segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Fire (10)

 Sobre aqueles momentos de júbilo e glória onde você se perde em felicidade, tudo é bonito, tudo vale a pena. As flores tem mais cheiro. mais aroma, o mundo é mais saturado, os dias cinzas são até mais bonitos, a chuva parece aspirina e o cheiro de mata úmida reascende momentos nostálgicos.
 O que de errado pode haver nisso? Para uma mente frágil e apegada á melancolia, como a de Louis, tudo. Nada muito bonito é confiável, nada muito afetuoso pode se transformar em algo bom. Louis olhava para Lile e se apaixonava, olhava para Robert e o admirava, vice-versa. Se via perdido sem os dois, e isso começou a incomoda-lo. Não queria se tornar tão dependente, não imaginava sua vida sem eles agora, apesar de saber que eles são o motivo pela qual manteve a vontade de continuar tentando, isso o assustava. Pensava que estava vivo apenas por eles, e não por si próprio, começou a sentir raiva de si mesmo, deles, de todos. O mar calmo se tornou revolto. 
 Havia marcado um café da manhã com os irmãos. Pediu para seu pai que dissesse que estava gripado e dormindo, assim ficaria no quarto, deu a desculpa que queria ficar sozinho.
 - Isso inclui você também, pai, desculpe. - E fechou a porta. 
 Ouviu lá de cima os dois falando com seu pai. Espiou pela janela, escondido entre a cortina, os dois saindo de sua casa com caras preocupadas. Lile tinha uma cesta de piquenique, sentiu uma ponta de arrependimento, mas ainda estava confuso. 
 Não foi para o colégio, disse que se sentia cansado e que pegaria a matéria depois. Quando desceu pro almoço, viu um bilhete de seu pai.
 "Louis, limpe a casa, fiz compras, tem várias coisas gostosas para cozinhar. Lile te deixou laranjas, disse que você precisa de vitamina C."
 Se sentiu mais triste, não queria se sentir triste por ninguém.

 No dia seguinte, Louis fingiu que ia para a aula, mas se escondeu na parte de trás da casa até seu pai sair, assim que saiu, voltou para seu quarto, não queria lidar com tudo. Várias mensagens de Lile e Robert estavam sem ser lidas no celular. Louis estava perdido, não sabia confrontar tanta beleza, tanta alegria, tanto amor. 
 Quando a noite chegou, ouviu do seu quarto Robert, que falava com seu pai. Louis atreveu-se a sair do quarto para ouvir melhor a conversa.
 - Não, ele não foi hoje, estamos preocupados, posso falar com ele?
 - Me desculpe, acho que ele está dormindo, disse que queria ficar sozinho.
 Espiava escondido atrás da parede, viu Robert esboçar um sorriso de aceitação, quase foi ao seu encontro, mas suas pernas não se mexiam. 
 - Ele foi ao médico? Se as laranjas e os remédios não fizerem efeito, podemos ir com ele se o senhor não puder. Eu posso subir no quarto dele só pra fazer companhia se o senhor não se importar.
 Louis não sabia o que fazer, imaginava que seu pai não tinha muitos argumentos restantes, correu para seu quarto e trancou a porta. Fez o mínimo de barulho possível, ouvia os passos se aproximando. A maçaneta se mexeu, Louis não respirava, via apenas a sombra dos pés de Robert.
 - Louis? - Robert falou baixo, com medo de acorda-lo e torcendo para que ele já estivesse desperto. 
 Houve um momento de silêncio, Robert tentou de novo.
 - Louis? Sou eu, Robert... você não tem ido a aula nem respondido nossas mensagens, estamos preocupados. 
 A vontade de Louis era abrir a porta e convida-lo a entrar, conversar sobre tudo e abraça-lo, mas tinha medo, um medo que nunca sentira, medo de se decepcionar mais uma vez. Elisabeth já o fizera muito bem.
 - Louis, eu te vi espiando... o que está acontecendo? Você sabe que pode contar tudo pra mim.
 Louis ficou paralisado, quase não conseguiu respirar. Robert não tentou mais, desceu as escadas e partiu. Pela janela, viu Robert deixando a casa, fumando um cigarro.
 Louis já não sabia o que faria, estava com medo, com raiva, triste, inseguro, queria gritar, chorar, se odiava naquele momento. A tristeza nunca deixa você aceitar a felicidade se você não souber lidar com ela.

