Estavam á caminho da casa de Louis, o pai, Louis, e a metade da metade da laranja. O silêncio reinava, Robert se sentia desconfortável apesar de ter aceitado participar do jantar, Louis se sentia envergonhado de tudo, seu pai sentia o dobro de vergonha e isso lhe comia as palavras.
- Obrigado por ter ajudado meu filho.
Foi tudo o que conseguiu dizer.
Adentrando a cozinha, Lile pilotava o fogão, não se importava com todo esse papo de "mulher tem que pilotar o fogão", ela pilotava, manobrava, fazia você comer poeira, e gostava, o cheiro da comida abriu um sorriso na cara pálida de Robert, que a abraçou. Seu radar de irmã logo notou que algo estava fora dos eixos, Louis fitava o chão e Robert sorria, mas quando se tem uma conexão muito forte com a pessoa, você enxerga além do sorriso na casca.
- Tudo parece muito apetitoso, menina. Sua mãe lhe ensinou a cozinhar desse jeito? - Perguntou o pai.
- Sim. - Disse com orgulho - Depois eu pratiquei bastante.
- Eu era a cobaia. - Robert disse rindo.
O pai riu também, trocaram olhares pela primeira vez, talvez ali tivesse ocorrido o pedido formal de desculpas.
Lile preparou um prato típico romeno, Carnatzlach, acompanhado de uma macarronada, caso o prato não agradasse todo mundo. Sentaram-se, sem cerimônias comeram, repetiram.
Louis e Robert lavaram a louça enquanto o pai secava. Lile foi posta em um altar depois da janta. O pai agradeceu a presença de todos na casa e foi dormir, não puxou muito assunto com os irmãos, mas já era um grande começo. Quando ficaram só eles na sala principal, contaram o que aconteceu horas atrás. Lile se enfureceu, disse que ia ter uma conversa séria com o diretor, se nada fosse feito haveriam denúncias, isso preocupava Louis. Robert ainda se sentia no direito de resolver tudo no punho.
Louis quis mostrar seu quarto para a metade da laranja. Estava um tanto desarrumado, nada fora do comum, alguns retratos na parede de sua mãe, outros de Lile e Robert no ultimo acampamento, muitos papéis na cama, rabiscos que poderiam virar algo concreto mais além. Deitaram os três na cama, ficaram conversando, trancaram as janelas, puseram uma toalha debaixo da porta e acenderam um baseado. Chapados, esperançosos de um futuro melhor e entretidos com eles mesmos, Louis tinha medo que isso acabasse, tinha medo de se tornar muito dependente de toda essa relação, mas fechou os olhos, se deixava entregar.
- Queridos, preciso ir dormir, vamos pra casa Lile? - Robert realmente parecia cansado.
- Por que não dormem aqui? Tenho um colchão debaixo da cama, posso dormir nele, e vocês dividem minha cama.
Os irmãos se entreolharam.
- É uma boa oferta, Rob. Está tarde para voltarmos, assim podemos fumar mais e conversar até mais tarde. De manhã cedo vamos pra casa antes de ir pro colégio.
Concordou. Lile sorriu de orelha á orelha. se enfiaram em uma coberta, fumaram mais até pegar no sono, enxeram o quarto de perfume masculino e foram se deitar. Louis puxou o colchão e se deitou, Lile e Robert se deitaram na cama de Louis.
Num desses sonhos mirabolantes, onde você tem asas e atinge os lugares mais inexplorados, onde você cai no infinito, onde nada faz algum sentido, onde é muito melhor não acordar, onde diversas mãos te proporcionam prazeres, onde várias bocas te beijam e depois cospem na sua cara. Louis estava longe, bem longe, foi trazido pra perto por uma mão que buscava prazer, a de Lile. Com muito cuidado ela saiu da companhia de Robert e se deitou no colchão com Louis, ainda sonolento, ele demorou pra entender o que estava prestes a acontecer. Quando notou, estavam se beijando, se acariciando, se provando como nunca. Louis teve súbito de juízo.
- Robert está aqui, vamos acordá-lo.
- Ele dorme como uma pedra. - Lile sussurrava em seu ouvido. Louis sentia todos os tipos de arrepios, sua cueca estava apertada. Lile podia sentir a respiração ofegante de Louis, seu corpo quente e um tanto trêmulo.
- Tá tudo bem?
- Sim.
- Louis, você é virgem?
- Que?
- Louis, você é virgem?
Silêncio.
Ela não insistiu, obteve sua resposta. O beijou apaixonadamente, ele retribuiu, Lile se entregou apaixonadamente, Louis aceitou. Transavam ali, no seu quarto, debaixo das fuças do irmão, que provavelmente não estava dormindo.
Entre gemidos e sussurros, a noite foi passando, a vergonha também, entre salivas e chupões, a noite foi uma criança crescida, entre penetrações e ejaculações, Louis se sentia novo.
