terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sonhar

Dei meia volta e fui colando os cacos, tropecei nos meus próprios ladrilhos, cobri os buracos, mas faltava muita coisa, comecei um quebra-cabeça com novas peças velhas, me perdi e desisti. Retornei ao zero, ao ponto de encontro, olhei para frente e estava tudo intacto, mas meus pés sangravam.

Imundo por dentro e por fora.

Não há culpados quando a sirene toca, não há refúgio em lares em baixo d'água. A onda vem e me arrasta, me guia sem direção e eu não consigo parar. Dou risada e me entrego a demência, posso rir até chorar. Essa onda ártica e cortante, que tira seu fôlego e não te deixa gritar... balbucio alguma coisa sem sentido... essa onda se chama sonhar.

Porque quando estás em alto mar, e seu barquinho já não consegue enxergar o que deixou, não vale em nada nadar dias e dias pra tentar dar adeus, colher o que foi esquecido, deixar claro que não foi sua intenção... vou morrer... então eu sonho... quando acordo estou em pé, olhando meu reflexo, "já tive dias piores", digo eu. Não quero mais voltar. Meus pés ainda sangram.

Não estou mais imundo.
Banho de mar.

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