 No dia seguinte, seu pai o obrigou a ir para aula, o levou de carro para ter certeza que não se esconderia novamente. Louis não abriu a boca o caminho todo. Quando entrou na sala, viu Lile no mesmo lugar de sempre. Sua cadeira á frente de Lile estava lá, como se Lile a tivesse guardado, ela abriu um sorriso de orelha a orelha quando o viu. Louis engoliu a vontade de correr até ela. Pensou em sentar em outro lugar mas isso seria maldade. Sabia que não tinha motivos concretos para não sentar-se ao seu lado, além de sua mente conturbada. 
 - Louis! Que saudade... você melhorou? Por que não respondeu minhas mensagens? Ontem Robert foi te ver e disse que você ainda estava doente. 
 Louis suspirou, se aproveitou do pedido de atenção da professora.
 - Lile, você tem hora pra conversar sobre assuntos banais, é o intervalo.
 Lile sorriu para Louis e fez uma careta quando ela virou de costas. 
 - No intervalo conversamos. - Lile disse sussurrando. 
 Quando o sinal tocou, Lile praticamente puxou Louis até o saguão, onde sempre ficam, Robert já estava lá, olhou com surpresa a presença de Louis. 
 - O que você tinha? Você parece um pouco abatido. - Lile passava a mão no rosto de Louis.
 Robert parecia um pouco mais intrigado, o olhava com desconfiança. - Melhorou, Louis? 
 Louis suspirou novamente, olhou o chão e fez que sim com a cabeça.
 - Estou bem, só um pouco...
 - Confuso. - Robert completou.
 Lile o olhou intrigada. 
 - O que está havendo?
 - Eu não estava doente, desculpem.
 - O que foi então? - Lile ainda parecia preocupada.
 - Eu não sei explicar. 
 Robert ficou de pé, olhava diretamente para Louis.
 - Está com medo?
 Louis fez que sim.
 - Está com raiva?
 De novo.
 - Por isso nos ignorou?
 Dessa vez não se moveu.
 - Quer que nos afastemos? 
 Louis queria chorar, estava se contendo para não sair correndo dali. Sabia que não queria deixa-los, seu peito pedia por eles, sua mente os rejeitava. Ouviu seu peito.
 - Não. - Disse cabisbaixo. 
 Robert o confortou, o puxou para perto dele o abraçou, puxou Lile também, que apesar de ser a mais esperta dali, foi pega de surpresa, quase chorava. 
 - Não tenha medo Louis. Eu entendo o que está acontecendo com você, eu sei o que você já tentou fazer e o que você tentou largar, e sendo muito sincero, eu fico feliz de você não ter conseguido, e se nós somos um motivo para que você não tente de novo, mantenha isso em mente, me sinto privilegiado. Eu sei como é se sentir desconectado do mundo, eu me sinto desconectado de Marie, mas eu sinto que se eu tentar, tudo vai valer a pena no final. Nunca vamos te maltratar, talvez te decepcionaremos porque não somos perfeitos, mas no final vamos estar juntos, não? Você é muito importante pra mim e pra Lile. Só preciso que você deixe a gente gostar de você e que você pare de fugir, me deixa triste. - Robert disse tudo isso sorrindo e riu no final. Louis dava pequenos soluços, não queria se debulhar em lagrimas na frente de todos. Lile se aproximou e o abraçou, disse baixinho em seu ouvido:
 - Não deixe ninguém fazer você pensar que está sozinho, nem você mesmo, sua vida está apenas começando, você vai encontrar mais pessoas que vão fazer você perceber que valeu a pena... Nós amamos você, idiota.
 Ao final da aula, combinaram de ir ao café bar, fazia um tempo que não iam só os três. Lile e Louis esperavam por Robert na saída, o viram conversar com Marie, que mais uma vez parecia brava, provavelmente Robert estava desmarcando algo ou negando uma saída com ela para sair com sua irmã e Louis. 
 - Está tudo bem? - Perguntou Louis.
 Robert suspirou. - Vai ficar. 

 No café bar, pediram seus cappuccinos, fumaram seus cigarros, deram risada, ficaram em silêncio, apenas se contemplando em olhares perdidos, quando um assunto surgia, o devoravam e iam longe. Louis se sentia completo novamente, ainda sentia medo, ainda estava inseguro, mas lutava contra si mesmo naquela hora, acreditava que poderia valer a pena continuar tentando.
 Após essa reunião, Robert foi trabalhar, Lile convidou Louis para almoçar em sua casa, ele aceitou. Entre conversas e risadas, Lile teve a ideia de se aproveitar da presença de Louis para arrumar a casa, era mais um período de arrumação, da troca de posições de móveis e decoração. Vasculhando algumas fotos, Louis achou várias dos irmãos ainda crianças e pré-adolescentes, viu algumas mais recentes também, ainda na Romênia, Robert tinha cabelo preto, sua cor natural, parecia bem diferente, Lile pintava de laranja naquela época.
 - Você sente saudades? - Louis perguntou.
 - Desse cabelo não. - Riu - Mas do resto sim, da mamãe, até do papai, da nossa casa, de tudo. Um dia vamos levar você pra lá.
 - Vou adorar.
 Ficaram em silêncio por algum momento, Lile, com toda sua delicadeza e aleatoriedade, perguntou:
 - Você é virgem né? 
 - Você deve imaginar que sim.
 - Imagino.
 - Você é? - Louis perguntou com um pouco de vergonha.
 - Não. Isso me torna uma pessoa menos confiável pra você?
 - Não. 
 - Ótimo.
 Silêncio. 
 - Louis?
 - Oi.
 - Me beija?
 Dessa vez não era um sonho.
 Louis dessa vez não disse seu famoso "oi?" ou "que?", respondeu beijando-a. Até se sentiu atrveido. Uma onda de calor irradiava dos dois, talvez por ser a primeira vez de Louis, ou porque Louis e Lile faziam uma combinação maravilhosa. Lile o conduzia na dança até Louis se encontrar, sua mão seguia a dela, e quando se sentia confiante, ia até onde queria ir, Lile lhe dava consentimento. Estavam no quarto dos irmãos, Louis contemplava cada centímetro de pele pálida de Lile, fazendo jus a primeira vez de um garoto, contemplando a obra prima que é o corpo feminino, recém aflorado. Estavam literalmente se amando, não foi nada constrangedor, nem vergonhoso, Lile foi uma boa guia, Louis já estava confortável, já dominava a si mesmo e as vezes, dominava-a. Gostaram, repetiram, tomaram banho juntos, comeram juntos, ele de cueca e ela só de calcinha, estavam livres. Ele estava livre.

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