No dia seguinte, Louis tentava não olhar para Robert, Lile agia naturalmente, tomaram café da manhã mais cedo, conversaram normalmente e se despediram. Robert não parecia zangado. Quando chegaram á escola, Louis avistou o mesmo sujeito que os atacou no beco, agora não tinha dúvidas, o que mais lhe intrigava era que estava conversando com o diretor. Será que ele foi descoberto? Os três se entreolharam mas não comentaram nada.
No intervalo, Lile interrompeu o passo do diretor.
- Gostaria de conversar com o senhor, diretor.
- Olá Lile, bom dia! Infelizmente não posso, tenho alguns compromissos. Me procure na minha sala amanhã, que tal?
- Me sinto ameaçada por um aluno.
Isso foi o suficiente para ele prestar atenção nela. Ele a abordou falando manso.
- Como?
- Me sinto ameaçada por um aluno, meu irmão e meu amigo já foram atacados. Ele é do terceiro ano do ensino médio. Gostaria que providências fossem tomadas, inclusive, era o menino na qual o senhor conversava agora pouco.
O diretor parecia um pouco nervoso, respirou fundo.
- Vou averiguar isso, ok? É uma acusação muito séria, você sabe disso, não?
- Exatamente por ser séria que estou falando com o senhor.
Ele sorriu sem graça, prometeu investigar o caso. Lile não sentiu confiança. Foi ao encontro dos dois.
- Ele agiu como se estivesse tentando não ajudar. Qualquer outra pessoa iria tirar isso a limpo na hora. - Lile dizia enquanto se punha a pensar, Robert fechou a cara.
- Maldito! Se ele também fechar os olhos pra tudo isso eu vou me virar.
- Não! Nada de brigas, chega. - Louis disse olhando para os dois - Vamos pensar,,, Eu vou procurar a ficha do sujeito na direção, posso ir escondido, ninguém me imagina fazendo alguma coisa dessas... Lile, qual o nome completo do diretor?
- Alfred Thompson.
- Obrigado. - E saiu.
A metade da laranja ficou pensativa e intrigada.
Louis voltou com cara de poucos amigos.
- Tyler Thompson.
Lile olhou um tanto surpresa para Robert. Ele por sua vez manteve a mesma feição.
-Você quer dizer que...
- Vocês nunca notaram a semelhança do nariz gordo?
Permaneceram em silêncio por algum tempo. Parecia um pouco mais complicado do que era.
Robert, de súbito, saiu em passos largos até o portão, tomou impulso e foi correndo até lá, Louis e Lile o seguiram preocupados.
- Rob! O que vai fazer? - Gritava Lile.
Antes que o diretor pudesse fechar a porta de seu carro para sair, Robert o impediu.
- Tyler Thompson!
O diretor o olhava um tanto incrédulo.
- O que quer dizer garoto?
- O nome do sujeito é Tyler Thompson, ele e seus amigos nos atacaram duas vezes, uma vez dentro da sua escola. O que vai fazer? - Robert não piscava. o diretor parecia engolir qualquer palavra, Louis e Lile estavam olhando de trás, apreensivos.
- Vocês tem provas?
- Temos testemunhas, diretor, eu acredito que ele não goste da gente por sermos de fora. Ele nunca anda sozinho e eu temo pela minha irmã, não estou com ela o tempo todo. O que vai fazer? - Aquela pergunta parecia irritar o diretor, ele suspirou, batia os dedos da mão de leve no volante.
- Tenho um conselho, apenas não se meta no caminho deles. Facilita pra mim e pra você. - Tentou fechar a porta de novo mas Robert a segurou.
- Você está protegendo ele por ele ser seu filho, não é mesmo?
Lile saiu da retaguarda e foi junto ao seu irmão.
- Isso mesmo! Sabemos que ele tem o mesmo sobrenome que o senhor. Vai fechar os olhos quanto a isso?
- Queridos... - O diretor saiu do carro, olhou para os dois, passou a mão em seus cabelos vermelhos e continuou - Vocês são apenas intercambistas bolsistas, apenas não se metam no caminho dos nossos alunos, já foi um grande presente vocês serem aceitos aqui, não é? Agora tentem ficar no lugar de vocês, ok? Vai facilitar muito minha vida. Tentem não causar algum tipo de alvoroço, ninguém vai levar vocês a sério. - Aquilo deixou Lile pasma, os olhos de Robert quase refletiam a cor de seu cabelo, fechou os punhos, antes que pudesse fazer algo, Louis segurou seu punho e o manteve abaixado.
- Robert, controle-se. - Louis olhava para o diretor com repulsa.
- Não vamos desistir, diretor.
O diretor sorriu de canto, tirou a mão de Robert de sua porta com força,a fechou e deu partida. Os três voltaram para o colégio com uma sensação azeda e amarga.
Nenhum comentário:
Postar um comentário