa, Louis tentou se matar, sabia? - Lile se soltou de Louis, Louis bufou de raiva e saiu, não queria ouvir mais nada. - Se não fosse por nós, Louis não estaria mais aqui, você o abandonou, o humilhou. - Elisabeth permaneceu imóvel, tentou não demonstrar espanto, mas falhou, seus olhos corriam e seguiam Louis pelo corredor.
- Isso não é da sua conta garota, você não me conhece. - Elisabeth se levantou com uma expressão triste e foi em direção da saída.
- Não se abandona alguém frágil desse jeito. Ele está com a gente agora, não queremos você por perto. - Elisabeth não respondeu.
No dia seguinte, ela não foi ao colégio, Louis, movido por uma vontade estranha de tentar resolver algo já perdido, tentou se informar aonde ela morava, aonde trabalhava, se estava com Craig ou não, com a ajuda de Robert (já que Lile provavelmente recusaria ajudar) descobriram que ela está morando com uma tia, que está desempregada e que Craig havia morrido de overdose. Louis sentiu medo de que acontecesse a mesma coisa com ela, Elisabeth parecia péssima, já entregava as pontas.
Foi com Robert até a casa aonde supostamente morava, chamaram várias vezes seu nome, ninguém respondia.
- Acha que erramos o endereço? - Perguntou Robert.
- Acho que ela não quer falar comigo.
Quando iam embora, ouviram o barulho de uma janela se abrindo, era Elisabeth.
- O que quer? Acertar as contas? - Ela parecia lutar contra si mesmo.
- Não, quero que acerte contas consigo mesmo... você está sumindo Elisabeth.
Ela parecia segurar o que lá fosse que tinha dentro dos olhos vazios.
- Isso não é da sua conta.
- É só isso que você sabe dizer? Elisabeth, eu morri e voltei, você pode fazer o mesmo, não quero que sejamos amigos novamente, não quero forçar nada, mas quando eu te conheci você era alguém relevante, agora se tornou pó.
- O único pó que existe é o que vou cheirar pra ter que aturar vocês, sumam da minha casa.
Elisabeth não foi no dia seguinte, nem no seguinte, nem no seguinte, Louis saía com os irmãos, mas parte de sua mente estava em Elisabeth, ainda tem um dia seguinte de não comparecimento, mas dessa vez algo substituía a presença dela, um bilhete.
"Prezados alunos, sinto informar-lhes do falecimento de nossa aluna do segundo ano, Elisabeth, nossos pêsames aos amigos, familiares e colegas de sala, foi uma menina criativa e brilhante. - A Direção."
Os alunos passavam por ali, liam, absorviam a mensagem, mas ninguém parecia se importar, Louis leu, fingiu não se importar, mas foi pro banheiro chorar. Elisabeth cedeu, e não tinha ninguém pra trazê-la de volta.
"Mas se você estiver por aí, andando pelo mundo sem parar, ouça essa canção e saiba que o meu coração ainda é o seu lugar."
Nenhum comentário:
Postar um comentário